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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Perfeição

 Perfeição

Perguntam para mim da perfeição:
"Onde está? Onde esconde-se? Onde mora?
Onde encontro seu rosto mundo afora?
Qual, enfim, sua significação?"

E sem que eu lhe responda, ele completa:
"O círculo perfeito é abstração
E não possui no mundo uma expressão;
A toda perfeição, o mundo veta!"

Imperfeita é a coisa por não ser
Igual da coisa a idéia que se fez?
Penso e penso e me ponho a responder:

"Não vês? A perfeição está aqui!
Está em tudo, tudo que tu vês!
Tudo é perfeitamente igual a si."


Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Prelúdio



"Nada é tão poderoso no mundo quanto uma idéia cujo tempo chegou."
                                                                     Victor Hugo



 Prelúdio

Ouçais a voz oculta em vosso peito,
O vivo e mor anseio já sentido,
O grito que resiste no oprimido
Mesmo quando sem voz para ser feito!

Ouçais a voz do eterno sonho eleito,
Os ecos dum passado sempre fido,
O brado que jamais foi esquecido
De todos que lutaram co'o Direito!

O tempo que se faz e tudo invade,
O desejo fulcral de Liberdade,
O mundo vem allegro proclamando!

Ouçais! Ouçais a voz que se levanta!
O som divino, a sinfonia santa
De todos os grilhões s'espedaçando!


Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Chuva



A Chuva

Lá fora a chuva cai de lado a lado
Além da transparência da janela
E penso que é um espelho que revela
A mim o que é de mim não revelado.

Vasculho em suas gotas meu passado,
Nas dores eu caminho dentro dela
E penso que é um espelho que revela
O pranto que já tenho derramado.

"Oh! Chuva, que murmuras brandamente?
Qual mistério se encerra em tua mente?"
Eu pergunto às mil lágrimas prismais.

Mas nada ela me diz, nada me fala...
Como é vão... Como é vão interrogá-la!...
A chuva é só a chuva e nada mais.


Ivan Eugênio da Cunha

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Utilitarismo



Utilitarismo

Instruído na sagaz filosofia
De Bentham e de Mill (que, ao definir
A norma universal de como agir,
Nesta máxima curta resumia:

"Age de forma a sempre produzir
Maior felicidade."), eu pretendia
Que todo verso meu fosse alegria
E meu dever moral o transfundir.

Mas - vil! - expus o mundo a mil horrores!
Incauta, libertou minha caneta
O monstro que devora a mocidade!

Perdão! Perdão eu peço a vós, leitores!
Deixei fugir o monstro da gaveta
E agora avança contra a humanidade!


Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 4 de agosto de 2013

Herege




"O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.”
Augusto dos Anjos


Herege

O Amor no mundo passa muito arguto;
Junto às almas clamando pela Crença,
Mas em mim só encontra indiferença,
Pois deste credo nada mais escuto.

Seu discurso prosélito, poluto,
Aos peitos contamina como doença;
E não há no seu verbo uma sentença;
Que das vãs ilusões não seja fruto.

Ah! dizes que me engano sobre o Amor...
Que dele emana o Riso e não a Cruz,
Mas sei a vastidão do precipício,

Pois fui já seu mais probo seguidor;
E, cego pela Fé, um dia eu pus;
Meu coração no altar do Sacrifício!

Ivan Eugênio da Cunha


sábado, 27 de julho de 2013

Fim último de todas as jornadas




"Imperious Ceasar, dead and turn'd to clay,
Might stop hole to keep the wind away."
Hamlet (Ato 5, Cena 1) - Shakespeare


Fim último de todas as jornadas,
A Terra acolhe todos no seu seio.
Orgânicas moléculas finadas;
S'encontram neste lar de vermes cheio.
Alexandre, Ramsés, Augusto César;
Aos servos se juntaram no final.
A matéria da Vida se reveza;
Entre as pompas de um rei e um vegetal.
Oh! Terra, testemunha de meus passos;
E todas as batalhas do passado,
Também quero a ternura de teus braços,
Também quero por ti ser reciclado,
     Pois a dor que me vence nesta vida,
     Na vida doutro ser será vencida!


Ivan Eugênio da Cunha

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Amante

"Lançar um grande amor aos pés de alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento!" 
Florbela Espanca

O Amante

O amante sente júbilo profundo;
E da razão mui pouco espera e sente.
Só sente a voz serena doutra mente;
E co'ela erige o sonho mais jucundo.

Ele tem no seu âmago uma lente;
Que, audaz, naquela voz converge o mundo,
Transmutando-o em mil versos dum facundo;
Poema epopéico, rutilantemente.

Ah! bêbado das ledas fantasias;
E todas as divinas eufonias,
O amante, d'esperanças, é cobrido.

Mas tudo, ao fim, se faz demência e dor,
Pois sempre o vinho idílico do amor;
Num cálice de chumbo vem servido!



Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 23 de julho de 2013

Invaja Bruta







Inveja Bruta

Olhai p'ra aquela pedra rija e muda.
Sua forma assimétrica e tão clara;
De complexa figura escravizada;
Pelo suave grilhão da Eternidade.
Olhai como não sente a Natureza:
A tempestade e a fúria rutilante.
Olhai p'ra aquela pedra paciente;
Esperando na eterna inconsciência;
Pela morte das eras e do espaço...
Ah!, olhai, olhai mais e com mais tento;
E havereis de sentir inveja dela,
Pois não sente nem quando nela pisam,
Tem bruta indiferença pelo tempo...
E a Paz irredutível de Não-Ser.


Ivan Eugênio da Cunha

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Âmago de Atlas


Âmago de Atlas

Pesa-me, sobre os ombros alquebrados,
Os pilares do escuro firmamento,
Onde firmam-se nuvens de lamento;
Carregadas com ácidos enfados.

E cortam-me, laceram-me, os afiados,
Os incorpóreos cacos dum momento;
Passado que a lembrança traz no vento;
E são partes de sonhos já quebrados.

Qual chumbo rarefeito pesa o mundo;
Atmosférico e negro, onde o profundo;
Vórtice da Tristeza não tem fim.

Ah!, quanto peso, quanto peso, quanto;
Peso e quanto pesar e desencanto;
Carrego sobre os ombros dentro em mim!

Ivan Eugênio da Cunha

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Noite Eterna


Noite Eterna

No silente relógio sideral,
Contemplo a Lua Cheia passear;
Uniforme e contínua sobre o mar;
Qual gris ponteiro grave de cristal,
Que mensura, preciso, meu cismar,
Minha dúvida muda a recitar;
"Por que do bem passado este final?!
Por que de tanto bem só tenho mal?!"
    E espero pelo Sol, a luz vistosa;
    Qu'ilumine minh'alma co'esperança;
    E elimine as mil farpas da lembrança.
    Mas quando, enfim, a Lua, vagarosa,
    Beija o mar e se afunda n'horizonte,
    Outra Lua s'eleva atrás, num monte!

Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mar



Mar
Mar profundo de tez ensangüentada,
De feridas abissais, de escuro infindo,
De monstros assombrosos consumindo;
Cardumes de brancura imaculada;
Tornei-me quando fiz Amor bem vindo;
Nas águas de meu Ser, na minha alada;
Alma cândida, alma governada;
Pelo som da Esperança, que ora é findo.
    Mar infértil, sem vida, sem doçura...
    Mar amargo e salgado onde a tristura,
    Das correntes brutais, faz suas veias.
    Onde o negro lamento meu, gelado,
    Soa fundo, distante, contristado,
    Como o canto soturno das Baleias.

Ivan Eugênio da Cunha

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Passacaglia e Fuga







Passacaglia e Fuga
I
Passacaglia

Sons etéreos, profundos, ressonantes;
- Abissal melodia dos pedais -
Desprendem-se dos tubos magistrais;
E voam pelos ares, triunfantes.

Sinergeticamente consonantes,
Freqüências s'entrelaçam mais e mais;
Num tecido de sons celestiais,
Harmonias perfeitas e vibrantes.

Acompanho estes sons, as melodias...
A seqüência de eternas eufonias...
Acompanho vagarem no meu Ser,

Onde, em minha memória, eternificam;
E dentro de minh'alma se amplificam;
Ressonando nas cordas do Prazer.


II
Fuga


Voai, voai distâncias infinitas;
No espaço qual no tempo já voais!
Voai, voai, oh!, sons de catedrais,
Melodias fugazes entreditas,

Para o longe das rochas selenitas,
Para além: as esferas siderais!
Para sempre voai! Voai benditas!
Voai benditas sempre mais e mais!

E que vossa existência na Existência;
Cubra o Todo e do Todo seja essência...
Ah! vozes harmoniosas, vos apelo:

Voai, voai quão mais podeis voar,
Que não há quem não há de apreciar;
O ideal metafísico do Belo.


Ivan Eugênio da Cunha

PS: Esses sonetos foram inspirados pela obra "Passacaglia e Fuga" de J.S. Bach.

sábado, 9 de março de 2013

Distância






 Distância

Metros, quilômetros ou anos luz;
Mensuram este espaço trivial,
Mas distância mensura muito mal;
A distância que a mente reproduz,
Pois Saudade no cérebro reluz;
O passado, em delírio neuronal,
Faz distância no tempo ser banal
E a sombra da presença virar cruz.
     Disseras que, p'r'as minhas agonias,
     A distância - quilômetros e dias -
     Seria tal remédio é p'ra doença,
     Mas digo-te, contrário à rija lex;
     Naturalis, nem mil quiloparsecs;
     Fariam dessentir tua presença.


Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Soneto da Mor Desventura

 Soneto da Mor Desventura

Que m'importa se o céu está risonho;
E o Sol brilha em tons lindos de amarelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se morto está meu sonho?

Que m'importa se cá, onde me ponho,
Aves cantam num coro tão singelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se dentro decomponho?

Que m'importa se belo é todo o mundo;
Se à minh'alma ele todo não conforta?!
Respondei!: que m'importa?!, que m'importa?!

Que m'importa viver mais um segundo;
Se carrasco o Tempo é do coração;
Desde quando ela dorme num caixão?!


Ivan Eugênio da Cunha

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Oh!, Leitores



“Quem de meus versos a lição procura,
Os farpões nunca viu de amor insano,[...]”
 Correia Garção

Oh!, Leitores

Versos vários de negros sentimentos;
Vomitei nestas páginas sombrias.
Se lêsseis co'atenção a todos eles;
Percebestes que todos são de amor.

Amor que semelhante me devora;
A um torpe parasita sanguinário;
Que consome os tecidos musculares;
Sem nunca eliminar a sua fome.

Oh! leitores, se alguém de vós procura;
Algum ensinamento nos meus versos,
Algo que da razão seja produto,

Ah! digo-vos: ingênuo é este alguém;
Que procura tamanha lucidez;
Nas palavras convulsas dum amante.


 Ivan Eugênio da Cunha

PS: Este é meu primeiro soneto em versos brancos. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Choro Alegre

Chorinho - Portinari

Choro Alegre

Violão de sete cordas baixaria;
Pronuncia p'r'os ares de mansinho;
E a flauta e o bandolim e o cavaquinho;
Acompanham num Choro de Alegria;

Ou Tristeza, contida na agonia;
Dos bemóis, que vêm vindo no caminho;
Da pauta, modulada em tom vizinho;
Depois da lamentosa baixaria.

Mas modula de novo em desaforo;
E volta p'ra alegria donde veio,
Repete e p'r'o final vai sem tropeço.

Quisera minha vida ser um Choro;
Alegre que modula pelo meio,
Mas logo volta ao tema do começo.


Ivan Eugênio da Cunha

22 Anos



22 Anos

22 anos conto pelo estreito;
Corredor de lembranças pulverosas,
Mas contam minhas dores pavorosas;
Que mais velho ou já morto está meu peito.

Dois cisnes numerais são meu afã;
E, abstratos, navegam por meu fado.
Dei-lhes nomes, conforme me foi dado:
Branco é Ontem e o negro é o Amanhã.

Ah! por que a Fortuna me dá tanto;
Tempo de sobrevida neste pranto?!...
Por que do bem passado só recordo?!

Não quero tanto tempo, quero danos;
Que firam a ampulheta de meus anos;
Com tapas bem no topo, se inda acordo!


Ivan Eugênio da Cunha

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Embrião Onírico


Death Crowning Innocence - George Frederic Watts

Embrião Onírico

Embriologicamente concebido,
Um sonho fecundado pelo Amor;
Cresceu dentro de mim e, com ardor,
Tornei-o d'esperança bem nutrido.

Cresceu mais cada dia revertido;
Em noite e cada noite anterior;
A um dia, num crescente de vigor,
D'esperança, de amor a ser vivido.

E o sonho era perene, assim eu cria...
Crescia mais ainda quando eu via;
Ela e sua beleza angelical.

Mas, ah!, ele nasceu tão desgraçado!
Não viu sequer a luz: foi enforcado;
Pelo próprio cordão umbilical!


Ivan Eugênio da Cunha

Triunfo da Morte



Triunfo da Morte

Guerra entrópica! Guerra já perdida;
De orgânicos motores cerebrais,
De matéria consciente, reluzida,
Contra os ásperos rumos naturais.

Guerra críptica! Guerra já vencida;
Pela dama das eras eternais,
Que ceifa, fremente, cada vida;
Deixando um rastro vil de "nunca mais".

Mas não dá-se por farta a torva Morte;
Em adentrar-se, como atroz felugem,
E tornar um motor à imota sorte.

Seu triunfo não é pleno de verdade;
Sem antes impregná-lo de ferrugem...
Tomar o coração e a sanidade!


Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Perecendo


Perecendo

Foi, outrora, euclidiana minha mente,
Com retas, que eram retas, de clareza;
E planos, que eram plenos na certeza;
De que o Sol nasceria novamente.

Mas o amor, que m'invade persistente,
Entortou estas retas co'aspereza;
E curvou os meus planos co'a tristeza...
Fez nova geometria: a dum demente!

Ora canto este túrbido universo;
Com dores, com pesar em cada verso...
Com melodia feita de negrura,

Pois só escuridão foi o que vi;
Quando, em minha geodésica, eu caí;
No vil buraco negro d'Amargura.


Ivan Eugênio da Cunha

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).