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sábado, 2 de dezembro de 2023

DEGREDO

 








Mágoas d’água garoam

Agora em degredo

Do suposto encantamento

Ninham pelo caminho

De palavras criadas em pedacinhos

Ao revés do sentimento

A garganta ainda espanta

O silêncio do bocal firmamento

Salivas alçam voos menores que ontem

Onde no tempo moram as sombras

Que contém as milhas do contentamento.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

DE DANTE PARA BEATRICE

 





Beatrice, minha vida!
Clamo por teu belo nome
Com teu calor, luz querida!
O desejo nunca some


Os teus lábios cor-de-rosa
Um vendaval de emoção
Teus olhos queimando a prosa
Assanhou meu coração


Peço a Deus uma lembrança
Nessa ausência prolongada
Que me dê uma esperança
De rever a minha amada


A tarde chora o crepúsculo
A tristeza toca o sino
Para um Dante tão minúsculo
Sem teu fulgor... Desatino.



Marco Antonio Campos


Texto que integra a III E-Antologia de Poesia Retrô

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

OÁSIS






Descobri, escondido em mim, um intenso deserto.

Pois quando se esvai a certeza que trago no peito,

A solidão, tão gélida, é tristeza que arde como fogo!

Dias incertos… noites sem rumo… latente perigo!

 

Avança a terra árida e seca a soterrar,

Veloz, implacável, o doce e misterioso lago,

Profundo, calmo, antes capaz de ocultar

As feridas mudas que há muito carrego.

 

Resisto, agora, à sina deste sol inclemente.

Largo fardo que, sem você por perto, emergiu.

Decerto, a fluidez se condensou; e a saudade,

Dura como concreto, então logo se precipitou.

 

Nem sequer sabia do tamanho desse vazio.

Nem mesmo suspeitava desse silêncio arredio.

Daquele oásis fictício, restou certo orgulho ferido!

Seria, da escassez interior, um encoberto resquício?

 

Grato, confesso: não descobri - fui revelado!

Sim. A solidez tem andado comigo lado a lado.

O espelho d'alma era mera miragem, não nego!

Antes, te peço: além das águas, lapida meu ego!



LUXOR KRON


Mais um poema de nossa III E-Antologia de Poesia Retrô

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

BRINCANDO DE FAZ DE CONTA NO CORAÇÃO DO MUNDO (Edih Longo)





Apesar de mais embaixo, ele é o coração do mundo

na parte mais grossa dele, destilo minhas poesias

macacos pedem-me cachos de versos com euforia

uma arara enrosca-se no galho com o olhar profundo

 

abro um leque da palmeira de sílabas que se casam

navego no rio Negro molhando letras com unguento

oxigeno o peito e me farto dos odores que exalam

para colher versos belos e plenos de sentimento

 

escondida pela mata vejo uma linda criatura

─ a Jurema, linda índia, com calças de brim desbotadas ─

(por que deixamos nossas raízes tão banalizadas?)

Isso desbota a minha alma, dando-me triste amargura.

 

Parei para descansar à sombra de uma amendoeira

em outra fiquei feliz mascando gostosas castanhas

achegou-se um miolo de bumbá em sua roupa festeira

o rapaz versava com rima numa cantiga estranha

 

─ Dona moça, vá visitar a Virgem de Nazaré

leve os seus medos e perfume-se de banho de cheiro,

acenda as velas para ela, peça-lhe um amor verdadeiro

nossa Santa é famosa e a senhora precisa ter fé!

 

Do alto para onde fui, avistei São Luís (do Maranhão)

— A cidade brasileira fundada pelos franceses —

um dia sofreu dos holandeses uma triste invasão,

mas foi retomada e colonizada por portugueses.

 

Jamais eu me esqueceria da beleza que é Teresina

capital do Piauí, com o seu corso tão democrático

que famílias inteiras dançam, num rodopio de mágico

e a vida também vagueia como se fosse uma menina

 

Segui um caminho árido e deparei com uma carcaça

os xique-xiques tortos, (que paisagem mais antiga!)

pareciam braços secos, mas sem qualquer ameaça

e o sol batendo a pino no meio daquela caatinga.

 

Voei como um colibri procurando paragens boas

caí nos braços do Atlântico, parei em praias formosas:

cheirei Maceió, adorei Recife, amei Aracaju airosa

bebi Fortaleza, engoli Natal, comi João Pessoa,

 

descendo mais, descansei um pouco e iniciei nova rota

encontrei Salvador, baiano bom, com a cara brava

─Pensei que tinha me pulado, sua poeta idiota!

─Jamais! Atei-me em seu pelourinho e agora sou sua escrava

 

enquanto corria com entusiasmo atrás de um trio elétrico

conheci um rapaz moreno lá das bandas das Gerais

o moço era um cavalheiro, coisa que nunca é demais

além do mais ele tinha um ótimo gosto poético.

 

Minas é berço de políticos e de outros movimentos

povo simples escondidos nos silêncios de seus atos

“liberdade ainda que tardia” é um sério juramento

observo o seu Belo Horizonte e apenas colho os fatos

 

deixo quieto os Ministérios, pois deles quero distância

não leio mais semanários, fecho os olhos para a mídia

“acabou a fome, o banditismo, as doenças, toda a insídia!”

Essas notícias eu quero e as crio no meu mundo de criança.

 

Agora meu voo é rápido pela linda Goiânia

que sina dessa moça que é o solo da poesia brejeira!

A vil rampa perto dela que tanto nos rouba e engana

aboleta-se numa brasília sem freio. Olhe a carteira!

 

Eu já me retirava, quando alguém puxou minha blusa

Sou apenas um bebê, quero ouvir suas palavras com calma

─ Tocantins, você merece não só palavras... Mas palmas!

Acarinhei seus cabelos e dele fiquei reclusa.

 

nasceu outro dia, vive no peito de um gigante adormecido

anda sem vacilar e não dá a ninguém nenhum cuidado

não se envolva com futrica, será sempre um filho amado

nasceu de um excelente estado, será um dia reconhecido

 

como em um parque infantil escorrego em uma montanha

os bichos coloridos fazem para mim uma festa

que aproveito a beleza que Deus agora me empresta

acaricio todos, sentindo harmonia tão tamanha


pois, Campo Grande é a própria imagem que ao seu nome se emposta

Capital do Mato Grosso, o do Sul, com sua fauna e flora.

Cuidando de sua árvore de cuias e do índio que ela adora,

o do Norte, capital Cuiabá[1], é uma mulher de quem se gosta.

 

Naveguei no Paraná, peguei um barco e curitibei

suguei aquela organização, que santa felicidade!

Saboreei vários pratos, com arame me operei

cheguei cansada e aportei numa alegre comunidade

 

o Rio Grande do Sul me esperava com sua cuia de mate

trouxe churrasco do bom e tropeiro numa terrina

subi o Guaíba para abraçar a loira Catarina

fisgou esse coração andarilho que ora é abrigo de vate

 

a bela possui dois filhos: o continente e a ilha

surfei com Joaquina e Consolação, amei Florianópolis

descansada, finquei pé no caminho mudando a trilha

preciso conhecer e acariciar as demais metrópoles.

 

Subi na quina do tempo que me jogou num abraço

senti tanto aconchego que me esqueci das mazelas

e o Cristo entristecido ao ver sua cidade numa cela

abraçava-me alegre, tirando-me todo o cansaço

 

purifiquei o meu espírito e resoluta fui à Vitória

todos lugares que passei, vi o meu povo cabisbaixo

apelei ao Espírito Santo e corri para o fim da história

enchendo-me de poesia e mais uma oração encaixo

 

minha viagem acabei. Sentia um misto de alegria e angústia

respirei cultura no Masp, Paulista eu me vesti

fiquei fora algumas horas, qual o filme que não vi?

Bandeirantes desfilavam na Avenida, houve uma denúncia.

 

Acabaram-se as desgraças, o povo está liberto.

Só há político honesto, temos renovada esperança:

nas ruas não há mendigos, nossos portões estão abertos;

as cadeias viraram casas; só Deus é a nossa crença:

 

 

não há desempregados; mesa sem pão; não há viatura.

A polícia cuida do povo que anda tranquilo mal o dia desponta

há casais sob o luar e a vida anda na maior desenvoltura

guardei essas expectativas em um mundo do faz de conta

 

lamento que tudo tenha sido um sonho tão almejado!

Quando o mundo crer que aqui bate forte seu coração

dar-nos-á loas, porque ainda somos dele o pulmão,

e acredito que um dia verei esse País idealizado.

 

FIM



[1]- Cuiabá – uma das versões da origem do nome é que os frutos das cuieiras que são grandes e ovoides, quando secos, os indígenas usam como vasilhas. Costume preservado até hoje, principalmente, pelos sertanejos do Nordeste brasileiro.

 

Fazendo jus ao nome artístico da poetisa, este poema longo em versos livres é uma alusão épica pela extensão e pela carga poética do tema brasileiro. Encontra-se na III E-Antologia de Poesia Retrô que você pode baixar AQUI


terça-feira, 14 de novembro de 2023

LUA DE MARFIM (Aline Bischoff)

 



Contemplo-te no céu,

Admiro-te sobre o mar,

Guio-me sob o seu véu,

Misterioso clarão do luar!


Oh! Lua de marfim!

Tem pena! Tem pena de mim!


És minha saga,

Beijo o chão

Por onde vaga

O teu clarão!


Oh! Lua de marfim!

Tem pena! Tem pena de mim!


           Aline  Bischoff

Texto presente na III E-Antologia de Poesia Retrô (2023) que pode ser baixada gratuitamente aqui mesmo no blog. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

CRISTAIS ABANAVAM

 



Cristais abanavam

E copos tilintavam

Em preces que davam

Felizes votos por sinceros

De burguesias e cleros

Mais nobres austeros

Pelo mediático enlace

Que vida bem trace

Por desígnio que «Vá-se

Lá saber porque cristais

Abanavam como presenciais Aos ditos tão essenciais.»


Luís Amorim



Biografia

Luís Amorim, natural de Oeiras, Portugal, escreve poesia e prosa desde 2005. Tem já escritas cerca de 2000 histórias, 86 livros de ficção publicados e com numerosas participações em antologias literárias, revistas e jornais em Portugal, Brasil, Suíça, Colômbia, EUA e Inglaterra.

domingo, 14 de outubro de 2018

O Mal do Século - Renan Caíque

O meu primeiro livro de poemas "O Mal do Século" será lançado dia 30 de novembro, mas já se encontra na pré-venda, e com desconto.Para quem tiver interesse em adquirir, segue o link: https://www.soturnos.com/product-page/o-mal-do-s%C3%A9culo



Sobre o Livro: O livro, escrito de 2012 a 2018, é composto em sua maioria de poemas, sobretudo sonetos, mas traz também algumas prosas.  O título faz referência à maior influência artística do autor: o período literário da Segunda Geração Romântica, que ficou conhecida como "O Mal do Século" e "Ultrarromantismo" e aos seus autores. Os ultrarromânticos eram jovens poetas extremamente sensíveis que se sentiam impotentes diante de uma sociedade materialista que tornava irrealizáveis os seus sonhos, e viam o homem de sua época como um ser fragmentado, relegado a uma simples peça da engrenagem social. Eles acreditavam que o espírito humano busca sempre a perfeição, porém, o homem é incapaz de atingi-la por ser uma criatura imperfeita; e a constatação dessa impossibilidade produz insatisfação, angústia e uma obsessiva atração pela morte, encarada como saída definitiva para resolver tal insaciedade. Esses poetas, geralmente, não conseguiam se adaptar a esta sociedade que os não compreendia, o que os levava à solidão e à criação de seus próprios mundos interiores. Além do Ultrarromantismo, o livro traz várias características e referências da Literatura Gótica e do Simbolismo. 

Sobre o Autor: Renan Caíque (28/09/1993) é de Teófilo Otoni/ MG. Funcionário público estadual e graduando em Ciências Contábeis na UFVJM(Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri). Amante de Literatura e Arte em geral, escreve desde os 13 anos influenciado sobretudo por autores clássicos como Álvares de Azevedo, Lord Byron, Shakespeare, Goethe, Schiller, Alfred de Musset, Percy Shelley, John Keats, Hermann Hesse, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe e Charlotte Brontë.. Já colaborou escrevendo para diversos sites, blogs, revistas, fanzines, jornais, ganhou alguns concursos literários e tem vários textos publicados em antologias literárias. "O Mal do Século"(2018) é o seu primeiro livro solo. 

*Os livros serão enviados a partir de 20 de novembro. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

LÁPIS LAZULI


DESFAZ-SE no brancor angelical das ondas
manhã de abril, o azul em tudo, o mar em mim
soprando aquele adeus. Na luz do peito aberto, 
os sonhos que perdi, as juras de um amor.

Deixei no sal do mar o sal de todo o pranto
de todo o pranto azul que em gota refletia
o abril daquele céu, sem pérola de nuvem,
e um outro mar descia às ondas de meu rosto.

Adeus! Palavra que guarda em seu fundo o sopro
da morte de um passado, o estrondo do silêncio
e que na tempestade de uma noite infinda
apaga o último farol das ilusões.

Na tinta esmeraldina de uma doce tarde, 
hoje já morta, pálida lembrança, resto
de um sonho gracioso, à flor de seus cabelos
em juras consagrei o amor de meus delírios.

Em vão! De um riso evanescente, o seu reflexo
é tudo o que eu guardo, o sal das ondas brancas,
o peito apunhalado pelo céu de abril,
e o mar impiedoso, a sussurrar: adeus.

GABRIEL RÜBINGER

Quadro: Shadows on the sea at Pourville - Claude Monet

segunda-feira, 9 de julho de 2012

SÁFICO + HEROICO!




http://manlyskills.files.wordpress.com/2012/06/man-praying.jpg

  PUDOR


Tens as virtudes que bem tive outrora:
Pudor, modéstia, retidão, aurora.
Joias humildes do rapaz que ora
Um bel-prazer casto, a riqueza honesta.
Mas após conhecer-te, abriu-se a fresta
De luxúria, atributo do Inimigo.
Vou perdendo nos meus sonhos contigo
A tão pouca decência que me resta!


Rommel Werneck



NOTAS:



1. Os quatro primeiros versos seguem uma linha de raciocínio, portanto decassílabo sáfico (4a e 8a e 10a) ao passo que os outros versos estão em martelo (3a, 6a e 10a)

2. Amor não precisa ser clichê, o mesmo válido para conflito interno religioso... Fujamos do óbvio.

3.  Vamos tentar construir poemas em formas livres mas em isométricos e rimas. #estudodepossibilidades.

segunda-feira, 12 de março de 2012

CANTIGAS PRA SINHÁ








Sinhá
que desabotoa em pétalas,
as rosas brancas se coram de vermelho
porque ficam envergonhadas com tua beleza...

*

Sinhá
que me faz remoer, que me faz banzar,
que me fazer procurar candeias no escuro,
que me faz engarrafar meus sonhos e guardá-los para mais tarde
porque afinal eu prefiro mesmo é passear de mãos dadas com vancê...

*

Sinhá,
tu te esqueces de mim?
É que te lembro no meio do dia
no meio da noite
no meio do caminho e no final também
e quando vejo um passarinho ligeiro sambando no galho
e quando a lua está bem cheia e me pede uma serenata...
Pena que eu não sei tocar violão!

*

Quem te fez, Sinhá?
Não sei quem te esculpiu e depois ainda por cima
pôs esse vestidinho florido só pra debochar a gente!
Tenho inveja desse teu colar... Queria ficar que nem ele,
agarradinho no teu pescoço o dia inteiro...

*

Sinhá, onde estiver
(não importa),
te procuro
atrás da porta.
Costumo achar nada! Mas eu procuro
teu nome
tua voz
teu rosto
por todas as ruas que passo.

*

Sinhá, será que se eu pedir a Xangô
se eu jongar nos terreiros
se eu tocar os atabaques
se eu arrumar um lencinho teu e amarrar
e colocar debaixo da tua cama sem vancê saber,
eu ganho o teu coração?
Só peço uma esmolinha, um tostãozinho de nada
dos teus beijos... aceito parcelado, até
quando eu morrer de amor!

Gabriel Rübinger

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

UM FRAGMENTO DE SAFO




Mas agora ela se sobressai entre as Lídias
mulheres como, depois do sol 
posto, a dedirrósea lua 
supera todas as estrelas; e sua luz se esparrama
por sobre o salso mar
e igualmente sobre multifloridos campos.
E o orvalho é derramado em beleza, e brotam
as rosas e o macio
cerefólio e o trevo-mel em flor.
E ela muito agitada de lá para cá a
recordar a gentil Átis com desejo;
decerto frágil peito... se consome.

SAFO DE LESBOS
traduzido por Giuliana Ragusa

sábado, 8 de outubro de 2011

UM POEMA DE LI BAI


      Nessa longa espera em Chang'an,

Os gafanhotos tecem sua canção de outono

pelo corrimão dourado do poço.

A geada se deita na minha esteira de bambu,

mudando sua cor com o frio.

Minha lâmpada solitária está apagada,

e quero deixar minhas divagações.

Volto a suspender-me, eu fito a Lua,

e longamente suspiro em vão.

A beleza das pessoas é como uma flor

além da borda das nuvens.

Acima há a noite negra com a altura do céu,

Abaixo há a verde água esvoaçando.

O céu é comprido, a estrada é distante,

a melancolia faz minha alma voar.

O sonho da minha alma não passa,

a passagem da montanha é dura.

Essa longa espera quebra meu coração.


Li Bai
por Gabriel Rübinger

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).