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domingo, 6 de outubro de 2013

Velho Jatobá


Choremos com o velho jatobá
cortado pelas mãos violentas, brutas,
o antigo jatobá por onde escutas
cantar o canarinho, o sabiá;

depois de tanto tempo, tantas lutas,
chorando a própria seiva agora está
(tristeza  mais profunda, sei, não há)
cortado por pessoas vis, astutas.

Choremos seivas d’alma, transparentes,
- que rolem como as águas confluentes -
a mesma dor que assim o faz chorar.

E chorarão os pássaros, decerto,
o seu destino sempre vago, incerto
sem ter mais onde ir ou se aninhar.


Do livro Cantos de Resistência, Clube de Autores, p. 39

sábado, 18 de maio de 2013

Reflexões (7): sobre a dor

Reflexões (7): sobre a dor

Se na dor sobrevive algum enlevo,
a réstia que ficou de um terno encanto,
precipitado sólido do pranto,
cantá-la, sim, desejo – e mesmo devo.

Ignorá-la? Nunca! Não! Não devo!
Por isso aqui a exalto, rimo e canto
(ainda que te cause certo espanto)
neste soneto que chorando escrevo.

Sem luz não haveria escuridão,
sem erro não teria, não, perdão
e o mundo, enfim, seria uma tristura.

A dor expõe a nossa humanidade,
do amor é filha, é filha da saudade,
a sacrossanta dor que nos tortura.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fim de tudo












No negro de teus olhos noturnais
eu vejo a morte dentro das meninas,
e não estrelas belas, purpurinas
a reluzir no céu, feito os cristais.

Eu vejo tumbas, anjos sepulcrais,
por entre tantas brumas e neblinas,
e não a luz das horas matutinas
a iluminar as relvas e rosais.

Nos olhos teus eu vejo o fim de tudo,
nas sombras de um olhar fatal e rudo,
vazio de ternura, amortalhado.

Na noite de teus olhos ora vejo
a morte a desfilar, com seu cortejo,
levando o amor que um dia eu hei sonhado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Melúrias



Mastigo dores tantas, indigestas,
tão duras, feito as rochas das pedreiras,
cortantes como espinhos das roseiras
e farpas que provém de mil arestas,

miasmas sempre invadem minhas frestas
vencendo meus escudos e barreiras,
deixando dentro d’alma fel, poeiras
e o gosto amargo dos finais de festas.

E mastigando as minhas próprias rochas,
penetro em meu inferno em fogo, tochas,
levando dentro em mim só dor, ferida.

Sozinha as minhas dores eu rumino,
como se eu fora mesmo algum bovino
pastando pelo chão da minha vida.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Ciclos (XII)


A noite se debruça com seu véu
sobre o arrebol purpúreo e agonizante,
como se fora doce e terna amante
cobrindo-o co’as estrelas lá do céu.

E com seu véu encobre, a noite escura,
a resplendente tarde, que agoniza,
enquanto lá no alto se divisa
a argêntea e bela lua, cheia e pura.

E a noite estrelejada tudo encobre,
o agonizante sol de fim da tarde,
que morre aos poucos, sem qualquer defesa.

Quanta beleza, nesse instante nobre!
A doce entrega – sem qualquer alarde –
ao cíclico pulsar da natureza.

Peregrino


As pedras cortam, sangram os seus pés,
ou formam grandes bolhas doloridas,
em meio a calos velhos e feridas,
na vida um pesadelo, um revés

nas fantasias suas, coloridas,
(bem mais do que as araras-canindés)
que foram esgarçadas, de través,
restando a sua dor, a dura lida.

A vida, que sonhara generosa,
tornou-o triste andrajo peregrino,
a suportar as dores, as sangrias.

Sangrando vai, na estrada pedregosa,
a sustentar o fardo do destino,
sem sonhos, esperanças, fantasias.

Quimera


Escuta  a doce brisa que murmura
por entre as relvas frágeis, desses campos,
seus versos puros, feitos de candura,
com tanto lume, quais os pirilampos;

escuta seu murmúrio langoroso,
disperso aos quatro ventos dos penares,
que deixam mil suspiros pelos ares,
e ecoam nesse rio caudaloso.

A brisa que, tangendo a relva fina,
soluça a sua dor, a sua sina,
de ser fugaz, etérea, passageira.

A vida é feito a brisa, uma quimera,
que passa, como passa a primavera,
e deixa só saudade em sua esteira
.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Vendeta


No cerne d’alma todo povo traz
o atávico desejo de vingança
se outro lhe arranca a última esperança
matando seus avós, seus filhos, pais:

e ocupa seu rincão e se compraz
em ruir sua força e a temperança,
esmagando sementes da bonança
desrespeitosamente e tão audaz.

Genocídio! O ruir de tantos povos,
que agora se repete com outros novos,
e se repetirá bem mais, e mais.

Vendeta! Força bruta, incandescente,
- como uma bomba atômica silente –
é filha de clamores ancestrais.

sábado, 4 de agosto de 2012

Tesouro



Tesouro que ninguém garimpa, explora
é o céu, seus diamantes estelares,
constelações sem fim, a bela Antares,
a Estrela Dalva, no raiar da Aurora;

a lua que, andejando o espaço afora,
envolta, muitas vezes, por colares,
asperge fios de prata pelos ares,
e usa um véu de nuvens, se o céu chora.

Tesouro: mil pepitas, diamantes,
a lua com seus véus, belos turbantes
que, no sidéreo espaço, vai e vem.

O manto azul de anil – esse tesouro –
ninguém pode roubar, comprar com ouro,
é bem de todos nós, e de ninguém.


.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

CICLOS XIII



CICLOS XII
Edir Pina de Barros

Mudanças e mudanças nesta vida
conduzem-nos a outros patamares,
quais rios, que encontrando-se co’s mares
se perdem em doce enlace suicida.

Sementes rasgam a terra, que ferida,
permite o renascer de mil pomares,
do trigo, que alimenta tantos lares,
e nem por isso sente-se vencida.

O tempo muda o corpo das crianças,
( e é fonte de alegrias, desencantos),
transforma, cada qual, em novo ser.

O que seria a vida sem mudanças?
A morte – eternizada em cada canto –
refaz o ciclo inteiro do viver.

domingo, 24 de junho de 2012

EFEMERIDADE (II)



EFEMERIDADE (II)
Edir Pina de Barros

Um dia após o outro o tempo passa
deixando rastros sobre a nossa tez,
tornando sem sentido o que se fez
com inocência, candidez e graça...

E sem respostas para mil porquês
expostos, sem saber, a essa devassa
que os sonhos e ilusões depressa esgarça
seguimos sem sentir que se desfez        

o corpo – templo d’alma e vil matéria.
E a vida, que é quimera, sempre etérea,
se escoa pelos vãos de nossos dedos.

E tudo passa – a vida é passageira –
e se desfaz no tempo, em sua esteira
tecida no tear dos sonhos ledos.


sábado, 26 de maio de 2012

SERPENTE



Eu quero deslizar sobre o teu corpo inteiro
manhosa e devagar, suave qual serpente,
tanger a tua tez com minha boca ardente,
sentindo o seu olor, sorvendo o doce cheiro.

Sentir o corpo teu juntinho ao meu, fremente,
a tremular em mim, qual chama d’um isqueiro,
como se eu fora, enfim, o teu amor primeiro,
entregue, sem pudor, e até mesmo indecente.

Serpente a te enlaçar, a te envolver em teias
tecidas pelo amor que não conhece o pejo
e não pretende ser pudico ou inocente...

E destilar em ti, jorrar em tuas veias,
todo o veneno meu - o meu voraz desejo –
que ferve dentro em mim feito um vulcão silente.

LÍRIOS DO CAMPO




Abrem os lírios nos campos orvalhados,
Matizando os verdores tons pastéis,
Os tornando os mais belos dos vergéis,
Por artistas famosos não pintados...

Nas planuras das relvas abrem os lírios,
Com os encantos d' alvura dos corcéis
Versejados por tantos menestréis
Nos momentos de sonhos, de delírios...

Borboletas revoam nos espaços...
Mais parecem  etéreas bailarinas,
Num tapete de  sonho e fantasia!

E de longe nos lembram estilhaços
De alvacentas cambraias purpurinas,
Atirados nos campos da poesia!


L

PENÉLOPE

Os fios dos dias meus eu mesma cardo e urdo,
E teço o meu viver com muitos pontos, laços,
Bordando sem cessar todos os seus espaços,
Ainda que p’ra alguns tecer seja um absurdo.

Eu não me importo não, se escuto eu não me aturdo,
eu sigo o meu viver, tecendo os próprios passos,
E se preciso for desmancho, sim, refaço,
Neste fazer sem fim de meu destino surdo.

E faço sem cessar a minha tessitura,
teço co’a luz do sol, no breu da noite escura,
Sem nunca descansar ou demonstrar cansaço.

Coloco em meu tecer mil sedas de ternura,
Buscando conseguir a mais bela textura,
Mas se preciso for, teço com fios de aço!



segunda-feira, 30 de abril de 2012

VENTO


O vento varre e verga as verdes vagas,
veloce vai valsando em mar revolto,
e vai e vem, brincando livre e solto,
cortante, mais cortante que as adagas.

As verdes vagas, varre e verga o vento
Voraz, vociferando pelos ares
Os medievos cantos, milenares,
De amor que, como o mar, tem seu tormento.

O vento vai e vem varrendo a vida
Deixando atrás de si só dor, ferida,
Quebrando as verdes ondas d’esperanças.

Tu varres mar e vida enquanto danças...
E segues sempre adiante! E não te cansas!
Oh! Vento! A tua força é desmedida.

terça-feira, 24 de abril de 2012

AMAR

Amar é ver estrelas sem ver céu,
 pisar no etéreo véu das mil quimeras, 
sentindo a luz d’eternas primaveras 
ser prisioneiro, sem ter sido réu.


 É cavalgar no lombo d’um corcel 
no chão das ilusões. Sentir, deveras, 
a força da poesia d’outras eras
 na voz do medievo menestrel... 


 Viver sentindo n’alma o mundo inteiro, 
ser barco em alto mar, sem ter barqueiro
 e mergulhar no mar, sem peias, medos. 


 Planar feito uma garça pantaneira, 
deixar-se ir ao léu, sem eira ou beira, 
pisando as finas farpas dos penedos.

terça-feira, 27 de março de 2012

SÚPLICA D’AMOR



Depois? Depois não sei! Hão de passar os dias
e o tempo me dirá e nos dirá a vida
se o sonho que sonhei - de amor, por ti, perdida –
transformará em dor as minhas alegrias.

Não sei! Depois não sei... E nem darei guarida
à dúvida cruel, fonte de covardias,
pois hoje quero a luz, desejo as calmarias
dos belos arrebóis e a paz neles contida.

Não me perguntes, não, o que virá depois.
Por que me perguntar? Isso não faz sentido!
Ai! Deixa-me te amar sem nada perguntar,

sem nada a me tolher. Quero sentir nós dois,
viver esta paixão que nunca hei vivido.
Depois?!Eu não sei, não, se vou sorrir, chorar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

LÁGRIMA



Há de secar a lágrima que rola
E escava a minha face, feito um rio
Na enchente da tristeza e do vazio
Que as margens do meu ser rompe e extrapola.

E rola sobre a face, qual marola
Nas tempestades d’alma em desvario
Depois d’um frio inverno e longo estio
Que a dor, bem lá no imo, se acrisola.

Um rio, que as comportas rompe e vence
Co’a força que é só sua e lhe pertence,
E rola sobre o chão da minha fronte...

Há de secar a lágrima, por certo,
E transformar a alma em um deserto
Sem oásis, miragens, horizonte...

terça-feira, 13 de março de 2012

EM NOME DA POESIA



Eu não direi que não te amo, nunca!
Ainda que eu pudesse não diria,
Por conta deste amor - triste alegria -
Que nos meus ermos tantos versos junca...

Sem esse amor não sei o que seria
Do meu desejo – que tem garra adunca –
do meu penar que os sonhos meus me trunca
e que alimenta a fonte da poesia...

Razão de ser dos versos que em mim tramo
Que em mim latejam – feito uma ferida –
E que me escapam nos poemas meus...

Nunca! Jamais diria: eu não te amo!
Em nome da poesia – minha vida -
Não poderia, não, dizer-te adeus.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).