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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

ANJO


Anjo

Dize-me, ó anjo perfeito,
Que guardas dentro do peito
Meu coração,
Por que tu és a ventura
Que há tanto tempo procura
Minh'ama em vão?

Aureliano Lessa


Eu amo teus olhos — chorando ou rindo, —
Amo teus lábios rúbeos e pequenos,
Amo-te mesmo quando estás mentindo;
Ah, são deveras doces teus venenos,

E teu sorrir, que ínclito! que lindo!
Até os teus chorares, que serenos!
A tua face é de esplendor infindo,
Teu corpo são sonhos de amor replenos;

Tudo em ti é solene e encantador,
Não há mais feérica obra de arte,
Que tu, o meu eterno anjo de amor!

Quero eu continuamente amar-te,
Entre risos ou lágrimas de dor,
E de amores morrer, após beijar-te!...
Renan Caíque

domingo, 14 de outubro de 2018

O Mal do Século - Renan Caíque

O meu primeiro livro de poemas "O Mal do Século" será lançado dia 30 de novembro, mas já se encontra na pré-venda, e com desconto.Para quem tiver interesse em adquirir, segue o link: https://www.soturnos.com/product-page/o-mal-do-s%C3%A9culo



Sobre o Livro: O livro, escrito de 2012 a 2018, é composto em sua maioria de poemas, sobretudo sonetos, mas traz também algumas prosas.  O título faz referência à maior influência artística do autor: o período literário da Segunda Geração Romântica, que ficou conhecida como "O Mal do Século" e "Ultrarromantismo" e aos seus autores. Os ultrarromânticos eram jovens poetas extremamente sensíveis que se sentiam impotentes diante de uma sociedade materialista que tornava irrealizáveis os seus sonhos, e viam o homem de sua época como um ser fragmentado, relegado a uma simples peça da engrenagem social. Eles acreditavam que o espírito humano busca sempre a perfeição, porém, o homem é incapaz de atingi-la por ser uma criatura imperfeita; e a constatação dessa impossibilidade produz insatisfação, angústia e uma obsessiva atração pela morte, encarada como saída definitiva para resolver tal insaciedade. Esses poetas, geralmente, não conseguiam se adaptar a esta sociedade que os não compreendia, o que os levava à solidão e à criação de seus próprios mundos interiores. Além do Ultrarromantismo, o livro traz várias características e referências da Literatura Gótica e do Simbolismo. 

Sobre o Autor: Renan Caíque (28/09/1993) é de Teófilo Otoni/ MG. Funcionário público estadual e graduando em Ciências Contábeis na UFVJM(Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri). Amante de Literatura e Arte em geral, escreve desde os 13 anos influenciado sobretudo por autores clássicos como Álvares de Azevedo, Lord Byron, Shakespeare, Goethe, Schiller, Alfred de Musset, Percy Shelley, John Keats, Hermann Hesse, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe e Charlotte Brontë.. Já colaborou escrevendo para diversos sites, blogs, revistas, fanzines, jornais, ganhou alguns concursos literários e tem vários textos publicados em antologias literárias. "O Mal do Século"(2018) é o seu primeiro livro solo. 

*Os livros serão enviados a partir de 20 de novembro. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Confissão de um Filho do Século


A Confissão de um Filho do Século




Amei-te, amor, enquanto tive ensejo,
E se sobejo foi o meu amor
É porque tivera eu sempre o desejo
De teu beijo frio e arrebatador.

E nunca sei se por dor ou por pejo,
Jamais eu aprendera como expor
O amor pelo qual sofro e lacrimejo,
Num leito malfazejo de amargor.

Ó linda senhorita, doce ardor,
Tuas lágrimas são languidescentes,
Teus anseios perpétuos e latentes...

Ó enevoado e frio anjo de Amor
Os meus prantos por ti são eternais,
Almejo por ti sempre mais e mais...

Renan Caíque

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desperatio - Que Romântico!


Desperatio


Uma mulher de preto invade o campo
Co’uma criança pálida nos braços.
No rosto, um choro frio nos seus traços,
E um violino a se rachar no tampo.

Cava, com um coração em pedaços,
A cova do menino... Então, em pranto
Toca uma Marcha Fúnebre, em seu manto,
No violino triste no terraço

Me ouça! Essa mulher é a esperança
Desesperada, ao vento vil do norte,
Enterra a triste e podre criança.

Mas, quem é a criança? Digo agora...
Ela sou eu! Que sinto, em minha sorte
Essa sina que aos poucos me devora

Por: Ronan Fernandes
XIII/I/MMXIII
4:53 o’clock

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nona Sinfonia - Que Romântico!




Nona Sinfonia

O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!

Schiller


No concerto eu, tão solitário e quieto,
Sorvendo a nona sinfonia, o encanto
Do Allegro... estou alegre! mas nem tanto...
Ao som dessa obra prima eu me desperto.

Pausa entre movimentos, eu me inquieto,
Mas permaneço ainda no meu canto.
Molto Vivace! Eu vivo... por enquanto...
Até ouvir a obra por completo.

Adagio... muito Adagio, molto lento.
Lentamente me mostra o desalento,
A tão triste alma de Beethoven fria...

De suicídio em suicídio eu me liberto!
Logo se vê no chão um corpo aberto...
Morro ao final da triste Ode à Alegria...


Por: Ronan Fernandes
XXIX/IV/MMXII
04:06 o’clock

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desventura - Que Romântico!


Desventura


Ao meu pai, morto aos meus sete anos.


…...............................................................


Para onde fores pai, para onde fores
Irei também, trilhando as mesmas ruas
[...]
Podre meu pai!
Augusto dos anjos



Por que, meu pai, tão cedo me deixaste
Sozinho, neste mundo tão sombrio?
Um doente, meu pai, tu me tornaste...
Nessa vida que causa-me arrepio.

Não te vi, não vi teu sangue escarlate,
Nem onde te apodrece o corpo frio.
Queria eu! o fôlego aspirar-te...
Morrer por ti! e tu em mim teu filho...

...viver por muitos anos mais. Mas não
Preferiste da vida desprover
De alegria - mi’a mãe e meus irmãos

Queria eu! contigo apodrecer!
De que vale - sem ti - pisar no chão?
Melhor seria o céu! Antes morrer...

Por: Ronan Fernandes
XXII/II/MMXII
04:03 o’clock

sábado, 6 de agosto de 2011

QUE ROMÂNTICO! Releitura


Soneto

Corre nos campos virgem inocente,
Corre tão linda! pálida donzela.
Oh! Corre em seu Corcel, um anjo a vela
Enquanto sonha o menestrel demente

A noite cai, donzela, o teu dossel
Espera os sonhos teus, durma! Em plenitude
Suspira por ti, notas no alaúde
Suspira por ti, triste menestrel

No campo, como quadro de aquarela
Corre pálida, pálida donzela
Corre, virgem maviosa, em seu corcel

No pálido alaúde, toca um hino
Geme o arco nas cordas do violino
Geme o peito no pobre menestrel

Por: Ronan Fernandes

VII/XI/MMXI
00:54 o'clock

segunda-feira, 14 de março de 2011

QUE ROMÂNTICO! Castro Alves





Judith rende graças por ter conseguido livrar sua pátria dos horrores de Holofernes, 1880, 
Museu Nacional de Belas Artes.  
Pedro Américo



Hebréia

 
Flos campi et lilium convallium.
(Cântico dos Cânticos)




Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ...


Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!


Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?


Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!


Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho ...


Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Susana a estremecer de frio —
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto ...
 
Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, — se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto ...


Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.


Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante! ...



CASTRO ALVES

quarta-feira, 9 de março de 2011

QUE ROMÂNTICO! Almeida Garrett




Este Inferno de Amar !
 
 
 
Este inferno de amar — como eu amo! 
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi? 
Esta chama que alenta e consome, 
Que é a vida — e que a vida destrói — 
Como é que se veio a atear, 
Quando — ai quando se há-de ela apagar?  


Eu não sei, não me lembra; o passado, 
A outra vida que dantes vivi 
Era um sonho talvez… —  foi um sonho — 
Em que paz tão serena a dormi! 
Oh! que doce era aquele sonhar… 
Quem me veio, ai de mim! despertar?  


Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei ...



João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett  -  in Folhas Caídas 

segunda-feira, 7 de março de 2011

QUE ROMÂNTICO! Releitura

imagem: cemitério de Woodlawn


Beau Roman
                  
Caminhando em tão ermo cemitério,
Ao som da sinfonia da falência.
Eu contemplo, dos homens, decadência
Suspirando da vida seu mistério.

Anseando da morte a triste sina.
Do cadáver, o suspense de seu leito.
O mistério do túmulo imperfeito.
E o que da doce vida traz ruina.

Considero o que traz da morte e seu grito...
O que apaga da vida o manuscrito...
E choro da existência o seu nuance.

Porém, eu me provendo dessa sorte,
Penso: Quão belo e quão lindo é a morte!
E emergido em sangue, entro em seu romance.


Por: Ronan Fernandes

V/III/MMXI
11:41 o’clock

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Soares de Passos




O NOIVADO DO SEPULCRO


BALADA


Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.


Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.



Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.


Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:


"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?


"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?


"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!


"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.


"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!


- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.


Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.


"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.


"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?


"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
- "Oh vejo sim... recordação fatal!
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.


"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"


E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.


Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.


Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.


SOARES DE PASSOS

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Releitura romântica





ANJO MORTO


Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.


Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto,
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.


Apetecido, surge ele tão vivo,
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,


E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos!


Rommel Werneck



Pasta Anjo Morto - Fundação Biblioteca Nacional - 2008

 Publicado no Recanto das Letras originalmente 

Há um blog que não cita meu nome após o soneto. 
 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Gonçalves Dias




A noite

 
                                                                                                      Noite, melhor que o dia, quem não te ama!
Quem não vive mais brando em teu regaço!

Filinto

Eu amo a noite solitária e muda,
Quando no vasto céu fitando os olhos,
Além do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço,
Como em salas de esplêndido banquete
Mil tochas aromáticas ardendo
Entre nuvens d'incenso!


Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce mudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
Notas de etéreas harpas.


Eu amo a noite taciturna e queda!
Então parece que da vida as fontes
Mais fáceis correm, mais sonoras soam,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre, — que então mais funda e leve a fonte
Mana, — e que os sons então mais doce e triste
Da música se espargem.


O peito aspira sôfrego ar de vida,
Que da terra não é; qual flor noturna,
Que bebe orvalho, ele se embebe e ensopa
Em êxtase de amor:
Mais direitas então, mais puras devem,
Calada a natureza, a terra e os homens,
Subir as orações aos pés do Eterno
Para afagar-lhe o trono!


Assim é que no templo majestoso
Reboa pela nave o som mais alto,
Quando o sacro instrumento quebra a augusta
Mudez do santuário;
Assim é que o incenso mais direito
Se eleva na capela que o resguarda,
E na chave da abóbada topando,
Como um dossel, se espraia.


Eu amo a noite solitária e muda;
Como formosa dona em régios paços,
Trajando ao mesmo tempo luto e galas
Majestosa e sentida;
Se no dó atentais, de que se enluta,
Certo sentis pesar de a ver tão triste;
Se o rosto lhe fitais, sentis deleite
De a ver tão bela e grave!


Considerai porém o nobre aspecto,
E o porte, e o garbo senhoril e altivo,
E as falas poucas, e o olhar sob'rano,
E a fronte levantada:
No silêncio que a veste, adorna e honra,
Conhecendo por fim quanto ela é grande,
Com voz humilde a saudarei rainha,
Curvado e respeitoso.


Eu amo a noite solitária e muda,
Quando, bem como em salas de banquete
Mil tochas aromáticas ardendo,
Giram fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ela difunde,
E o rorante frescor caindo em pér'las,
E a mágica mudez que tanto fala,
E as sombras transparentes!


Oh! quando sobre a terra ela se estende,
Como em praia arenosa mansa vaga;
Ou quando, como a flor dentre o seu musgo,
A aurora desabrocha;
Mais forte e pura a voz humana soa,
E mais se acorda ao hino harmonioso,
Que a natureza sem cessar repete,
E Deus gostoso escuta.
  

Gonçalves Dias 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Álvares de Azevedo





CANTIGA

I

Em um castelo doirado
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.


Adormeceu-a, sonhando,
Um feiticeiro condão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
 

Dorme a lâmpada argentina
Defronte do leito seu;
Noite a noite a lua triste
Vem espreitá-la do céu.
 

Voam os sonhos errantes
Do leito sob o dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
 

E no castelo, sozinha,
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.
 

Dormem cheirosas, abrindo,
As roseiras em botão...
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
 
II

A donzela adormecida
É a tua alma, santinha,
Que não sonha nas saudades
E nos amores da minha.
 

— Nos meus amores que velam
Debaixo do teu dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
 

Acorda, minha donzela,
Foi-se a lua, eis a manhã
E nos céus da primavera
É a aurora tua irmã.

Abriram no vale as flores
Sorrindo na fresquidão:
Entre as rosas da campina
Abram-se as do coração.
 

Acorda, minha donzela,
Soltemos da infância o véu...
Se nós morrermos num beijo,
Acordaremos no céu.


Álvares de Azevedo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Castro Alves

Mulher na rede. Coubert



Adormecida

 

"Ses longs cheveux épars Ia couvrent tout entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière,
Et qu'elle va Ia faire en s'éveillant demain."
(A. de Musset)



Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.


De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.


Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...


Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!


E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...


Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!..."



CASTRO ALVES

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Em tal busca, teria sido absolutamente impossível que escapasse a palavra "never more". De fato, foi ela a primeira que se apresentou." Edgar Allan Poe


        


"Segue no link o ilustre texto no qual o corvo estadunidense Edgar Allan Poe explica o processo de criação de seu longo poema. Pensei na hipótese de ler e refletir sobre o texto e quem se interessar elaborar sua "filosofia da composição", uma explicação de como elaborou e construiu seu poema. 

Que romântico!"



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ROLETA RUSSA "QUE ROMÂNTICO"


   




TEMA: Releitura do Romantismo


PALAVRAS UTILIZADAS:

Inspirem-se no texto sobre  Releituras do Romantismo. Não sei ao certo, mas o ideal é fazer releituras do Romantismo. Talvez para este desafio e para os próximos das escolas literárias não haja a necessidade de palavras, no entanto, para orientar vou escolher algumas, caso alguém se interesse em sugerir palavras, pode fazer também nos comentários.

 - pálido (a)
 - embalsamado (a)
 - trevas
 - anjo


FORMA: 
- Versos livres;
- Isométricos;
- Polimétricos;
- Sonetos;
- Indrisos
etc





sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

POSSIBILIDADES DE RELEITURA DO ROMANTISMO



Como escrevi recentemente sobre a Escola Romântica, nada mais justo do que estudar as possibilidades de realizar hoje uma produção baseada nos moldes românticos. Seguem as características e comentários.

Ao contrário do que ocorre com outras escolas literárias, não há a necessidade de fundir todas as características para se obter algo com um ar romântico. Basta aderir a umas características e você produzirá algo do gênero.



- Forma: métrica e rima


O Romantismo não tinha predileção por sonetos, embora tenhamos belíssimas produções.  Podemos compor sonetos com inspiração romântica sem problemas. Apenas, atente-se para que seu texto não fique com um ar gótico-parnasiano, o que também é ótimo, mas se seu plano consiste em realizar uma releitura do Romantismo, deve existir um apelo ao emocional, seguir outras características etc
Outra possibilidade no que tange forma é escrever com refrão em outro metro, mantendo uma regularidade na forma, isto é algo típico da época. Textos longos em versos livres ou heterométricos também são interessantes.


- Eu

 Estamos estudando a escola literária do individualismo, portanto a visão totalmente egocêntrica e subjetiva é essencial para o poema. Utilizar termos como “meus amores”, “fizeste-me mal”, “eu estou sozinho” é algo importante a se lembrar, afinal, o egocentrismo não se estrutura somente em torno do pronome reto “eu” e sim também de outras marcas da 1ª pessoa como pronomes possessivos e verbos.



- Sentimentalismo e Idealizações

Virgens pálidas, príncipes encantados, belas adormecidas, sonhos azuis e coisas do gênero, com certeza, são características românticas. Uso de expressões como “Oh” “Ah” revelam a expressividade e o exagero.

O pessimismo ultra-romântico pode vir acompanhado de elementos da cultura gótica como cemitérios, soirées (o nome da "balada" da época), saraus, o próprio termo "balada" afinal, referências modernas podem revelar um outro tipo de releitura.


- Interação com a natureza

A melhor forma é colocando elementos da natureza de acordo com o estado de espírito do eu-lírico. Tempestades, dias de neblina, eclipses, trovões, o nascimento do Sol etc podem ser usados para complementar, compor a atmosfera do eu-lírico. Neste tópico, também fica subentendido o culto ao noturno. Fazer perguntas para os elementos da natureza é algo bem-vindo, mas pode tornar-se medieval se a tal pergunta ocorrer sempre no fim de estrofe, como uma cantiga.

- Passado

Lembranças, nostalgias, desejo de voltar no tempo são elementos muito próximos de nós e creio que combinam com a proposta romântica. Historicismo, medievalismo e indianismo podem dar a seu texto um ar típico do início do Romantismo.

- Religiosidade

Ao invés do conflito interno típico do Barroco, a religiosidade pode servir como consolo. Convém ler Gonçalves de Magalhães e Álvares de Azevedo.



ALGUNS POEMAS DA ÉPOCA


Versos Inscritos numa Taça feita de Crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência - curto dia -,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron
Tradução de Castro Alves



Se eu morresse amanhã


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
 

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
 

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
 

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
 
Álvares de Azevedo



Último soneto


Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
 

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
 

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
 

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
 
Álvares de Azevedo



Amor e medo


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

 
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...

 
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

 
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair cias tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.

 
É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

 
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

 
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

 
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...

 
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...

 
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

 
Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!

 
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

 
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

 
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

 
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...

 
Casimiro de Abreu


Este Inferno de Amar!


Este inferno de amar — como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… —  foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra  que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei
Mas nessa hora a viver comecei…

 

Almeida Garrett



RELEITURAS


SÚPLICA


Vem! Ó, noite! Debruça sobre mim!
recebe no colo teu sidéreo,
Nesse manto d'estrelas, tão etéreo,
A minh'alma que triste vaga assim...

Aconchega nos braços teus sem fim,
Esta andeja, meu pobre ser cinéreo,
Que morrer quer no espaço teu aéreo,
No acetinado véu que é teu, enfim...

Minh’alma quer errar nos teus espaços,
E esquecer os amores deletérios...
Ó! Deixa-me vagar em ti, ao léu!

Vem! Desejo morrer-me nos teus braços,
Mergulhar nos teus astros, teus mistérios...
Vem! Ó, noite! E me encobre com teu véu!

Edir Pina de Barros


 CRUZES MILENARES


"Cabalga en su sueño la mujer dormida,
cabalga en su sueño y es cabalgada.
En la selva, nadie la oye cuando chilla."

Isidro Iturat


Cavalguemos nos sonhos por velhos lugares
Confundindo a poesia com alvas visões
Enfrentando nos sonhos os duros vilões


E vivendo e cantando os saudosos pesares
Uma via mais sacra vai tendo seu fim
De perto ouço cantar o mais vil querubim:



"Pois tu vais viver para sempre em azares


Carregando nos ombros cruzes milenares..."



André Cretchu, Gabriel Rübinger, 
Rommel Werneck e Ronan Fernandes


Doce Alvura



Yet one kiss on your pale clay.
And those lips once so warm
- my heart! my heart!

Byron

Porque me olhas assim, pálida alvura?
Com seus olhos de cálida aventura,
Palpitante me deixa.
E com seu canto puro de harmonia,
Deixa-me mais platônico de dia
E anoite não me beija.

Com sua têz sublime e branca assim,
Que um pálido desejo lança em mim
- Ansioso - a suspirar.
E com tua harmonia mui'santíssima
Deixa-me uma certeza muito íntima:
-que os céus nos juntará.

Fujamos, doce pálida inocente!
Para um lugar que todos nos entende
E que amam nosso amor.
Saiamos dessa terra de ódio enfim
E possamos viver só com esse fim:
Amar-nos e ao - SENHOR.

Ronan Fernandes


ANJO MORTO


Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.

Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.

Apetecido, surge ele tão vivo
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,

E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos

Rommel Werneck


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Não escrevi muito porque penso que este assunto é mais fácil de compreender após a leitura de meu longo texto inicial, além do mais, muitos escritores de nosso blog já possuem uma boa caminhada com este tipo de releitura, portanto, faz-se mais necessário estudar com maior profundidade as outras escolas literárias. 
Os estudos de História da Literatura serão compostos por um texto inicial sobre a escola literária, um texto sobre as possibilidades de releitura, uma roleta russa e por fim, textos da época como suporte além de análises, inclusive, o escritor Alves Rosa prometeu escrever uma análise.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).