sábado, 30 de abril de 2011

A POESIA DA BELLE ÉPOQUE




Este é mais um estudo de História da Literatura confeccionado para o 
Poesia Retrô.

Para o estudo da escola literária em questão foram lidos os seguintes textos:



- Estilos de Época na Literatura – Domício Proença Filho

Apesar de escrever pouco sobre a escola presente, é o livro coringa que pretendo manter em todos os estudos.


- Períodos Literários – Lígia Cademartori – Série Princípios

Esta coleção da editora Ática possui excelentes textos em vários campos de estudo como Artes, Política, História, Civilização etc.


- Versos, Sons, Ritmos - Norma Goldstein

Um tratado de versificação moderno que envolve o estudo de autores clássicos e modernos.


- Os primeiros baudelairianos – Antonio Candido

Um dos ilustres ensaios de “A Educação pela Noite e outros ensaios”, no qual o autor aponta as influências de Baudelaire nos 1870’s.


- Hespérides - Francisco Antônio de Carvalho Júnior

Bárbara Magalhães e José Américo Miranda realçam o que diz Massaud Moisés sobre o poeta cujos sonetos  “constituem do melhor que o decênio de 70 presenciou entre nós”.


- A Renovação Parnasiana na Poesia – Péricles Eugênio da Silva Ramos

Brilhante texto incluso em “A Literatura no Brasil Vol. 4: Era Realista – Era de Transição”, uma coletânea de textos dirigida por Afrânio Coutinho e co-dirigida por Eduardo de Faria Coutinho. Tais volumes de História da Literatura são de leitura obrigatória


- Leitura crítica do Parnasianismo brasileiro nos livros escolares - Filipe Freitas de Mello e Silva (UERJ)

Trabalho no qual o pesquisador expõe o preconceito modernista  em relação ao Parnasianismo nos livros didáticos.
- História da Literatura Brasileira – Realismo – Massaud Moisés

Capítulo III. Poesia

- A Poesia Parnasiana – Cláudio Rogério Braco

Ensaio publicado na Revista Tamises 8, informativo da ALGRASP – Academia de Letras da Grande São Paulo


 -Belle Époque - Lady Sana Skull

Postagem sobre a indumentária, costumes e contexto histórico.


A POESIA DA BELLE ÉPOQUE











"Morto! morto! desgraça! é morto o Romantismo!"
Tomás Delfino



“Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,”
Antero de Quental


“Caia eu também, sem esperança, 
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança, 
Em prol do Estilo!”
Olavo Bilac


“Diante de Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.”
Francisca Júlia


“Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.”
Alberto de Oliveira


“E o silêncio outra vez soturno desce, 
E límpida, sem mácula, alvacenta 
A lua a estrada solitária banha...
 Raimundo Correia


“Teu lábio é fonte, onde em beijos,
Mata a sede doravante
A caravana arquejante
Dos meus cansados desejos.”
Teófilo Dias



INTROITUS




      Denomina-se Belle Époque o período aproximadamente entre 1871 a 1914, alguns considerariam somente as duas últimas décadas do século e há quem veja a Belle Époque brasileira a partir da Proclamação da República (1889).  O essencial é pensarmos que durante o fin-de-siècle a Europa sofreu uma grande transformação cultural (cinemas, Art Nouveau, Impressionismo, Academicismo), tecnológica (eletricidade, telefone, metrô, bicicleta, automóvel, avião, rádio), indumentária (alta costura, máquina de costura) e literária.

      Além de tudo isto, com o término da Guerra Franco-Prussiana, Europa torna-se mais pacifista, só veria explodir uma grande guerra em 1914. Os conflitos deste período são as greves e lutas trabalhistas e o Imperialismo que acontecia nos outros continentes.



 Propaganda da Coca-Cola


      Seguindo a mesma linha de pensamento do professor Filipe Freitas de Mello e Silva, relendo a frase de Celso Cunha: “Nenhuma época se equivoca esteticamente” e ainda citando o grande Afrânio Coutinho no que se refere ao período como “uma época cultural da maior relevância no Brasil”, desafio alguns de nossos escritores contemporâneos e os autores de livros didáticos a apresentarem argumentos consistentes para o preconceito que possuem com o Parnasianismo.

      Se a escola literária da poesia vigente da Belle Époque foi realmente uma Idade das Trevas, porque os outros setores da sociedade também não seriam? Julgar que o Parnasianismo foi um movimento literário totalmente rígido, inflexível e ignorante é fugir da realidade. É importante desmitificar as crenças errôneas que o Modernismo lançou sobre o passado, olhar para século XIX com se olhássemos as mulheres frutas de nossa época é decadente, temos que estudar o Parnasianismo com um olhar da época, era um outro tempo, outros costumes etc

     Durante a Belle Époque o Brasil também viveu o Realismo, Naturalismo, Simbolismo e a era de transição denominada Pré-Modernismo, no entanto, Mello e Silva considera o Parnasianismo como um dos reflexos da Belle Époque, a realidade é que, no Brasil, onde o Parnasianismo foi muito forte a ponto de existir até mesmo após o Simbolismo, ele foi a grande representação do gosto erudito e refinado da época, o mesmo valeria para a França, embora o Simbolismo deles tenha se tornado mais “oficial” e aceito.

      Quanto ao recorte histórico, prefiro pensar da década de 1870 até a Semana de 1922 Guerra pelo fato de que a década de 1870 foi marcada por posturas anti-românticas e que definiriam o que viria depois, assim como as manifestações modernistas eram reações anti-parnasianas.




1870’s


 Silvio Romero



     Ao contrário do que se tem pensado, o Parnasianismo não foi a primeira grande reação anti-romântica, para se ter uma noção temos o seguinte esquema feito por Péricles Eugênio da Silva Ramos, maior autoridade sobre o assunto:

Poesia filosófico-científica: Teixeira de Sousa, Prado Sampaio, Martins Júnior,

Poesia realista urbana: Carvalho Júnior, Teófilo Dias, Afonso Celso Magalhães.

Poesia realista agreste: Bruno Seabra, Ezequiel Freire

Poesia socialista: Lúcio de Mendonça, Fontoura Xavier, Valentim Magalhães

Advento do Parnasianismo: Artur de Oliveira, Machado de Assis, Gonçalves Crespo, Luís Guimarães; Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Vicente de Carvalho; Machado de Assis, Luís Delfino, B. Lopes.


Poetas menores e epígonos: Rodrigo Otávio, Artur Azevedo, Filinto de Almeida, Silva Ramos, Mário de Alencar, João Ribeiro, Guimarães Passos, Venceslau de Queirós, Emílio de Meneses, Zeferino Brasil, Augusto de Lima, Luís Murat, Raul Pompéia, Francisca Júlia, Magalhães de Azeredo, Goulart de Andrade.


        Como se pode ver, tivemos uma pluriliterariedade incrível em pleno fim do século. O poeta considerado referência foi o último romântico: Castro Alves. Contestando a visão que se tem sobre sua literatura, convém comentar que não somente as poesias abolicionistas representam a terceira geração romântica, mas também as poesias eróticas em que a mulher é feita de carnes e não de morbidez, a mulher é atingível e não distante e sua beleza recebe um descrições fotográficas.




       Em 1851, o português Antonio Feliciano de Castilho publica o Tratado de Metrificação Portuguesa alterando o sistema de contagem de sílabas, este acontecimento, com certeza, influenciou a nova escola. Não se pode esquecer que o Tratado de Versificação (1905), de Bilac e Passos, foi inspirado na obra de Castilho. 

       Além do romance realista Madame Bovary, 1857 é o ano da publicação de Les fleurs du mal de Charles Baudelaire, esta obra lançou influências na raiz de nosso Parnasianismo como veremos adiante.
     
       Sílvio Romero foi o primeiro a fazer uma contestação quando alegou que o poeta deveria dominar as ciências e usá-las a seu favor na poesia. Machado de Assis julgou interessante o pensamento de Romero, embora tenha criticado que Sílvio Romero não tivesse posto em prática suas idéias, afinal, sua poesia ainda se manteve romântica.

     Uma belíssima manifestação da poesia realista urbana é o poema abaixo de Celso Magalhães (1849-1879), curiosamente escrito em alexandrinos espanhóis (13 sílabas) no ano de 1873.



Quadro artístico


A cena é numa sala pequena e atravancada;
uma mesa redonda de livros empilhada,


um piano de um lado, e de outro um velador,
uma estante com livros, mobília multicor,


garrafas de cerveja, charutos e bolinhos,
cigarros sobre a mesa, o piano de mansinho

a gemer sob os dedos dum inspirado artista;
cinco sujeitos sérios, cravada e atenta a vista


no teclado que brota harmonias tristonhas,
ou então se alvorota em volatas risonhas.


No mocho a fronte erguida, um rapaz aloirado,
com um charuto na boca, olhar vivo, inspirado,


improvisa; distante, um outro, no sofá,
de mão no queixo, absorto, embevecido está.


Os cigarros apagam-se e esquecidos, e, frias,
no chão as cinzas caem ao som das harmonias.


Na secretária, um outro, escutando esses trinos,
escreve numa tira alguns alexandrinos.


Artistas todos são, e ali, naquela sala,
emudeceram todos; somente o piano fala.


  Estes dísticos dispensam comentários, representam realmente um “quadro artístico”, basta notar a métrica usada, a citação ao poeta que escreve alexandrinos, a capacidade da arte e do gênio humano calarem os próprios humanos, a arte pela arte etc.


Em 1875, temos o livro Alvoradas de Lúcio de Mendonça (1854-1909) em que o autor favorável à campanha republicana, assim explica a ambigüidade do título: “Alvoradas são também os toques militares com que se despertam do sono os soldados. Não poderiam chamar-se assim os clamores da minha poesia, obscura sentinela republicana, bradando aos soldados da causa santa que é tempo de acordar?”

Péricles Eugênio da Silva Ramos, ao considerar um exemplo de poesia socialista, cita estes versos do livro Vergastas (1873-1889) que o poeta satiriza um ex-republicano que ingressara no Senado Imperial:


“..............................................................
Quiseste enodoar ao mesmo tempo, traste!
A blusa popular com que se apresentaste.
..........................................................
Refere a tradição que um déspota romano
Fez cônsul um cavalo. O nosso soberano,
Calígula jogral, tirano bonachão,
Para nos aviltrar, fez senador um cão!”


Maussaud Moisés destaca o seguinte fragmento de O Consórcio Maldito:


 Ela é a Messalina, a barregã sombria,
 Ele, um trabalhador estúpido e enganado.
 Ele chama-se Povo, e ela – Monarquia.



Enquanto isto, Carvalho Júnior, o maior autor da década, escreve um soneto polêmico em Hespérides (1879):


Profissão de fé


Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Belezas de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões ópticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.




O brasileiro Gonçalves Crespo que se casou e foi viver em Portugal deixou muitas influências no que tange o descritivismo realista, vejamos a poesia de Afonso Celso:



NA FAZENDA

Dorme ainda a fazenda: ao longo da varanda
Repousa o boiadeiro em couros estendidos;
Desponta no horizonte aurora froixa e branda,
No meio do terreiro um cão solata ganidos.

Mas nisso de repente escutam-se alaridos,
Dum sino que desperta estruge a voz nefanda;
Começam a soar conversas e balidos
E a ordem de rigor que rude aos negros manda!

Chegou a começar das lides e trabalhos,
Ressoam do feitor os brados e os ralhos:
A boiada desfila à porta do curral.

Os pretos esfregando os olhos sonolentos
Levando samburás lá vão a passos lentos
Da porta da senzala ao denso cafezal.



Em 1881 temos o livro Cromos de Bernardino da Costa Lopes, de onde merece destaque o seguinte sonetilho XXXVI que Péricles Eugênio da Silva Ramos alega ser um retrato dos bairros pobres de periferia, sendo, inclusive atual.



Domingo. A casa de palha
Abre as janelas ao sol
Na horta o dono trabalha
Desde veio o arrebol;

E a companheira, de grampo
No cabelo em caracol,
Na erva enxuta do campo
Estende um claro lençol...

No ribeiro cristalino
Bebem as aves; o sino
Chama os cristãos à matriz;

Entra a mulher... mas da porta
Fala meiga, para a horta:
- Vamos à missa, Luís?

 Charles Baudelaire



E, finalmente, em 1882, dividindo seu livro em duas partes “ Flores Funestas” e “Revolta”, glosando a notável influência de Baudelaire, o sobrinho de Gonçalves Dias:


Teu lábio é fonte, onde em beijos,
Mata a sede devorante
A caravana arquejante
Dos meus cansados desejos


 E para citar um trecho da obra-prima de Teófilo Dias em Fanfarras:


— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.




Com certeza, a antologia francesa reunida na década de 1860, o Le Parnase Contemporaine (1866, 1869 e 1876) deixou diretrizes, influências e grandes autores como Gautier e Banville, mas não se pode negar a influência de Charles Baudelaire e o caráter contestador ao Romantismo.



CARACTERÍSTICAS



 Como sempre, realço a importância do estudo das características para realizar releituras.


Erotismo


 Ilustrações de Mucha - Art Nouveau. Apesar de lembrar o Simbolismo, estas imagens possuem um claro erotismo assim como no Parnasianismo.


Quando Carvalho Júnior assim professa sua fé “Odeio as virgens pálidas, cloróticas,/ Belezas de missal que o romantismo” ele prefere “a exuberância dos contornos, As belezas da forma, seus adornos, /A saúde, a matéria, a vida enfim.”

Enquanto o perfil romântico consiste em virgens pálidas distantes em cima do túmulo, a mulher parnasiana é feita de carne, osso e sexualidade. Assim como o homem desce à condição animalesca  na prosa da época (Naturalismo), o instinto passa a ser valorizado no detrimento ao sentimento, lembremos que o sentimento contido também é característica, talvez por esta razão o erotismo não foi tão desenvolvido quanto os outros aspectos, mas o certo é pensar que tivemos um novo perfil.

Um exemplo dos 1870's:


Antropofagia

A Fontoura Xavier, poeta socialista
.
Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
De meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t’estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!

Carvalho Júnior


E citando o primeiro grande texto da época:


A Matilha


Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.


Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
 Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.

Teófilo Dias







Preferência pelas formas fixas e versos regulares


Péricles Eugênio da Silva Ramos aponta o Parnasianismo como o “reinado do soneto”, foram feitas várias experiências com o soneto e foram buscadas formas fixas além-mar, como o pantum, ghazal, rondó, rondel, triolé etc

Assim como no Renascimento aconteceu uma grande divulgação do soneto que aliás surgira há pouco tempo, e sendo assim, o verso decassílabo serviu como uma forma de ter maior liberdade no que chamamos de forma fixa; no Parnasianismo, os versos de doze sílabas tornaram-se muito comuns, tivemos uma horizontalização que ajudou os poetas da forma.

Os versos eneassílabos e os hendecassílabos, comum entre os românticos, caem em desuso. O verso de 8 sílabas era mais utilizado, já o clássico decassílabo perde sua monotonia por conta da “lei da mobilidade das cesuras”  (de Manuel do Carmo), embora vale ressaltar que o verso alexandrino talvez seja a grande métrica.

É por isto que os versos parnasianos são rígidos enquanto os românticos são mais frouxos, isto é, possuem menos cesuras.


 “Não viu subir o sol alto ao zênite, onde arde”
Alberto de Oliveira


A sinérese (satirizada em “Os Sapos” de Manuel Bandeira”) e a sinalefa são usadas no lugar do hiato considerado desagradável. A grande sinalefa acontece na 7ª sílaba do verso alexandrino quando a 6ª é paroxítona. O cavalgamento, denominado também de encadeamento e enjambement (termo original) também é uma marca da escola.

Há uma preocupação com a rima rica, os versos brancos caem desuso, salvo “Satânia” (Bilac), “No seio dos cosmos” ( Alberto de Oliveira), entre outros poetas.



 Raimundo Correia



Mitologia greco-romana e descritivismo


Tema recorrente no Parnasianismo ao passo que o Romantismo tinha predileção ao cristianismo. Este é, inclusive, o nome do movimento, Parnaso é um monte grego que, segundo a lenda, era a morada dos poetas. Lembrando que, todas as vezes que temos a retomada clássica, é redescoberta a concepção aristotélica de arte (a mimésis) e sendo assim, o descritivismo objetivo predomina como uma forma de retratar, fotografar.



VASO GREGO  - Alberto de Oliveira

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.


Era o poeta de Teos que o suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois... Mas, o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.


E como exemplo de descritivismo:


A Cavalgada - Raimundo Correia

A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha... 



    Às vezes, penso que talvez haja também uma tendência muito discreta de o Antigo Testamento também servir como fonte de inspiração. Sulamita, a noiva do Cântico dos Cânticos é retratada em Carvalho Júnior e Teófilo Dias em poemas homônimos. Temos o poema “Susana”, de Afonso Celso e ainda teríamos a perigosa Eva/ Pandora em “Abyssus”, de Olavo Bilac. (?)



A arte pela arte


  A arte deve ser feita para a glória do próprio fazer artístico, a arte serve para a própria arte. Além dos exemplos abaixo, convido a relerem o poema Quadro Artístico inserido neste texto, no início.

Na França, Gautier:

Oui, l’œuvre sort plus belle
D’une forme au travail
Rebelle,
Vers, marbre, onyx, émail.

Point de contraintes fausses !
Mais que pour marcher droit
Tu chausses,
Muse, un cothurne étroit.


Numa conhecida pastiche brasileira:


Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança,
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!

Olavo Bilac



Emoção contida


Silva Ramos assim escreve: “De modo geral, no que se refere à expressão, os poemas parnasianos podem reportar-se a sentimentos e estados subjetivos de espírito, mas deles se exclui absolutamente a ‘sentimentalidade’ romântica.”

O eu-lírico, tal como o poeta, encontra-se distante do objeto, algumas vezes, impassível. Esta tendência não foi mantida completamente, mas é certo que predominou.




MUSA IMPASSÍVEL I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Francisca Júlia





  BOUGUEREAU (Gabriel aprova!)



CONSIDERAÇÕES FINAIS

      
       O ideal é pensar que durante aproximadamente 50 anos a estética vigente no Brasil foi marcada por uma grande erudição e retorno às características clássicas rejeitadas pelo Romantismo. Alguns professores comentam que esta escola começou e não terminou nunca já que toda cidade possui seu escritor erudito fazedor de sonetos e expert em parafrasear a mitologia, a filosofia e demais assuntos típicos da época.

     O deus grego Alexei Bueno, em sua polêmica Carta Aberta aos Poetas Brasileiros (2002) escreve sobre os grandes abusos literários que ele denomina “o fetichismo da objetividade”, isto é, os abusos de acreditar piamente que a objetividade deve estar acima da subjetividade. Esta crítica não é direcionada ao Parnasianismo e ao campo das releituras, mas sim aos errôneos conceitos propagados hoje por muitos escritores em palestras, prefácios, entrevistas etc como a crença de que “tudo o que se escreve é literatura”, “métrica é ultrapassada”, “poesia deve ser objetiva como o cotidiano”, “poesia deve ser curta, escrever menos...”

       Como podemos ver, a contestação do sistema atual de literatura constitui uma releitura parnasiana no que tange crítica. É verdade que a poesia passou por uma renovação da simplicidade no séc XIX, mas o que vemos hoje é uma dominação do simplório e pessoas não sabendo a distinção entre o simples e o simplório.

     

2 comentários:

Febo Vitoriano disse...

Os próximos serão em E-BOOK DE PDF. Formatar aqui não é fácil

Andressa C. disse...

ESTE BLOG SOU EU!

Amei.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).