quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DA COSTA E SILVA


 
Verônica

 

O sangue que ilumina o pensamento,
Em forma eterna a vida reproduz;
Assim, a imagem do meu pensamento
Se não em sangue, há de gravar-se em luz.

Então, vereis ao vivo refletida,
Entre uma auréola de esplendor cristão,
A sombra interior da minha vida
A projetar-se do meu coração...

Sob esse aspecto místico e profundo,
Terei a transparência do cristal,
Ampliando a visão múltipla do mundo
Para uma vida sobrenatural.

E o que tenho de humano e de divino
Ante olhares profanos hei de expor,
Nas ascensões e quedas do destino,
Que foram meu Calvário e meu Tabor.

Mas, cauteloso, o espírito tristonho,
Ocultando seu trágico avatar
Sob a névoa translúcida do sonho,
Há de ser como a espuma sobre o mar.

E a luz, que vibra em iris no meu canto,
Revelará, talvez, sem eu querer,
Aos vossos olhos lúcidos de espanto
A beleza intangível do meu ser.
Da Costa e Silva




Paradise Lost

 

Por que me trouxe aqui o meu destino?
Por que de tão longe vim me prender por encanto
A Essa a quem tanto quis, a Essa que me quis tanto,
Que, unidos pela fé, vivemos para o amor?


Por que o lar que se fez, com o divino favor,
Na feliz comunhão de um afeto tão santo,
Num momento fatal de dúvida e de espanto,
A morte vem encher de saudade e de dor?


Por que, se eu tenho fé, se vem fazer, no entanto,
Tua vontade, em vão, contra a minha, Senhor,
Que, resignado e bom, já hei sofrido tanto?


Assim, a interrogar minha esfinge interior,
Ergo ao longínquo azul os meus olhos em pranto,
Ó meu último bem! ó meu único amor!


Da Costa e Silva 

 


Biografia


Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933. Faleceu em 29 de junho de 1950.

Publicou os seguintes livros de poemas:
Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Organizou ele próprio uma Antologia de seus versos, cuja primeira edição é de 1934. Posteriormente saíram mais duas edições; a última em 1982. De suas Poesias Completas publicaram-se três edições: em 1950, 1975 e 1985.


Extraído do Jornal da Poesia

6 comentários:

Fєrnαndєz ♠♠ disse...

Da Costa e Silva é realmente um ícone da litertura piauiense.

http://terza-rima.blogspot.com/

Aмbзr Ѽ disse...

sangue é maravilhoso.

Lord Rommel Werneck disse...

Meninos, vou compor umas terza rimas góticas

Lord Rommel Werneck disse...

eu também adoro sangue

Filipe Cavalcante disse...

Como escapou ao Sr. Werneck, conhecedor dos bons poetas do Piauí, Da Costa e Silva foi ainda laureado com o título de Príncipe dos Poetas Piauienses.

Lord Rommel Werneck disse...

Não seja por isto... Que tal uma Princesa dos Poetas?

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).