sábado, 5 de fevereiro de 2011

LAMARTINE BABO


Versátil, satírico, inusitado e bem à frente de seu tempo, Lamartine Babo foi um dos poucos compositores de sua época a criar sucessos em quase todos os estilos musicais em voga. De suas inesquecíveis marchas de carnaval até as valsas românticas, Lamartine escreveu clássicos que até hoje são cantados.


Dizer que Lamartine Babo é o compositor da Velha Guarda que hoje é mais cantado pode soar estranho. Esse posto não seria de Noel Rosa, cujos sambas são amplamente estudados, ou de um Ary Barroso, que compôs centenas de clássicos?
Os dois compositores são muito mais ouvidos hoje - isso é pura verdade - mas quem criou os hinos de futebol que estão na boca de qualquer carioca foi Lamartine Babo. Pela rua eu nunca vi alguém cantar "Serra da Boa Esperança", é verdade, mas o "Hino do Flamengo" é coisa que se vê sempre.

Lamartine nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, no mesmo ano da fundação do América Football Club, o time de futebol que ditava seu coração. Desde pequeno já imitava os instrumentos das bandas de rua, cada instrumento com um pedaço da boca ou do corpo diferente. As imitações acabaram se tornando uma de suas marcas, presente em diversas gravações, além de terem uma função de composição. Por não saber escrever em partituras, Lamartine solfejava as notas dos instrumentos para os maestros ou músicos com que estava trabalhando. Extremamente magro, de voz fina (dizia: não tenho voz, tenho vez), de porte engraçado, Lamartine tinha tudo para não ingressar no universo da música brasileira da época, de galãs com vozes poderosas e grandes orquestras.


Seus primeiros sucessos vieram com as marchinhas de carnaval, no início da década de 30, quase todas sempre na boca de Mário Reis - o compositor que dividiu o canto da música brasileira. Isso porque, antes de Mário Reis, se cantava com inclinação ao bel-canto, com a voz poderosa, mais "virtuosa". Mário Reis, que iniciou a carreira com composições de Sinhô, tinha a voz mais contida, que se aproximava mais da fala, não do canto. Outro motivo de sucesso, além de seu talento e espontaneidade, são suas melodias simples, satíricas, bem completadas, como se vê em A.E.I.O.U., de Lamartine e Noel Rosa:


Mário Reis, que cantou vários clássicos de Lamartine.
 "A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha.
A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever,
Escreve sal com cê cedilha"

E não é aí que param as sátiras. Além de adorar trocadilhos - o que o fazia popular na imprensa da época - Lamartine era o primeiro compositor no Brasil a adotar o humor nonsense. Tudo o que se podia satirizar era satirizado. Como um tango seríssimo de Discépolo, na voz de Gardel, que em suas mãos se tornou "Família Urango-tango":

"Eu não suporto as intrigas,
apenas eu cito pessoas amigas.
Mas disse alguém lá do 100
que a família Urango não paga ninguém..."


As mudanças de época são muito presentes em suas canções, onde ele colocava em contraste os tempos antigos (como preferia de chamar: tempo da vovó) e moderno, as novidades que borbulhavam em sua época. As rádios, os novos estilos musicais, os novos comportamentos - tudo isso era notado por Lamartine. As canções abundam:
Lamartine Babo ao piano.

"Rancheira é espécie de mazurca
mais velha que o morro da Urca
me faz lembrar o meu avô
nos tempos de noivado ao lado da vovó...
"
(Babo...zeira, 1932)

"Toda gente agora pode
Ser bem forte, ser um "taco"
Ser bem ágil como um bode
E ter alma de macaco.
A velhice na cidade
Canta em coro a nova estrofe,
E já sente a mocidade
Que lhe trouxe o Voronoff...
"
(Seu Voronoff, 1928)

 "Não mostres à Vovó
minha conta da pensão,
deixa a velhinha
viver na ilusão..."
(Deixa a Velhinha, 1934)

Em "Babo...zeira", além do trocadilho do título com o nome do autor, a música fala da transformação dos ranchos no samba e marcha modernos, com um gingado totalmente diferente. Em "Seu Voronoff", o cirurgião russo Serge Voronoff é o tema: suas ideias eram de intervenções cirúrgicas entre homens e animais, em busca do rejuvenescimento. Louvado na época, Voronoff logo viu suas exóticas teorias caírem por terra antes de sua morte. Já "Deixa a Velhinha" é atualíssima, e é até espantosa se forem olhados os versos "esconde essas notícias de desastre de avião...".
Mas Lamartine não perdoaria os jovens. Já na sua primeira marcha a ser gravada, "Os Calças Largas", dizia:

Dança charleston, famosa na década de 20.
"Do tal charleston é bom não se falar
Faz lembrar peru de água
Quando a gente o quer matar"

(Os Calças Largas, 1927)

Se não era da moda ou das danças, era dos costumes novos dos jovens, como o de flertar não por amor, mas por ser "bom":

"Vamos flertar, 
(oh sim!)
Beijos trocar, 

(sem fim!)
Lá no Leblon

(por quê?)
Porque é bom.
"
(Que pequena levada, 1928)

O mesmo Lamartine que logo em frente veremos idealizar a mulher (e o carnaval) era o que criticava. Em "Maria da Luz", a própria idealização era criticada - a imagem da mulher sensual ao passar da rua. Uma curiosidade é que, além do belíssimo arranjo em que Lamartine canta, é uma versão de "Whistling in the Dark", de um filme americano famoso na época.

"É um tipo esbelto de mulher
e a gente faz o que ela quer,
é mais cotada que o café
pois tem aroma até no pé...


[...]

Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós..."

(Maria da Luz, 1932)


Com a chegada da gravação, os intérpretes começaram a definir tudo o que era cantado, a fim de "direcionar" o público da música. Dos primórdios da gravação até os anos 50, era quase regra constar o gênero da música.

Selo de disco onde se vê o gênero após o título. De: outrasbossas.blogspot.com
Essa banalização era criticada por Lamartine Babo, que inventava estilos a cada nova gravação: "marcha-enxerto", "marcha digestiva"... Esse lado satírico foi o mais conhecido, através dessas marchas, clássicos que surgiam aos montes em cada carnaval. Mas não foi só nesse gênero que Lamartine foi eminente, apesar do seu humor fino trespassar toda a obra.Valsa, samba, cateretê, fox blue e toada são só alguns dos estilos por onde Lamartine Babo passou.
Dedicou-se à valsa já mais velho, após anos e mais anos de sucessos com marchas e sambas. A saudade, a idealização lírica são sempre presentes: 

"Só nos dois num salão e esta valsa
E uma orquestra de anjos divinos
Uns acordes de um toque de sinos
Nos finais desta valsa de amor."
(Só nós dois no salão (e essa valsa), 1937) 

"Mais uma valsa, mais uma saudade
De alguém que não me quis
Vivo cantando a sós pela cidade
Fingindo ser feliz"
(Mais uma valsa, mais uma saudade,  1937)

Entre a marcha e a valsa, Lamartine veio a criar suas músicas que mais fizeram sucesso: os hinos de futebol. Apaixonado pelo esporte, em 1943 criou um hino para cada clube da primeira série do campeonato, e os apresentou num programa radiofônico, obtendo enorme sucesso. A maioria dos clubes já tinha seu hino, mas os criado por Lamartine Babo são os cantados até hoje. Sua paixão, claro, era o América:

"Hei de torcer, torcer, torcer,
hei de torcer até morrer, morrer, morrer,
pois a torcida americana é toda assim
a começar por mim
a cor do pavilhão é a cor do nosso coração..."
(Hino do América, 1943)

O que não diminui a qualidade dos outros hinos. Por ser um compositor intuitivo, ele criava melodias leves, sempre bem cuidadas e que são fáceis de aprender, o que facilitou o sucesso de suas músicas. Até chegava a imitar a si mesmo, com partes de melodias quase iguais, como se vê em "Grau Dez" e "Ride Palhaço". 

Morreu em 1963, pouco antes da estréia de uma apresentação de uma grande homenagem a ele, ficando para sempre no panteão dos compositores da música brasileira.



Escolhi cinco gravações como um panorama de sua obra, que estão disponíveis para ouvir logo abaixo do texto.

"Canção para inglês ver" abriu as portas para o humor nonsense na música brasileira. A letra, que aparentemente não tem muito sentindo como um todo, critica os estrangeirismos em moda na época. Ouviremos na gravação original, de 1931, com Lamartine Babo cantando.

"Ai loviu 
forguétiscleine meini itapirú
forguetifaive 
anda u dai xeu
no bonde Silva Manuel, Manuel..." 

 

"Parei Contigo" é uma divertida crítica aos supostos amigos, que se aproveitam dos outros e depois somem. Ouviremos a gravação original, de 1934, com Mário Reis e Lamartine Babo.

"Um dia eu fui parar contigo
num hotel em casca-dura
me roubaste a dentadura..."


"No Rancho Fundo" é um clássico da nossa música. A bela letra adaptada por Lamartine Babo harmoniza perfeitamente com a música de Ary Barroso, o que deixa um ar meio rural e saudoso. Ouviremos com Elizeth Cardoso, gravação de 1956.

"No rancho fundo
bem pra lá do fim do mundo
nunca mais houve alegria
nem de noite, nem de dia.
Os arvoredos 
já não contam mais segredos
e a última palmeira
já morreu na cordilheira."


"Maria da Luz" tem uma melodia bonita, bem orquestrada. A letra de Lamartine satiriza as mulheres idealizadas, e a abertura satiriza as rádios e os bondes. Ouviremos com o próprio Lamartine, em gravação de
1932.

"Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós
"


Finalizando, "Serra da Boa Esperança", canção por demais melancólica e bela, com Francisco Alves em gravação de 1937.

"Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."

2 comentários:

Febo Vitoriano disse...

'Screve sobre algum romântico tb como Chopin

Caio Graco C de Carvalho disse...

Muito belo o texto! Me fez ter mais vontade de conhecer a relevante obra deste grande artista.

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