terça-feira, 30 de julho de 2013

Vale das Sombras




Vale das Sombras

Quisera sonhar de novo,
E nesse instante morrer!
Maria Browne


À meia-noite, em silêncio eternal,
Fitei, na Treva, um venusto jardim;
Corri, sofrêgo, para vê-lo, e enfim,
Aproximei-me de um velho rosal.

O jardim era um vale magistral,
Mas as flores estavam em seu fim,
Parecendo chorar tão-só por mim,
Murchas e com perfume sepulcral.

Então, senti uma melancolia,
E afoguei-me em devaneios tristonhos,
Sem entender aquilo que sentia.

Logo vi, em segundos enfadonhos:
Meu coração era o vale que eu via
E as flores meus doces e antigos sonhos!

Renan Caíque

sábado, 27 de julho de 2013

Fim último de todas as jornadas




"Imperious Ceasar, dead and turn'd to clay,
Might stop hole to keep the wind away."
Hamlet (Ato 5, Cena 1) - Shakespeare


Fim último de todas as jornadas,
A Terra acolhe todos no seu seio.
Orgânicas moléculas finadas;
S'encontram neste lar de vermes cheio.
Alexandre, Ramsés, Augusto César;
Aos servos se juntaram no final.
A matéria da Vida se reveza;
Entre as pompas de um rei e um vegetal.
Oh! Terra, testemunha de meus passos;
E todas as batalhas do passado,
Também quero a ternura de teus braços,
Também quero por ti ser reciclado,
     Pois a dor que me vence nesta vida,
     Na vida doutro ser será vencida!


Ivan Eugênio da Cunha

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Antologia Relicário na Bienal do Rio

A antologia Relicário estará disponível para venda no estande da PerSe na XVI Bienal do Livro Rio, que acontecerá de 29 de Agosto a 8 de Setembro no Rio Centro.

Para mais informações sobre a Bienal: http://www.bienaldolivro.com.br/

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A antologia Relicário pode ser obtida pelo link: http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1373133566378

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Página no facebook: https://www.facebook.com/antologiarelicario




quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Amante

"Lançar um grande amor aos pés de alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento!" 
Florbela Espanca

O Amante

O amante sente júbilo profundo;
E da razão mui pouco espera e sente.
Só sente a voz serena doutra mente;
E co'ela erige o sonho mais jucundo.

Ele tem no seu âmago uma lente;
Que, audaz, naquela voz converge o mundo,
Transmutando-o em mil versos dum facundo;
Poema epopéico, rutilantemente.

Ah! bêbado das ledas fantasias;
E todas as divinas eufonias,
O amante, d'esperanças, é cobrido.

Mas tudo, ao fim, se faz demência e dor,
Pois sempre o vinho idílico do amor;
Num cálice de chumbo vem servido!



Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 23 de julho de 2013

Invaja Bruta







Inveja Bruta

Olhai p'ra aquela pedra rija e muda.
Sua forma assimétrica e tão clara;
De complexa figura escravizada;
Pelo suave grilhão da Eternidade.
Olhai como não sente a Natureza:
A tempestade e a fúria rutilante.
Olhai p'ra aquela pedra paciente;
Esperando na eterna inconsciência;
Pela morte das eras e do espaço...
Ah!, olhai, olhai mais e com mais tento;
E havereis de sentir inveja dela,
Pois não sente nem quando nela pisam,
Tem bruta indiferença pelo tempo...
E a Paz irredutível de Não-Ser.


Ivan Eugênio da Cunha

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Âmago de Atlas


Âmago de Atlas

Pesa-me, sobre os ombros alquebrados,
Os pilares do escuro firmamento,
Onde firmam-se nuvens de lamento;
Carregadas com ácidos enfados.

E cortam-me, laceram-me, os afiados,
Os incorpóreos cacos dum momento;
Passado que a lembrança traz no vento;
E são partes de sonhos já quebrados.

Qual chumbo rarefeito pesa o mundo;
Atmosférico e negro, onde o profundo;
Vórtice da Tristeza não tem fim.

Ah!, quanto peso, quanto peso, quanto;
Peso e quanto pesar e desencanto;
Carrego sobre os ombros dentro em mim!

Ivan Eugênio da Cunha

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Noite Eterna


Noite Eterna

No silente relógio sideral,
Contemplo a Lua Cheia passear;
Uniforme e contínua sobre o mar;
Qual gris ponteiro grave de cristal,
Que mensura, preciso, meu cismar,
Minha dúvida muda a recitar;
"Por que do bem passado este final?!
Por que de tanto bem só tenho mal?!"
    E espero pelo Sol, a luz vistosa;
    Qu'ilumine minh'alma co'esperança;
    E elimine as mil farpas da lembrança.
    Mas quando, enfim, a Lua, vagarosa,
    Beija o mar e se afunda n'horizonte,
    Outra Lua s'eleva atrás, num monte!

Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mar



Mar
Mar profundo de tez ensangüentada,
De feridas abissais, de escuro infindo,
De monstros assombrosos consumindo;
Cardumes de brancura imaculada;
Tornei-me quando fiz Amor bem vindo;
Nas águas de meu Ser, na minha alada;
Alma cândida, alma governada;
Pelo som da Esperança, que ora é findo.
    Mar infértil, sem vida, sem doçura...
    Mar amargo e salgado onde a tristura,
    Das correntes brutais, faz suas veias.
    Onde o negro lamento meu, gelado,
    Soa fundo, distante, contristado,
    Como o canto soturno das Baleias.

Ivan Eugênio da Cunha

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Rosa Triste




Rosa Triste




Ó virgem bela e lúgubre do beijo
Gélido aquecedor de minha vida,
Tu'algidez aquenta meu desejo,
Matando toda dor adormecida...

Na noite um suavíssimo lampejo
Descobre tua face enternecida,
Mostrando os lábios mádidos que almejo
De ti, musa friamente entristecida...

Ó, ensanguentada rosa, rosa triste,
É eternal a paixão que em mim existe
Por ti, pálida flor esplendorosa!

Sagro-te meu soturno coração
Em versos tortuosos d'ilusão
Que inspiro em ti, ó minha triste rosa!

Renan Caíque

sábado, 18 de maio de 2013

Reflexões (7): sobre a dor

Reflexões (7): sobre a dor

Se na dor sobrevive algum enlevo,
a réstia que ficou de um terno encanto,
precipitado sólido do pranto,
cantá-la, sim, desejo – e mesmo devo.

Ignorá-la? Nunca! Não! Não devo!
Por isso aqui a exalto, rimo e canto
(ainda que te cause certo espanto)
neste soneto que chorando escrevo.

Sem luz não haveria escuridão,
sem erro não teria, não, perdão
e o mundo, enfim, seria uma tristura.

A dor expõe a nossa humanidade,
do amor é filha, é filha da saudade,
a sacrossanta dor que nos tortura.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Passacaglia e Fuga







Passacaglia e Fuga
I
Passacaglia

Sons etéreos, profundos, ressonantes;
- Abissal melodia dos pedais -
Desprendem-se dos tubos magistrais;
E voam pelos ares, triunfantes.

Sinergeticamente consonantes,
Freqüências s'entrelaçam mais e mais;
Num tecido de sons celestiais,
Harmonias perfeitas e vibrantes.

Acompanho estes sons, as melodias...
A seqüência de eternas eufonias...
Acompanho vagarem no meu Ser,

Onde, em minha memória, eternificam;
E dentro de minh'alma se amplificam;
Ressonando nas cordas do Prazer.


II
Fuga


Voai, voai distâncias infinitas;
No espaço qual no tempo já voais!
Voai, voai, oh!, sons de catedrais,
Melodias fugazes entreditas,

Para o longe das rochas selenitas,
Para além: as esferas siderais!
Para sempre voai! Voai benditas!
Voai benditas sempre mais e mais!

E que vossa existência na Existência;
Cubra o Todo e do Todo seja essência...
Ah! vozes harmoniosas, vos apelo:

Voai, voai quão mais podeis voar,
Que não há quem não há de apreciar;
O ideal metafísico do Belo.


Ivan Eugênio da Cunha

PS: Esses sonetos foram inspirados pela obra "Passacaglia e Fuga" de J.S. Bach.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).