quarta-feira, 29 de maio de 2013

Rosa Triste




Rosa Triste




Ó virgem bela e lúgubre do beijo
Gélido aquecedor de minha vida,
Tu'algidez aquenta meu desejo,
Matando toda dor adormecida...

Na noite um suavíssimo lampejo
Descobre tua face enternecida,
Mostrando os lábios mádidos que almejo
De ti, musa friamente entristecida...

Ó, ensanguentada rosa, rosa triste,
É eternal a paixão que em mim existe
Por ti, pálida flor esplendorosa!

Sagro-te meu soturno coração
Em versos tortuosos d'ilusão
Que inspiro em ti, ó minha triste rosa!

Renan Caíque

sábado, 18 de maio de 2013

Reflexões (7): sobre a dor

Reflexões (7): sobre a dor

Se na dor sobrevive algum enlevo,
a réstia que ficou de um terno encanto,
precipitado sólido do pranto,
cantá-la, sim, desejo – e mesmo devo.

Ignorá-la? Nunca! Não! Não devo!
Por isso aqui a exalto, rimo e canto
(ainda que te cause certo espanto)
neste soneto que chorando escrevo.

Sem luz não haveria escuridão,
sem erro não teria, não, perdão
e o mundo, enfim, seria uma tristura.

A dor expõe a nossa humanidade,
do amor é filha, é filha da saudade,
a sacrossanta dor que nos tortura.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Passacaglia e Fuga







Passacaglia e Fuga
I
Passacaglia

Sons etéreos, profundos, ressonantes;
- Abissal melodia dos pedais -
Desprendem-se dos tubos magistrais;
E voam pelos ares, triunfantes.

Sinergeticamente consonantes,
Freqüências s'entrelaçam mais e mais;
Num tecido de sons celestiais,
Harmonias perfeitas e vibrantes.

Acompanho estes sons, as melodias...
A seqüência de eternas eufonias...
Acompanho vagarem no meu Ser,

Onde, em minha memória, eternificam;
E dentro de minh'alma se amplificam;
Ressonando nas cordas do Prazer.


II
Fuga


Voai, voai distâncias infinitas;
No espaço qual no tempo já voais!
Voai, voai, oh!, sons de catedrais,
Melodias fugazes entreditas,

Para o longe das rochas selenitas,
Para além: as esferas siderais!
Para sempre voai! Voai benditas!
Voai benditas sempre mais e mais!

E que vossa existência na Existência;
Cubra o Todo e do Todo seja essência...
Ah! vozes harmoniosas, vos apelo:

Voai, voai quão mais podeis voar,
Que não há quem não há de apreciar;
O ideal metafísico do Belo.


Ivan Eugênio da Cunha

PS: Esses sonetos foram inspirados pela obra "Passacaglia e Fuga" de J.S. Bach.

domingo, 31 de março de 2013

PHILOS



Ao mestre de Königsberg, Immanuel Kant

I

Ouvir das coisas o que as coisas são,
nesse despir, metáfora em metáfora,
e só sobrar silêncios nessa ágora,
encapelando o mar de escuridão.

E desmontar do tempo as engrenagens
que um Deus austero tenha colocado,
varrer ruínas de um velho reinado
de rumos esboçados nas miragens...

Olhar sem medo a face desdobrada
dessa palavra, tinta de outra tinta, 
fotografando a forma que pressinta
perder o mundo relido nalgum nada.

Parir o espanto, enquanto a imprecisão
dá seu recado e pensa nomear
o pensamento - e julga ser o ar
e a aspereza dos grânulos do chão.

Molhar o cosmo em causas e efeitos, 
Titã numênico à vasta quintessência,
que ao mergulhar no sonho da potência,
faz trepidar o sono dos direitos.

Mas como se livrar dessas algemas,
querendo atravessar qualquer sentido,
até restar o incompreendido,
além da imprecisão dos teoremas?

Para cingir nas pausas em que cri
equidistante e perto ao pensamento
que só consegue alçar o firmamento
no labirinto atroz da coisa-em-si?

Enquanto a mente sempre se perdia
atrás de uma resposta, eu perguntava
em qual lugar secreto que ficava
a solução de toda antinomia.

II

"Olhando o vítreo altar do azul celeste,
quebrado nessa forma em que diviso,
conter, nessa sublime e meiga veste,
a cor de que se pinta o Paraíso,
como eu não posso me render ao doce
reino das ilusões, por vão que fosse?

Oh! Traquejo de cálculos perdidos,
titubeios chistosos de quem sente
ter o mundo, e depois entre os vencidos
tombar na aflição de um penitente!
Não importa a Razão, pois o que impera
é somente a incerteza da quimera!"

III

Naufragar no oceano da Incerteza,
negro mar que divisa uma batalha?
Tece a Mente sua própria mortalha
entre a Escuridão e a Clareza?

E das incompletudes indigestas,
que jazem no piar do desconforto,
eu quero o que sentiu a foz num Horto
das minhas sensações de ser-giesta.

Quero entender das coisas mais singelas
sem destruir o seu encanto breve,
nas erráticas soluções da neve
morrendo em água nas visões-procelas.

Condenado a sofrer como um errante,
a buscar todo o breve encantamento
das efêmeras coisas, no tormento
que retorna neste estro suspirante.

IV

Oh! Terei quantos dínamos e vórtices
adentrando nas chamas do perpétuo;
concluir o deslizar do que era reto
refrigerado nas coisas sem ter óbices?

Desvendar, por fim, na vastidão calada,
o meu grito sem eco nesse abismo
resvalar no perfeito mecanismo
qual se o silêncio fosse o Tudo e o Nada!


VITOR DE SILVA e GABRIEL RÜBINGER

quinta-feira, 28 de março de 2013

4 ANOS DE POESIA RETRÔ

Há quatro anos, Rommel Werneck e eu fundamos este blog. Gostaria de agradecer, imensamente, a todos que colaboraram conosco, e desejar a todos os poetas (e poetisas) inspiração da mais fina lira. Por isso, dedico esse poema de Shelley (que traduzi livremente) a todos nós, em especial à amiga Denise Severgnini - perda inestimável que esse ano trouxe. Que possamos ter muitos outros anos de Poesia Retrô!

---

NÓS SOMOS COMO AS NUVENS


Nós somos como as nuvens que cobrem a lua da meia-noite;
como elas que correm, e brilham, e tremulam, sem cansar,
atravessando, radiantemente, a escuridão! Mas logo 

a noite abraça em volta, e se perdem para sempre.




Ou como as liras esquecidas, cujas cordas dissonantes
respondem de formas mil, para cada diferente sopro,
e cuja frágil armação não pode modular, ou numa outra vez
dar sentimento igual à vez passada.


Nós descansamos - um sonho tem o poder de evenenar o sono;
Nós levantamos - uma divagação escurece o dia;
Nós sentimos, concebemos ou imaginamos, sorrimos ou choramos,
abraçamos apaixonadamente o infortúnio, ou lançamos as preocupações para fora;


É o mesmo! Por isso, seja alegre ou desafortunado,
o caminho da partida ainda é livre:
o ontem de um homem nunca é o mesmo do amanhã;
nada pode persistir, senão a Mutabilidade.

P. B. Shelley

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fim de tudo












No negro de teus olhos noturnais
eu vejo a morte dentro das meninas,
e não estrelas belas, purpurinas
a reluzir no céu, feito os cristais.

Eu vejo tumbas, anjos sepulcrais,
por entre tantas brumas e neblinas,
e não a luz das horas matutinas
a iluminar as relvas e rosais.

Nos olhos teus eu vejo o fim de tudo,
nas sombras de um olhar fatal e rudo,
vazio de ternura, amortalhado.

Na noite de teus olhos ora vejo
a morte a desfilar, com seu cortejo,
levando o amor que um dia eu hei sonhado.

sábado, 9 de março de 2013

Que Romântico! - Cheio de luz



Cheio de luz

Omnis ars validum est.

Por que? Se o maioral te fez ferir
Suas máculas podres no sudário?
E te mostrou, nas cruzes do templário,
Seu sangue se escorrendo no organdi?

Não foi, oh mestre, este o teu salário?
Seu discordar, seu pálido martir?
O que serás no gélido porvir?
Um anjo! Porém triste e solitário!

És anjo e és demônio. És só e eterno
E a brisa das estrelas que descreu,
Te quebrou o teu laço mais fraterno...

Tu estás preso na pedra que escolheu
Mesmo na escuridão do teu inferno...
Resta a luz que, por hora, não morreu.


Por: Ronan Fernandes
IV/III/MMXIII
Au lever du soleil


fonte da imagem: http://cursoflaviomello.blogspot.com.br

Distância






 Distância

Metros, quilômetros ou anos luz;
Mensuram este espaço trivial,
Mas distância mensura muito mal;
A distância que a mente reproduz,
Pois Saudade no cérebro reluz;
O passado, em delírio neuronal,
Faz distância no tempo ser banal
E a sombra da presença virar cruz.
     Disseras que, p'r'as minhas agonias,
     A distância - quilômetros e dias -
     Seria tal remédio é p'ra doença,
     Mas digo-te, contrário à rija lex;
     Naturalis, nem mil quiloparsecs;
     Fariam dessentir tua presença.


Ivan Eugênio da Cunha

sexta-feira, 8 de março de 2013



Decadência Primaveril

Na minha vida, quando as tenras flores
Da infância germinaram olorosas,
Encheram-me a alma as formas vaporosas
De todos as venturas e furores;

Ao coração —  jardim de pulcras rosas —
Deram-se as primaveras dos amores,
Emanações de férvidos ardores,
Eflúvios de ilusões esplendorosas!...

Vestida em vaga glória e magnitude,
A minha enaltecida juventude
Tão cedo se turvou das claridades;

Ao coração, restou-me dessas flores,
Somente as murchas pétalas das dores,
E uma coroa negra de saudades

Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013

sábado, 2 de março de 2013

Depois do Acidente




Depois do Acidente


Nos lobos corticais do meu encéfalo,
O derramar de sague em mim fermenta
Em minha têz respinga água benta...
Enquanto calas, à minh'alma eu falo.

Oh! Meninge de líquo bolorenta!
Portas da Dura Mater que escancaro.
No lobo préfrontal, tão frio e caro,
Que surge uma obsessão vazia e lenta.

E chora, medular, sanguinolenta,
Aracnóide! o seu olhar caótico...
Mortas nessa escuridão tão lutulenta.

O sistema nervoso cria um narcótico,
Nessa vazia mente e tão poenta...
Mente vazia do sombrio psicótico.

Por: Ronan Fernandes
II/III/MMXIII
0:18 o'clock

imagem de: http://femininoealem.com.br

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SAGRAÇÃO





ao Apolo, que me contou esta história


CERTA TARDE em que Apolo conduzia
no firmamento a sua carruagem,
num lago cristalino viu à margem
um belo moço que desconhecia.


Na água especular que refletia
a juventude máscula e selvagem
deitou-se Apolo em sua homenagem
na sagração da sua idolatria.


A rósea cor matiza em rebeldia
da limpidez azul do lago a imagem,
mas o moço se espanta da passagem
da luz sanguínea que no céu se erguia.


Quem se exila de um sonho tão divino,
na solidão de Hefesto tem destino!

GABRIEL RÜBINGER



pintura: Odilon Redon, "A Carruagem de Apolo" (c. 1909).

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).