Reflexões (7): sobre a dor
Se na dor sobrevive algum enlevo,
a réstia que ficou de um terno encanto,
precipitado sólido do pranto,
cantá-la, sim, desejo – e mesmo devo.
Ignorá-la? Nunca! Não! Não devo!
Por isso aqui a exalto, rimo e canto
(ainda que te cause certo espanto)
neste soneto que chorando escrevo.
Sem luz não haveria escuridão,
sem erro não teria, não, perdão
e o mundo, enfim, seria uma tristura.
A dor expõe a nossa humanidade,
do amor é filha, é filha da saudade,
a sacrossanta dor que nos tortura.
sábado, 18 de maio de 2013
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Passacaglia e Fuga
Passacaglia e Fuga
I
Passacaglia
Sons etéreos, profundos, ressonantes;
- Abissal melodia dos pedais -
Desprendem-se dos tubos magistrais;
E voam pelos ares, triunfantes.
Sinergeticamente consonantes,
Freqüências s'entrelaçam mais e mais;
Num tecido de sons celestiais,
Harmonias perfeitas e vibrantes.
Acompanho estes sons, as melodias...
A seqüência de eternas eufonias...
Acompanho vagarem no meu Ser,
Onde, em minha memória, eternificam;
E dentro de minh'alma se amplificam;
Ressonando nas cordas do Prazer.
II
Fuga
Voai, voai distâncias infinitas;
No espaço qual no tempo já voais!
Voai, voai, oh!, sons de catedrais,
Melodias fugazes entreditas,
Para o longe das rochas selenitas,
Para além: as esferas siderais!
Para sempre voai! Voai benditas!
Voai benditas sempre mais e mais!
E que vossa existência na Existência;
Cubra o Todo e do Todo seja essência...
Ah! vozes harmoniosas, vos apelo:
Voai, voai quão mais podeis voar,
Que não há quem não há de apreciar;
O ideal metafísico do Belo.
Ivan Eugênio da Cunha
I
Passacaglia
Sons etéreos, profundos, ressonantes;
- Abissal melodia dos pedais -
Desprendem-se dos tubos magistrais;
E voam pelos ares, triunfantes.
Sinergeticamente consonantes,
Freqüências s'entrelaçam mais e mais;
Num tecido de sons celestiais,
Harmonias perfeitas e vibrantes.
Acompanho estes sons, as melodias...
A seqüência de eternas eufonias...
Acompanho vagarem no meu Ser,
Onde, em minha memória, eternificam;
E dentro de minh'alma se amplificam;
Ressonando nas cordas do Prazer.
II
Fuga
Voai, voai distâncias infinitas;
No espaço qual no tempo já voais!
Voai, voai, oh!, sons de catedrais,
Melodias fugazes entreditas,
Para o longe das rochas selenitas,
Para além: as esferas siderais!
Para sempre voai! Voai benditas!
Voai benditas sempre mais e mais!
E que vossa existência na Existência;
Cubra o Todo e do Todo seja essência...
Ah! vozes harmoniosas, vos apelo:
Voai, voai quão mais podeis voar,
Que não há quem não há de apreciar;
O ideal metafísico do Belo.
Ivan Eugênio da Cunha
PS: Esses sonetos foram inspirados pela obra "Passacaglia e Fuga" de J.S. Bach.
domingo, 31 de março de 2013
PHILOS
Publicado por
Gabriel Rübinger
às
11:50
Ao mestre de Königsberg, Immanuel Kant
I
Ouvir das coisas o que as coisas são,
nesse despir, metáfora em metáfora,
e só sobrar silêncios nessa ágora,
encapelando o mar de escuridão.
E desmontar do tempo as engrenagens
que um Deus austero tenha colocado,
varrer ruínas de um velho reinado
de rumos esboçados nas miragens...
Olhar sem medo a face desdobrada
dessa palavra, tinta de outra tinta,
fotografando a forma que pressinta
perder o mundo relido nalgum nada.
Parir o espanto, enquanto a imprecisão
dá seu recado e pensa nomear
o pensamento - e julga ser o ar
e a aspereza dos grânulos do chão.
Molhar o cosmo em causas e efeitos,
Titã numênico à vasta quintessência,
que ao mergulhar no sonho da potência,
faz trepidar o sono dos direitos.
Mas como se livrar dessas algemas,
querendo atravessar qualquer sentido,
até restar o incompreendido,
além da imprecisão dos teoremas?
Para cingir nas pausas em que cri
equidistante e perto ao pensamento
que só consegue alçar o firmamento
no labirinto atroz da coisa-em-si?
Enquanto a mente sempre se perdia
atrás de uma resposta, eu perguntava
em qual lugar secreto que ficava
a solução de toda antinomia.
II
"Olhando o vítreo altar do azul celeste,
quebrado nessa forma em que diviso,
conter, nessa sublime e meiga veste,
a cor de que se pinta o Paraíso,
como eu não posso me render ao doce
reino das ilusões, por vão que fosse?
Oh! Traquejo de cálculos perdidos,
titubeios chistosos de quem sente
ter o mundo, e depois entre os vencidos
tombar na aflição de um penitente!
Não importa a Razão, pois o que impera
é somente a incerteza da quimera!"
III
Naufragar no oceano da Incerteza,
negro mar que divisa uma batalha?
Tece a Mente sua própria mortalha
entre a Escuridão e a Clareza?
E das incompletudes indigestas,
que jazem no piar do desconforto,
eu quero o que sentiu a foz num Horto
das minhas sensações de ser-giesta.
Quero entender das coisas mais singelas
sem destruir o seu encanto breve,
nas erráticas soluções da neve
morrendo em água nas visões-procelas.
Condenado a sofrer como um errante,
a buscar todo o breve encantamento
das efêmeras coisas, no tormento
que retorna neste estro suspirante.
IV
Oh! Terei quantos dínamos e vórtices
adentrando nas chamas do perpétuo;
concluir o deslizar do que era reto
refrigerado nas coisas sem ter óbices?
Desvendar, por fim, na vastidão calada,
o meu grito sem eco nesse abismo
resvalar no perfeito mecanismo
qual se o silêncio fosse o Tudo e o Nada!
VITOR DE SILVA e GABRIEL RÜBINGER
quinta-feira, 28 de março de 2013
4 ANOS DE POESIA RETRÔ
Publicado por
Gabriel Rübinger
às
16:57
Há quatro anos, Rommel Werneck e eu fundamos este blog. Gostaria de agradecer, imensamente, a todos que colaboraram conosco, e desejar a todos os poetas (e poetisas) inspiração da mais fina lira. Por isso, dedico esse poema de Shelley (que traduzi livremente) a todos nós, em especial à amiga Denise Severgnini - perda inestimável que esse ano trouxe. Que possamos ter muitos outros anos de Poesia Retrô!
---
NÓS SOMOS COMO AS NUVENS
Nós somos como as nuvens que cobrem a lua da meia-noite;
como elas que correm, e brilham, e tremulam, sem cansar,
atravessando, radiantemente, a escuridão! Mas logo
a noite abraça em volta, e se perdem para sempre.
Ou como as liras esquecidas, cujas cordas dissonantes
respondem de formas mil, para cada diferente sopro,
e cuja frágil armação não pode modular, ou numa outra vez
dar sentimento igual à vez passada.
Nós descansamos - um sonho tem o poder de evenenar o sono;
Nós levantamos - uma divagação escurece o dia;
Nós sentimos, concebemos ou imaginamos, sorrimos ou choramos,
abraçamos apaixonadamente o infortúnio, ou lançamos as preocupações para fora;
É o mesmo! Por isso, seja alegre ou desafortunado,
o caminho da partida ainda é livre:
o ontem de um homem nunca é o mesmo do amanhã;
nada pode persistir, senão a Mutabilidade.
P. B. Shelley
segunda-feira, 18 de março de 2013
Fim de tudo
Publicado por
Edir Pina de Barros
às
09:40
No negro de teus
olhos noturnais
eu vejo a morte
dentro das meninas,
e não estrelas belas,
purpurinas
a reluzir no céu,
feito os cristais.
Eu vejo tumbas, anjos
sepulcrais,
por entre tantas
brumas e neblinas,
e não a luz das horas
matutinas
a iluminar as relvas
e rosais.
Nos olhos teus eu
vejo o fim de tudo,
nas sombras de um
olhar fatal e rudo,
vazio de ternura,
amortalhado.
Na noite de teus
olhos ora vejo
a morte a desfilar,
com seu cortejo,
levando o amor que um
dia eu hei sonhado.
sábado, 9 de março de 2013
Que Romântico! - Cheio de luz
Cheio de luz
Omnis ars validum est.
Por que? Se o maioral te fez ferir
Suas máculas podres no sudário?
E te mostrou, nas cruzes do templário,
Seu sangue se escorrendo no organdi?
Não foi, oh mestre, este o teu salário?
Seu discordar, seu pálido martir?
O que serás no gélido porvir?
Um anjo! Porém triste e solitário!
És anjo e és demônio. És só e eterno
E a brisa das estrelas que descreu,
Te quebrou o teu laço mais fraterno...
Tu estás preso na pedra que escolheu
Mesmo na escuridão do teu inferno...
Resta a luz que, por hora, não morreu.
Por: Ronan Fernandes
IV/III/MMXIII
Au lever du soleil
fonte da imagem: http://cursoflaviomello.blogspot.com.br
Distância
Distância
Metros, quilômetros ou anos luz;
Mensuram este espaço trivial,
Mas distância mensura muito mal;
A distância que a mente reproduz,
Pois Saudade no cérebro reluz;
O passado, em delírio neuronal,
Faz distância no tempo ser banal
E a sombra da presença virar cruz.
Disseras que, p'r'as minhas agonias,
A distância - quilômetros e dias -
Seria tal remédio é p'ra doença,
Mas digo-te, contrário à rija lex;
Naturalis, nem mil quiloparsecs;
Fariam dessentir tua presença.
Ivan Eugênio da Cunha
sexta-feira, 8 de março de 2013
Publicado por
Derek S. Castro
às
11:35
Decadência Primaveril
Na minha vida, quando as tenras flores
Da infância germinaram olorosas,
Encheram-me a alma as formas vaporosas
De todos as venturas e furores;
Ao coração — jardim de pulcras rosas —
Deram-se as primaveras dos amores,
Emanações de férvidos ardores,
Eflúvios de ilusões esplendorosas!...
Vestida em vaga glória e magnitude,
A minha enaltecida juventude
Tão cedo se turvou das claridades;
Ao coração, restou-me dessas flores,
Somente as murchas pétalas das dores,
E uma coroa negra de saudades
Da infância germinaram olorosas,
Encheram-me a alma as formas vaporosas
De todos as venturas e furores;
Ao coração — jardim de pulcras rosas —
Deram-se as primaveras dos amores,
Emanações de férvidos ardores,
Eflúvios de ilusões esplendorosas!...
Vestida em vaga glória e magnitude,
A minha enaltecida juventude
Tão cedo se turvou das claridades;
Ao coração, restou-me dessas flores,
Somente as murchas pétalas das dores,
E uma coroa negra de saudades
Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013
sábado, 2 de março de 2013
Depois do Acidente
Depois do Acidente
Nos lobos corticais do meu encéfalo,
O derramar de sague em mim fermenta
Em minha têz respinga água benta...
Enquanto calas, à minh'alma eu falo.
Oh! Meninge de líquo bolorenta!
Portas da Dura Mater que escancaro.
No lobo préfrontal, tão frio e caro,
Que surge uma obsessão vazia e lenta.
E chora, medular, sanguinolenta,
Aracnóide! o seu olhar caótico...
Mortas nessa escuridão tão lutulenta.
O sistema nervoso cria um narcótico,
Nessa vazia mente e tão poenta...
Mente vazia do sombrio psicótico.
Por: Ronan Fernandes
II/III/MMXIII
0:18 o'clock
imagem de: http://femininoealem.com.br
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
SAGRAÇÃO
Publicado por
Gabriel Rübinger
às
16:29
ao Apolo, que me contou esta história
CERTA TARDE em que Apolo conduzia
no firmamento a sua carruagem,
num lago cristalino viu à margem
um belo moço que desconhecia.
Na água especular que refletia
a juventude máscula e selvagem
deitou-se Apolo em sua homenagem
na sagração da sua idolatria.
A rósea cor matiza em rebeldia
da limpidez azul do lago a imagem,
mas o moço se espanta da passagem
da luz sanguínea que no céu se erguia.
Quem se exila de um sonho tão divino,
na solidão de Hefesto tem destino!
GABRIEL RÜBINGER
pintura: Odilon Redon, "A Carruagem de Apolo" (c. 1909).
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Desperatio - Que Romântico!
Desperatio
Uma mulher de preto invade o campo
Co’uma criança pálida nos braços.
No rosto, um choro frio nos seus traços,
E um violino a se rachar no tampo.
Cava, com um coração em pedaços,
A cova do menino... Então, em pranto
Toca uma Marcha Fúnebre, em seu manto,
No violino triste no terraço
Me ouça! Essa mulher é a esperança
Desesperada, ao vento vil do norte,
Enterra a triste e podre criança.
Mas, quem é a criança? Digo agora...
Ela sou eu! Que sinto, em minha sorte
Essa sina que aos poucos me devora
Por: Ronan Fernandes
XIII/I/MMXIII
4:53 o’clock
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REVIVALISMO LITERÁRIO
Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:
* Promoção de Revivalismo;
* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;
* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;
* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;
* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).
* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;
* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;
* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;
* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).








