domingo, 31 de março de 2013

PHILOS



Ao mestre de Königsberg, Immanuel Kant

I

Ouvir das coisas o que as coisas são,
nesse despir, metáfora em metáfora,
e só sobrar silêncios nessa ágora,
encapelando o mar de escuridão.

E desmontar do tempo as engrenagens
que um Deus austero tenha colocado,
varrer ruínas de um velho reinado
de rumos esboçados nas miragens...

Olhar sem medo a face desdobrada
dessa palavra, tinta de outra tinta, 
fotografando a forma que pressinta
perder o mundo relido nalgum nada.

Parir o espanto, enquanto a imprecisão
dá seu recado e pensa nomear
o pensamento - e julga ser o ar
e a aspereza dos grânulos do chão.

Molhar o cosmo em causas e efeitos, 
Titã numênico à vasta quintessência,
que ao mergulhar no sonho da potência,
faz trepidar o sono dos direitos.

Mas como se livrar dessas algemas,
querendo atravessar qualquer sentido,
até restar o incompreendido,
além da imprecisão dos teoremas?

Para cingir nas pausas em que cri
equidistante e perto ao pensamento
que só consegue alçar o firmamento
no labirinto atroz da coisa-em-si?

Enquanto a mente sempre se perdia
atrás de uma resposta, eu perguntava
em qual lugar secreto que ficava
a solução de toda antinomia.

II

"Olhando o vítreo altar do azul celeste,
quebrado nessa forma em que diviso,
conter, nessa sublime e meiga veste,
a cor de que se pinta o Paraíso,
como eu não posso me render ao doce
reino das ilusões, por vão que fosse?

Oh! Traquejo de cálculos perdidos,
titubeios chistosos de quem sente
ter o mundo, e depois entre os vencidos
tombar na aflição de um penitente!
Não importa a Razão, pois o que impera
é somente a incerteza da quimera!"

III

Naufragar no oceano da Incerteza,
negro mar que divisa uma batalha?
Tece a Mente sua própria mortalha
entre a Escuridão e a Clareza?

E das incompletudes indigestas,
que jazem no piar do desconforto,
eu quero o que sentiu a foz num Horto
das minhas sensações de ser-giesta.

Quero entender das coisas mais singelas
sem destruir o seu encanto breve,
nas erráticas soluções da neve
morrendo em água nas visões-procelas.

Condenado a sofrer como um errante,
a buscar todo o breve encantamento
das efêmeras coisas, no tormento
que retorna neste estro suspirante.

IV

Oh! Terei quantos dínamos e vórtices
adentrando nas chamas do perpétuo;
concluir o deslizar do que era reto
refrigerado nas coisas sem ter óbices?

Desvendar, por fim, na vastidão calada,
o meu grito sem eco nesse abismo
resvalar no perfeito mecanismo
qual se o silêncio fosse o Tudo e o Nada!


VITOR DE SILVA e GABRIEL RÜBINGER

quinta-feira, 28 de março de 2013

4 ANOS DE POESIA RETRÔ

Há quatro anos, Rommel Werneck e eu fundamos este blog. Gostaria de agradecer, imensamente, a todos que colaboraram conosco, e desejar a todos os poetas (e poetisas) inspiração da mais fina lira. Por isso, dedico esse poema de Shelley (que traduzi livremente) a todos nós, em especial à amiga Denise Severgnini - perda inestimável que esse ano trouxe. Que possamos ter muitos outros anos de Poesia Retrô!

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NÓS SOMOS COMO AS NUVENS


Nós somos como as nuvens que cobrem a lua da meia-noite;
como elas que correm, e brilham, e tremulam, sem cansar,
atravessando, radiantemente, a escuridão! Mas logo 

a noite abraça em volta, e se perdem para sempre.




Ou como as liras esquecidas, cujas cordas dissonantes
respondem de formas mil, para cada diferente sopro,
e cuja frágil armação não pode modular, ou numa outra vez
dar sentimento igual à vez passada.


Nós descansamos - um sonho tem o poder de evenenar o sono;
Nós levantamos - uma divagação escurece o dia;
Nós sentimos, concebemos ou imaginamos, sorrimos ou choramos,
abraçamos apaixonadamente o infortúnio, ou lançamos as preocupações para fora;


É o mesmo! Por isso, seja alegre ou desafortunado,
o caminho da partida ainda é livre:
o ontem de um homem nunca é o mesmo do amanhã;
nada pode persistir, senão a Mutabilidade.

P. B. Shelley

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fim de tudo












No negro de teus olhos noturnais
eu vejo a morte dentro das meninas,
e não estrelas belas, purpurinas
a reluzir no céu, feito os cristais.

Eu vejo tumbas, anjos sepulcrais,
por entre tantas brumas e neblinas,
e não a luz das horas matutinas
a iluminar as relvas e rosais.

Nos olhos teus eu vejo o fim de tudo,
nas sombras de um olhar fatal e rudo,
vazio de ternura, amortalhado.

Na noite de teus olhos ora vejo
a morte a desfilar, com seu cortejo,
levando o amor que um dia eu hei sonhado.

sábado, 9 de março de 2013

Que Romântico! - Cheio de luz



Cheio de luz

Omnis ars validum est.

Por que? Se o maioral te fez ferir
Suas máculas podres no sudário?
E te mostrou, nas cruzes do templário,
Seu sangue se escorrendo no organdi?

Não foi, oh mestre, este o teu salário?
Seu discordar, seu pálido martir?
O que serás no gélido porvir?
Um anjo! Porém triste e solitário!

És anjo e és demônio. És só e eterno
E a brisa das estrelas que descreu,
Te quebrou o teu laço mais fraterno...

Tu estás preso na pedra que escolheu
Mesmo na escuridão do teu inferno...
Resta a luz que, por hora, não morreu.


Por: Ronan Fernandes
IV/III/MMXIII
Au lever du soleil


fonte da imagem: http://cursoflaviomello.blogspot.com.br

Distância






 Distância

Metros, quilômetros ou anos luz;
Mensuram este espaço trivial,
Mas distância mensura muito mal;
A distância que a mente reproduz,
Pois Saudade no cérebro reluz;
O passado, em delírio neuronal,
Faz distância no tempo ser banal
E a sombra da presença virar cruz.
     Disseras que, p'r'as minhas agonias,
     A distância - quilômetros e dias -
     Seria tal remédio é p'ra doença,
     Mas digo-te, contrário à rija lex;
     Naturalis, nem mil quiloparsecs;
     Fariam dessentir tua presença.


Ivan Eugênio da Cunha

sexta-feira, 8 de março de 2013



Decadência Primaveril

Na minha vida, quando as tenras flores
Da infância germinaram olorosas,
Encheram-me a alma as formas vaporosas
De todos as venturas e furores;

Ao coração —  jardim de pulcras rosas —
Deram-se as primaveras dos amores,
Emanações de férvidos ardores,
Eflúvios de ilusões esplendorosas!...

Vestida em vaga glória e magnitude,
A minha enaltecida juventude
Tão cedo se turvou das claridades;

Ao coração, restou-me dessas flores,
Somente as murchas pétalas das dores,
E uma coroa negra de saudades

Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013

sábado, 2 de março de 2013

Depois do Acidente




Depois do Acidente


Nos lobos corticais do meu encéfalo,
O derramar de sague em mim fermenta
Em minha têz respinga água benta...
Enquanto calas, à minh'alma eu falo.

Oh! Meninge de líquo bolorenta!
Portas da Dura Mater que escancaro.
No lobo préfrontal, tão frio e caro,
Que surge uma obsessão vazia e lenta.

E chora, medular, sanguinolenta,
Aracnóide! o seu olhar caótico...
Mortas nessa escuridão tão lutulenta.

O sistema nervoso cria um narcótico,
Nessa vazia mente e tão poenta...
Mente vazia do sombrio psicótico.

Por: Ronan Fernandes
II/III/MMXIII
0:18 o'clock

imagem de: http://femininoealem.com.br

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SAGRAÇÃO





ao Apolo, que me contou esta história


CERTA TARDE em que Apolo conduzia
no firmamento a sua carruagem,
num lago cristalino viu à margem
um belo moço que desconhecia.


Na água especular que refletia
a juventude máscula e selvagem
deitou-se Apolo em sua homenagem
na sagração da sua idolatria.


A rósea cor matiza em rebeldia
da limpidez azul do lago a imagem,
mas o moço se espanta da passagem
da luz sanguínea que no céu se erguia.


Quem se exila de um sonho tão divino,
na solidão de Hefesto tem destino!

GABRIEL RÜBINGER



pintura: Odilon Redon, "A Carruagem de Apolo" (c. 1909).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desperatio - Que Romântico!


Desperatio


Uma mulher de preto invade o campo
Co’uma criança pálida nos braços.
No rosto, um choro frio nos seus traços,
E um violino a se rachar no tampo.

Cava, com um coração em pedaços,
A cova do menino... Então, em pranto
Toca uma Marcha Fúnebre, em seu manto,
No violino triste no terraço

Me ouça! Essa mulher é a esperança
Desesperada, ao vento vil do norte,
Enterra a triste e podre criança.

Mas, quem é a criança? Digo agora...
Ela sou eu! Que sinto, em minha sorte
Essa sina que aos poucos me devora

Por: Ronan Fernandes
XIII/I/MMXIII
4:53 o’clock

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Soneto da Mor Desventura

 Soneto da Mor Desventura

Que m'importa se o céu está risonho;
E o Sol brilha em tons lindos de amarelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se morto está meu sonho?

Que m'importa se cá, onde me ponho,
Aves cantam num coro tão singelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se dentro decomponho?

Que m'importa se belo é todo o mundo;
Se à minh'alma ele todo não conforta?!
Respondei!: que m'importa?!, que m'importa?!

Que m'importa viver mais um segundo;
Se carrasco o Tempo é do coração;
Desde quando ela dorme num caixão?!


Ivan Eugênio da Cunha

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Oh!, Leitores



“Quem de meus versos a lição procura,
Os farpões nunca viu de amor insano,[...]”
 Correia Garção

Oh!, Leitores

Versos vários de negros sentimentos;
Vomitei nestas páginas sombrias.
Se lêsseis co'atenção a todos eles;
Percebestes que todos são de amor.

Amor que semelhante me devora;
A um torpe parasita sanguinário;
Que consome os tecidos musculares;
Sem nunca eliminar a sua fome.

Oh! leitores, se alguém de vós procura;
Algum ensinamento nos meus versos,
Algo que da razão seja produto,

Ah! digo-vos: ingênuo é este alguém;
Que procura tamanha lucidez;
Nas palavras convulsas dum amante.


 Ivan Eugênio da Cunha

PS: Este é meu primeiro soneto em versos brancos. 

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).