quinta-feira, 28 de março de 2013

4 ANOS DE POESIA RETRÔ

Há quatro anos, Rommel Werneck e eu fundamos este blog. Gostaria de agradecer, imensamente, a todos que colaboraram conosco, e desejar a todos os poetas (e poetisas) inspiração da mais fina lira. Por isso, dedico esse poema de Shelley (que traduzi livremente) a todos nós, em especial à amiga Denise Severgnini - perda inestimável que esse ano trouxe. Que possamos ter muitos outros anos de Poesia Retrô!

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NÓS SOMOS COMO AS NUVENS


Nós somos como as nuvens que cobrem a lua da meia-noite;
como elas que correm, e brilham, e tremulam, sem cansar,
atravessando, radiantemente, a escuridão! Mas logo 

a noite abraça em volta, e se perdem para sempre.




Ou como as liras esquecidas, cujas cordas dissonantes
respondem de formas mil, para cada diferente sopro,
e cuja frágil armação não pode modular, ou numa outra vez
dar sentimento igual à vez passada.


Nós descansamos - um sonho tem o poder de evenenar o sono;
Nós levantamos - uma divagação escurece o dia;
Nós sentimos, concebemos ou imaginamos, sorrimos ou choramos,
abraçamos apaixonadamente o infortúnio, ou lançamos as preocupações para fora;


É o mesmo! Por isso, seja alegre ou desafortunado,
o caminho da partida ainda é livre:
o ontem de um homem nunca é o mesmo do amanhã;
nada pode persistir, senão a Mutabilidade.

P. B. Shelley

segunda-feira, 18 de março de 2013

Fim de tudo












No negro de teus olhos noturnais
eu vejo a morte dentro das meninas,
e não estrelas belas, purpurinas
a reluzir no céu, feito os cristais.

Eu vejo tumbas, anjos sepulcrais,
por entre tantas brumas e neblinas,
e não a luz das horas matutinas
a iluminar as relvas e rosais.

Nos olhos teus eu vejo o fim de tudo,
nas sombras de um olhar fatal e rudo,
vazio de ternura, amortalhado.

Na noite de teus olhos ora vejo
a morte a desfilar, com seu cortejo,
levando o amor que um dia eu hei sonhado.

sábado, 9 de março de 2013

Que Romântico! - Cheio de luz



Cheio de luz

Omnis ars validum est.

Por que? Se o maioral te fez ferir
Suas máculas podres no sudário?
E te mostrou, nas cruzes do templário,
Seu sangue se escorrendo no organdi?

Não foi, oh mestre, este o teu salário?
Seu discordar, seu pálido martir?
O que serás no gélido porvir?
Um anjo! Porém triste e solitário!

És anjo e és demônio. És só e eterno
E a brisa das estrelas que descreu,
Te quebrou o teu laço mais fraterno...

Tu estás preso na pedra que escolheu
Mesmo na escuridão do teu inferno...
Resta a luz que, por hora, não morreu.


Por: Ronan Fernandes
IV/III/MMXIII
Au lever du soleil


fonte da imagem: http://cursoflaviomello.blogspot.com.br

Distância






 Distância

Metros, quilômetros ou anos luz;
Mensuram este espaço trivial,
Mas distância mensura muito mal;
A distância que a mente reproduz,
Pois Saudade no cérebro reluz;
O passado, em delírio neuronal,
Faz distância no tempo ser banal
E a sombra da presença virar cruz.
     Disseras que, p'r'as minhas agonias,
     A distância - quilômetros e dias -
     Seria tal remédio é p'ra doença,
     Mas digo-te, contrário à rija lex;
     Naturalis, nem mil quiloparsecs;
     Fariam dessentir tua presença.


Ivan Eugênio da Cunha

sexta-feira, 8 de março de 2013



Decadência Primaveril

Na minha vida, quando as tenras flores
Da infância germinaram olorosas,
Encheram-me a alma as formas vaporosas
De todos as venturas e furores;

Ao coração —  jardim de pulcras rosas —
Deram-se as primaveras dos amores,
Emanações de férvidos ardores,
Eflúvios de ilusões esplendorosas!...

Vestida em vaga glória e magnitude,
A minha enaltecida juventude
Tão cedo se turvou das claridades;

Ao coração, restou-me dessas flores,
Somente as murchas pétalas das dores,
E uma coroa negra de saudades

Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013

sábado, 2 de março de 2013

Depois do Acidente




Depois do Acidente


Nos lobos corticais do meu encéfalo,
O derramar de sague em mim fermenta
Em minha têz respinga água benta...
Enquanto calas, à minh'alma eu falo.

Oh! Meninge de líquo bolorenta!
Portas da Dura Mater que escancaro.
No lobo préfrontal, tão frio e caro,
Que surge uma obsessão vazia e lenta.

E chora, medular, sanguinolenta,
Aracnóide! o seu olhar caótico...
Mortas nessa escuridão tão lutulenta.

O sistema nervoso cria um narcótico,
Nessa vazia mente e tão poenta...
Mente vazia do sombrio psicótico.

Por: Ronan Fernandes
II/III/MMXIII
0:18 o'clock

imagem de: http://femininoealem.com.br

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SAGRAÇÃO





ao Apolo, que me contou esta história


CERTA TARDE em que Apolo conduzia
no firmamento a sua carruagem,
num lago cristalino viu à margem
um belo moço que desconhecia.


Na água especular que refletia
a juventude máscula e selvagem
deitou-se Apolo em sua homenagem
na sagração da sua idolatria.


A rósea cor matiza em rebeldia
da limpidez azul do lago a imagem,
mas o moço se espanta da passagem
da luz sanguínea que no céu se erguia.


Quem se exila de um sonho tão divino,
na solidão de Hefesto tem destino!

GABRIEL RÜBINGER



pintura: Odilon Redon, "A Carruagem de Apolo" (c. 1909).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desperatio - Que Romântico!


Desperatio


Uma mulher de preto invade o campo
Co’uma criança pálida nos braços.
No rosto, um choro frio nos seus traços,
E um violino a se rachar no tampo.

Cava, com um coração em pedaços,
A cova do menino... Então, em pranto
Toca uma Marcha Fúnebre, em seu manto,
No violino triste no terraço

Me ouça! Essa mulher é a esperança
Desesperada, ao vento vil do norte,
Enterra a triste e podre criança.

Mas, quem é a criança? Digo agora...
Ela sou eu! Que sinto, em minha sorte
Essa sina que aos poucos me devora

Por: Ronan Fernandes
XIII/I/MMXIII
4:53 o’clock

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Soneto da Mor Desventura

 Soneto da Mor Desventura

Que m'importa se o céu está risonho;
E o Sol brilha em tons lindos de amarelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se morto está meu sonho?

Que m'importa se cá, onde me ponho,
Aves cantam num coro tão singelo?
Que m'importa se o mundo está tão belo,
Que m'importa, se dentro decomponho?

Que m'importa se belo é todo o mundo;
Se à minh'alma ele todo não conforta?!
Respondei!: que m'importa?!, que m'importa?!

Que m'importa viver mais um segundo;
Se carrasco o Tempo é do coração;
Desde quando ela dorme num caixão?!


Ivan Eugênio da Cunha

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Oh!, Leitores



“Quem de meus versos a lição procura,
Os farpões nunca viu de amor insano,[...]”
 Correia Garção

Oh!, Leitores

Versos vários de negros sentimentos;
Vomitei nestas páginas sombrias.
Se lêsseis co'atenção a todos eles;
Percebestes que todos são de amor.

Amor que semelhante me devora;
A um torpe parasita sanguinário;
Que consome os tecidos musculares;
Sem nunca eliminar a sua fome.

Oh! leitores, se alguém de vós procura;
Algum ensinamento nos meus versos,
Algo que da razão seja produto,

Ah! digo-vos: ingênuo é este alguém;
Que procura tamanha lucidez;
Nas palavras convulsas dum amante.


 Ivan Eugênio da Cunha

PS: Este é meu primeiro soneto em versos brancos. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lira da Morte (Soneto Coletivo)





Lira da Morte

Ressoa nessas cordas lacrimosas [Derek Soares Castro]
O canto dos poetas desgraçados, [Nestório da Santa Cruz]
Em fúnebres canções, em tristes brados [Arão Filho]
De rimas sanguinárias, dolorosas. [Sérgio Carvalho]

E passa o som, despetalando rosas, [Maurilo Rezende]
Ressuscitando a Morte de açoitados, [Rommel Werneck]
Num sibilo de dor aos malfadados [Felipe Valle]
Poemas de raízes cancerosas. [Matheus de Sousa]

Que sirva de rosário aos sofredores, [Gabriel Rübinger]
Aos ascetas vetustos dos horrores, [Quintiniano]
E este lamento em versos os conforte. [Renan Tempest]

Que o pranto silencioso dessa lira [Ivan Eugênio da Cunha]
Em vibrato soluce, pulse, fira [Rosany Vieira]
A convidar a triste audiência à Morte. [Alysson Rosa]



*Este soneto coletivo foi feito para a antologia de sonetos Lira da Morte, que participaram os seguintes autores:

Alysson Rosa
Arão Filho
Derek Soares Castro
Felipe Valle
Gabriel Rübinger
Ivan Eugênio da Cunha
Matheus de Souza
Maurilo Rezende
Nestório da Santa Cruz
Quintiniano
Renan Tempest
Rommel Werneck
Rosany Vieira
Sérgio Márcio

 Caso alguém se interesse em comprar tal livro ou quiser informações, eis o site:

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).