segunda-feira, 9 de julho de 2012

SÁFICO + HEROICO!




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  PUDOR


Tens as virtudes que bem tive outrora:
Pudor, modéstia, retidão, aurora.
Joias humildes do rapaz que ora
Um bel-prazer casto, a riqueza honesta.
Mas após conhecer-te, abriu-se a fresta
De luxúria, atributo do Inimigo.
Vou perdendo nos meus sonhos contigo
A tão pouca decência que me resta!


Rommel Werneck



NOTAS:



1. Os quatro primeiros versos seguem uma linha de raciocínio, portanto decassílabo sáfico (4a e 8a e 10a) ao passo que os outros versos estão em martelo (3a, 6a e 10a)

2. Amor não precisa ser clichê, o mesmo válido para conflito interno religioso... Fujamos do óbvio.

3.  Vamos tentar construir poemas em formas livres mas em isométricos e rimas. #estudodepossibilidades.

sábado, 30 de junho de 2012

Trágica Beleza





Mas eis que o anjo pálido da morte
A pressentiu feliz e bela e pura...
Machado de Assis


Era uma noite, adrede, muito linda,
P'la deusa lânguida do amor forjada.
Eu m'encontrara, então, com minha amada,
Era assaz bela, e estava mais ainda...

Tácitos numa frialdade infinda,
Toda a nossa acre soturnez fanada,
E só pensávamos em nós, mais nada,
De modo algum seria a dor bem-vinda...

Porém, o deus da morte, bem me lembro,
Naquela fria noite dum setembro,
Sentindo inveja, meu amor 'doeceu.

Alguns dias após, ela, febrente,
Triste a sorrir, se despediu, silente,
Beijou-me os lábios, e depois morreu.

Renan Caíque

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Trovas



Trovas, trovinhas, trovões!
Tormenta traz o seu canto.
Trovoadas trovam paixões;
Travadas tristes num canto.

________

Vou solevando meus brados;
À procela de tufão.
"Levai-me, mares irados,
E tragai meu coração!"

________

 De minha lira desprendem;
Notas que enturvam o mar.
Até os peixes entendem;
A desventura de amar.

 ________

Ah! mais feliz eu seria;
Se não sentisse a mudança;
E só constante agonia;
Tivesse em minha lembrança.

________

Se uma rosa e suas cores;
Já me ferem feito um corte,
Como posso, em tantas dores,
Ver na vida mais que a morte?


Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 24 de junho de 2012

EFEMERIDADE (II)



EFEMERIDADE (II)
Edir Pina de Barros

Um dia após o outro o tempo passa
deixando rastros sobre a nossa tez,
tornando sem sentido o que se fez
com inocência, candidez e graça...

E sem respostas para mil porquês
expostos, sem saber, a essa devassa
que os sonhos e ilusões depressa esgarça
seguimos sem sentir que se desfez        

o corpo – templo d’alma e vil matéria.
E a vida, que é quimera, sempre etérea,
se escoa pelos vãos de nossos dedos.

E tudo passa – a vida é passageira –
e se desfaz no tempo, em sua esteira
tecida no tear dos sonhos ledos.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

SOLIDÃO (CANTO REAL)




Na verve solitária do meu brado,
admirava a vida que fugia 
da colina e do Sol amendoado.
Uma luz já bem fraca se extinguia
no meu peito - e hoje posso confessar
que chorei nessa vida mais que um mar.
As visões preparadas no além-ser
fazem noite o andor de perceber
a clausura, tormentos, sensação
de buscar pela vida o amanhecer
e somente encontrar a escuridão.

Como um círio no seu brilho calado,
minh'alma pelo céu tremeluzia
as dúvidas do meu tempo arrancado.
O maná protetor se fez luz fria,
os meus pés já não tem onde pisar,
separou-se na vida o que era par,
e percebo que não posso verter
mais do que já verti nesse sofrer.
Hoje apenas encontro a ingratidão
margeando o caminho, alvorecer,
e somente encontrar a escuridão.

Traz nédia no meu canto malfadado
de poeta em escusas da ardentia,
o meu sonho aos castelos se fez dado
em choupos invernais... A morte abria
as portas da amargura e do pesar,
de quem vou, sem destino, procurar
refúgio - e ninguém pode me atender.
Vendo toda a esperança fenecer
como a folha ao cair da estação,
resplende qual se fosse entardecer
e somente encontrar a escuridão.

Perfura o céu de fumo, estiolado,
as letras, Pentecostes em grafia,
o meu diário azul foi profanado
por almas que meu peito vão sentia,
por beijos que jamais eu pude dar,
por mágoas que cansaram meu olhar.
Era um martírio quando ela, ao volver
o rosto, me fitava - sem saber
da minha esperançosa adoração.
Como se eu a esperasse a resplender,
e somente encontrar a escuridão.
 
É tudo, meu desejo... cor do Fado 
por aquela que o pranto ao céu subia,
qual razão, Deus da Paz, ter alquebrado
o destino que em mãos senti que ia,
em cântaros poder a morte achar
e em sublime sossego repousar.
Como posso seguir, sem conhecer
do mistério profundo que é viver,
do que existe além da compreensão?
Da existência eu espero o anoitecer
e somente encontrar a escuridão. 

Oferta

Ó Deuses! Que eu pudesse o corpo erguer
para as Esferas, onde mora o Ser,
e com ela adormecer na imensidão!  
Que existisse algo mais do que morrer
e somente encontrar a escuridão.


Vitor de Silva e Gabriel Rübinger


tela: Saint Francis in Meditation - Caravaggio

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Noite Estrelada



Noite Estrelada

Contempla, meu amor, no vasto céu,
Aqueles muitos pontos fulgurantes;
Incrustados, quais belos diamantes,
No imenso, no celeste negro véu.

Contempla a Via Láctea de luzentes;
Estrelas que brilhantam prateadas,
Nas mil constelações emaranhadas,
Tão vívidas, tão belas, tão ridentes.

É bela a noite clara, é majestosa!
Oh!, vê, meu amor... torna a contemplá-la;
E fala-me da noite luminosa;

Porque eu, desta beleza, só diviso;
Teu rosto, pois nenhuma luz s'iguala;
Ao brilho magistral do teu sorriso.

Ivan Eugênio da Cunha


sábado, 9 de junho de 2012

LUA EM CHAMAS







"Com sua perícia , estendeu em volta uma pele de boi
colocou dois braços , por cima ajustando uma trave,
e estendeu sete afinadas cordas de tripas de ovelhas.
Depois que fabricou , diligente , o amável brinquedo."

(Trecho do hino homérico a Hermes , o primeiro registro da construção da antiga lira grega.)

-I-

Uma jovem virgem sem ser pálida
No balcão de atender me "confessava"*
Uma depressão intermitente a assolava
Solavam as moiras sua corda ... rábidas.

*Por isto me pedia cancelamento.

A desgraça do depressivo em vida
Camaradas , é ser bom com piadas
Na terra ter batalhas de umas Iliadas
E flertar sempre com o Lethe , o nada.

(nem olhar pra trás , pra Musa , gris Orfeu)

Querendo não romantismo , realismo
De seu fado compadeço Ó guapa
E trazer para os tristes meu sarcasmo e

(Perdoem-me pois a torpe digressão
Ter feito como Hefesto uma arte coxa
Donzela não tenha como agressão)

Pros alegres pessimismo só topa
Meu daimon , não a chamo ao parasitismo
Pois terminariamos em treva , em tapa.

( Queria eu ter nascido mulher , não é doxa,
Anima! fazem mais do que a razão
As mulheres com a divina Coxa)


Do recepcionista davi entre Golias e Livingstone de medusas.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pesadelo

Forest fog - Cornelia Rusu Lobosan


Pesadelo


Numa floresta, meio à névoa vasta,
Andava numa senda tristemente;
Quando vi, bem ali na minha frente,
Um ataúde em gris madeira gasta.

Aproximei-me, meio à flora basta,
E, quando vi o fúnebre e jacente;
Conteúdo, indaguei em minha mente:
"Quem aqui jaz de forma tão nefasta?"

Fitei a cadavérica figura;
E, quando já lhe dava minhas costas,
Me puxou pelo braço e deu resposta:

"Não reconhece-me, mortal criatura?
Sou que logo serás! Teu negro fado!"
De súbito acordei apavorado!


Ivan Eugênio da Cunha

Horas Vazias

 Clock - Salvador Dali



Horas Vazias


Desde quando meu canto entristeceu,
Tanto tempo... já tanto se passou;
E, nas horas vazias que se passam,
Lembranças me transportam donde'stou;

P'ra quando eram alegres e sem breu;
Os meus dias... mas tudo já passou;
E, nas horas vazias que se passam,
Eu retorno e lamento o que mudou.

O tempo, inexorável, sempre avança,
Mas minha mente, turva em nostalgia,
Não mensura, no tempo, a travessia.

Ah! quiçá não me perca nas mudanças;
Se eu passar a contar o tempo em danos,
Pois posso os danos já contar em anos.


Ivan Eugênio da Cunha

Sonho

The Artist's Dream -  John Anster Fitzgerald


Sonho


Numa noite macabra e opressiva,
Sonhei com uma lívida figura;
Esbelta e imota, de feição tão dura;
Que fez-me questionar se estava viva.

Perante a tal figura tão passiva,
Questionei "oh! quem és, queda criatura?";
E ela, ao voltar p'ra mim a face pura,
Falou-me com voz doce e corrosiva:

"Eu sou a punição dos inocentes,
A masmorra que prende e turva as mentes,
A ilusão de voar, caindo em dor...

Sou matéria do júbilo incorpóreo,
O paraíso, inferno e purgatório...
Sou tua insanidade... Eu sou o Amor."


Ivan Eugênio da Cunha

sábado, 26 de maio de 2012

SERPENTE



Eu quero deslizar sobre o teu corpo inteiro
manhosa e devagar, suave qual serpente,
tanger a tua tez com minha boca ardente,
sentindo o seu olor, sorvendo o doce cheiro.

Sentir o corpo teu juntinho ao meu, fremente,
a tremular em mim, qual chama d’um isqueiro,
como se eu fora, enfim, o teu amor primeiro,
entregue, sem pudor, e até mesmo indecente.

Serpente a te enlaçar, a te envolver em teias
tecidas pelo amor que não conhece o pejo
e não pretende ser pudico ou inocente...

E destilar em ti, jorrar em tuas veias,
todo o veneno meu - o meu voraz desejo –
que ferve dentro em mim feito um vulcão silente.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).