segunda-feira, 30 de abril de 2012

VENTO


O vento varre e verga as verdes vagas,
veloce vai valsando em mar revolto,
e vai e vem, brincando livre e solto,
cortante, mais cortante que as adagas.

As verdes vagas, varre e verga o vento
Voraz, vociferando pelos ares
Os medievos cantos, milenares,
De amor que, como o mar, tem seu tormento.

O vento vai e vem varrendo a vida
Deixando atrás de si só dor, ferida,
Quebrando as verdes ondas d’esperanças.

Tu varres mar e vida enquanto danças...
E segues sempre adiante! E não te cansas!
Oh! Vento! A tua força é desmedida.

Nona Sinfonia - Que Romântico!




Nona Sinfonia

O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!

Schiller


No concerto eu, tão solitário e quieto,
Sorvendo a nona sinfonia, o encanto
Do Allegro... estou alegre! mas nem tanto...
Ao som dessa obra prima eu me desperto.

Pausa entre movimentos, eu me inquieto,
Mas permaneço ainda no meu canto.
Molto Vivace! Eu vivo... por enquanto...
Até ouvir a obra por completo.

Adagio... muito Adagio, molto lento.
Lentamente me mostra o desalento,
A tão triste alma de Beethoven fria...

De suicídio em suicídio eu me liberto!
Logo se vê no chão um corpo aberto...
Morro ao final da triste Ode à Alegria...


Por: Ronan Fernandes
XXIX/IV/MMXII
04:06 o’clock

terça-feira, 24 de abril de 2012

AMAR

Amar é ver estrelas sem ver céu,
 pisar no etéreo véu das mil quimeras, 
sentindo a luz d’eternas primaveras 
ser prisioneiro, sem ter sido réu.


 É cavalgar no lombo d’um corcel 
no chão das ilusões. Sentir, deveras, 
a força da poesia d’outras eras
 na voz do medievo menestrel... 


 Viver sentindo n’alma o mundo inteiro, 
ser barco em alto mar, sem ter barqueiro
 e mergulhar no mar, sem peias, medos. 


 Planar feito uma garça pantaneira, 
deixar-se ir ao léu, sem eira ou beira, 
pisando as finas farpas dos penedos.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Soneto Permutável (coroa de sonetos)

   Cada soneto  abaixo é obtido a partir do anterior fazendo a chave ser o primeiro verso. Foi uma experiência que fiz. A princípio só iria fazer os 14 primeiros sonetos, mas, por sugestão do poeta Marco Aurélio, fiz o soneto-base, completando a coroa.

1

Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado.

Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado.

Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,

Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado.

2

Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura.

Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura.

Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,

Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura.

3

Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura;
Sem rumo, sem alento, sem dourado.

Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado.

Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,

Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado.

4

Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura.

Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura.

Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;

Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura.

5

Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado.

Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado.

Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,

Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvado-se em vapor atro e pesado.

6

Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,

Vejo a imagem mais clara de meu fado,
Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura.

Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado.

Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura.

7

Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,

Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado:
Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado.

Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura.

Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado.

8

Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura.

Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura.

Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado:

Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura.

9

Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado.

Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado.

Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,

Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado.

10

Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,

Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura.

Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado.

Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado;
Cegado pela escura desventura.

11

Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;

Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado.

Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura.

Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado.

12

Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura.

Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura.

Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;

Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura.

13

Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura,
Atado nas lembranças do passado.

Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura,
Turvando-se em vapor atro e pesado.

Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Na noite mais tristonha, mais escura,

Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado.

14

Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Arrastando correntes de amargura,
Meu fado já caminha desgraçado,
Cegado pela escura desventura.

Atado nas lembranças do passado,
Sem esperança e sem qualquer alvura,
Meu fado já se tem por costumado;
Coas tristezas que exalam da negrura.

Turvando-se em vapor atro e pesado,
Entregando-se todo à vil tortura,
Tendo cada alvo sonho maculado,

Na noite mais tristonha, mais escura,
Vejo a imagem mais clara de meu fado;
Vagando pela terra em mor tristura.

Soneto-base

 

Vejo a imagem mais clara de meu fado,
Na noite mais tristonha, mais escura,
Tendo cada alvo sonho maculado,
Entregando-se todo à vil tortura.

Turvando-se em vapor atro e pesado,
Coas tristezas que exalam da negrura,
Meu fado já se tem por costumado,
Sem esperança e sem qualquer alvura.

Atado nas lembranças do passado,
Cegado pela escura desventura,
Meu fado já caminha desgraçado,

Arrastando correntes de amargura,
Sem rumo, sem alento, sem dourado,
Vagando pela terra em mor tristura.

Ivan Eugênio da Cunha


quarta-feira, 18 de abril de 2012

... ET IN PÚLVEREM REVERTÉRIS





Meménto homo, quia pulvis es, et in púlverem revertéris.”
Missa de Quarta-Feira de Cinzas



Depois da orgia estava embalsamado
Entre rubros lençóis o efebo só.
Nos seus sonhos estava ali deitado
À rigidez da carne, ao brilho em pó.


A carne nua em brilho de brocado
Era beleza simples e sem dó
Fisgava o sábio grego apaixonado
P’ra tatear de novo a carne, o pó...


Que corpo glacial! De luz, dormente...
E que sangue nobre! Pálido rubor...
E, pondo as mãos no peito intensamente


Do lívido rapaz dos cemitérios
Já não tinha na Terra mais fulgor...
Era agora um deus grego em céus etéreos...



Rommel Werneck
Enviado por Rommel Werneck em 18/04/2012
Código do texto: T3619124
 Escrito em 2011

                                                                

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Inferno


Inferno

Já meus dias são cheios de tristura;
E, n'atroz negridão, pesada e fria,
Minha mente se turva em nostalgia;
E meu peito flameja em amargura.

Esta dor que devora em chama escura;
Mor se faz na lembrança de que um dia;
Tive, n'alma, esperanças em que cria;
E delas ora sou a sepultura.

O que tem coração despedaçado;
Juntar cada pedaço tem por fado,
Num deserto de treva, andando só.

Mas que fado terei do mal me feito;
Se, no inferno funesto de meu peito,
Ardeu meu coração até ser pó?


Ivan Eugênio da Cunha

quarta-feira, 11 de abril de 2012

ADEUS!




"E por que viver se o coração é morto? Se eu
hoje dormisse sobre essa ideia, se eu
pudesse adormecer no
ócio e no tédio, seria isso ainda viver?
Álvares de Azevedo



Adeus, meus sonhos! Adeus, meu amor!
Pra fenecer minh'alma triste chora,
Ora apagou-se-me o fulgor doutrora,
Cobre-me a face, angelical palor.

Adeus, maldito spleen! Adeus, langor!
Uma sombria e fria dor me aflora,
Sem nostalgias, partirei agora,
Entristecido como murcha flor.

Quando jazer entre sepulcros, quedo,
Sentir-me-ei outra vez deveras ledo,
Morrerá a dor atra que a mim domina...

Quando pro inferno me levar Satã,
Não lacrimeis por minha vida vã,
Olvidai esta desgraçada sina!

Renan Caíque

terça-feira, 10 de abril de 2012

HANNIBAL LECTER



"Afinal, sua mãe disse, e a minha certamente disse: 
' É importante - ela dizia - experimentar coisas novas.'"
Hannibal Lecter

Tua pele, macia e tão sedosa,
Teus olhos vivos numa cor ardente,
Cabelos loiros! e em meus brancos dentes
Rubros lábios de carne saborosa.

Tuas bochechas mui apetitosas
Com teus salgados seios tão dementes
Teu fígado e teus rins gralham.Contente
Eu como tuas carnes majestosas...

Sou como o verme comedor de mortos,
Uso de meios e caminhos tortos
Para enlaçar-te em meu caminho manco.

Oh não, mulher, eu nunca quis te amar.
Mas sim, teu cérebro quis degustar
Servido com um belo vinho branco


Por: Ronan Lúcio Fernandes
VIII/IV/MMXII
03:36 o'clock

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Minha Amada...


(Link)

Minha Amada...

Minha amada, contempla quanto mal;
Fez tua indiferença ao meu amor.
Já murchou deste campo cada flor,
Pois, com pranto, afoguei a terra em sal.

Contempla este vil fumo lacrimal;
Que exala desta terra em atro horror;
Tingindo o céu de túrbido negror;
- Tão díspar de teu rosto angelical.

Contempla com mor tento o quanto chora;
O céu, que mais não vê a luz d'aurora;
E sofre com meu negro pessimismo.

Minha amada, ora vê meu triste rosto,
Olha meus olhos fartos de desgosto;
E contempla o infinito atroz do abismo!

Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 8 de abril de 2012

Soneto marginal retrô






GAROTO DE ALUGUEL



E esta boca com gosto de cigarro?
E este batom com cheiro de motel?
Tudo isto que parece ser bizarro
É na verdade o mais florido céu!


E estas costas repletas de água e barro?
E este peito tão áspero e cruel?
Eu vomito aguardente de catarro
Com meu simples garoto de aluguel...



E este coração tão seco e tão duro?
Que nem mesmo respira, pulsa ou bate
Que mais parece caixa de amianto?!


E este puto com cara de anjo e santo
Que na esquina, na vida, no combate
Enfrenta novamente seu futuro?


Rommel  Werneck 


NOTAS:

2- Soneto em decassílabos heroicos sob inspiração baudeleriana. Um soneto marginal, porém na poesia de sempre, isto é estudar possibilidades...


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Meus primeiros octossílabos







COMO O PRIMEIRO



"Come Prima (Dalida chante)"


Como o primeiro namorado
Ela me beija e leva rosas
E eu beijo as suas mãos cheirosas
Que tanto tenho venerado!




Como o primeiro ela me trata
E escreve versos de marfim
Em que promete amor sem fim
Numa sublime serenata...


Como o primeiro que foi dela
Assim me sinto possuído...
E quando a beijo, peço que ela




Cumpra os seus planos por inteiro
De me tomar como marido.
Como o primeiro... seu primeiro!


Rommel  Werneck

Publicado originalmente no Recanto das Letras
Acesse minha escrivaninha


NOTAS:


1- O poema foi inspirado na música Come Prima (Como Antes) cantada pela cantora egípcia Dalida.  Eu escrevo majoritariamente ao som de música. Escute AQUI.

2- Nunca tinha escrito nessa métrica, acho difícil métricas abaixo de 9 sílabas.


3- O Ivan Eugênio da Cunha fez um belíssimo soneto no mesmo metro. Leia AQUI.



4- Usei temática amorosa, mas como sempre sofremos críticas vanguardistas "o amor é ultrapassado", eis aqui um soneto em que o homem se sente o primeioro de uma mulher propondo uma inversão de papéis, é plenamente possível escrever de outras formas. Estudo de possibilidades, experimentação, é disso que a poesia contemporânea necessita.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).