quinta-feira, 1 de março de 2012

Castelo de Cristal



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Castelo de Cristal


Com meus sonhos mais belos, coloridos,
Com meu grão de esperança mais brilhante,
Com meus júbilos, vivos tempos idos,
Erigi meu castelo fulgurante.

Grandes torres ergui perante o céu;
E os salões, tão imensos, tão formosos,
Cobri, zelosamente, pelo véu;
Dos fulgores solares melindrosos.

Mas um dia uma estranha melodia,
D'alguma leda lira, assim eu cria,
Adentrou mui gentil pelo portal,

S'espalhou vagarosa pelos ares,
Ressonou nas paredes e pilares;
E destruiu meu castelo de cristal!


Ivan Eugênio da Cunha

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

INDRISAÇÃO #04 - Cruz e Sousa / Violante Montesino


Deixai que deste álbum na folha delicada
Eu venha difundir meus rudes pensamentos
Deixai que as pobres rimas, uns nadas poeirentos
Eu possa transudar da mente entrenublada!...

Deixai que de minh’alma na fibra espedaçada
Eu busque inda vibrar uns cantos tardos, lentos!...
Bem cedo os vendavais, aspérrimos, cruentos
Ai! Tudo arrojarão à campa amargurada!

Porém qu’importa isso! dos mares desta vida
Nos pávidos, estranhos, enormes escarcéus
Se alguma coisa val, és tu, ó luz querida!...

Rasguemos do porvir os áditos, os véus!...
Riamos sem cessar, embora em dor sentida!...
Também as nuvens negras conglobam-se nos céus!


Cruz e Sousa

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Doce ironia

Deixai que eu lembre de nariz erguido
Rindo-me loucamente ao sepulcral
Das flores secas no frio do quintal.

Mas deixai-me das dores expungido
Deixemos que sorria o vil passado
Nos traços incubados de outras eras,

Pois há contentamento encabulado

Saboreando a dor como as panteras.


Alex Oliveira


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AO AMADO AUSENTE

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! Suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.


Violante Montesino
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VIDA E MORTE

Seria a morte uma coisa descabida?
Será talvez simplesmente o fim da vida,
ou decerto um pesadelo, ou mesmo um corte?

Não seria alguma coisa desejada
Pois que a vida é a esperança tão sonhada
de venturas, que nos nega a dura morte!

Mas se sofres, já não almejas a vida

E enfim sonhas que te leve a Boa Morte!


Eliana Calixto

Forma fixa de Craig Tigerman


PLÊIADES

Plêiades refulgem no azul Infinito...

Pelos saraus, serestas e academias

Pulsam loucamente declamando

Poesia: um êxtase dos deuses

Prosa: flores que formam romance

Poetas, prosadores, as plêiades todas, enfim,

Procuram algo mais prazeroso do que a Poética.





* Septilha criada em 1999, por Craig Tigerman, é uma forma fixa com título obrigatório, constituído de apenas uma palavra seguido de sete versos iniciados pela mesma letra do título. Em contraponto a essa fixidez, versos livres.

O título não precisa ser "plêiade", eu assim pus por julgar interessante o duplo significado (plêiade também pode significar conjunto de escritores)

Aqui no Brasil, a primeira vez que se falou no assunto foi no Fórum do Recanto das Letras, hoje extinto. A definição foi extraída do grupo Poetas e Escritores do Amor e da Paz que cultiva tal forma fixa.


   
Rommel  Werneck

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Rubra Sinfonia


(Link)


Rubra Sinfonia

Instrumentos se erguiam pelo Céu;
E soava, o Vento, a sinfonia alada;
Co'harmonia medonha, tão pesada;
Que caía na Terra em negro véu.

O rubro Céu dançava na babel;
Desta orquestra sinistra e agitada,
Que, ao som de cada sopro, cada arcada,
Se contorcia em fúria dada ao léu.

A música avançava sem compassos;
Co'acordes dissonantes e mui crassos;
De sons enfurecidos já em guerra.

E, em macabra tormenta carmesim,
Desceu o Céu, ao toque do clarim,
E fartou-se de Sangue o breu da Terra!


Ivan Eugênio da Cunha

Soneto releitura 1880's em 14 sílabas no ritmo de gaita galega: 4a, 7a, 10a e 14a






A DANÇA DE DIANA



E sobre a Terra, o veludo molhado, negro manto
Sem ser notada, Diana descansa intensamente
Ela, mulher, deusa, santa, satélite, serpente
Logo desperta suave do sono de acalanto


Desliza um pouco a mantilha e converte-se em crescente
Revela o colo, seus ombros apenas, entretanto
Despe-se toda a rainha das deusas e do encanto
Nua e belíssima: cheia de graça livremente!


E quem contempla a mulher no seu banho, em sua alcova
Logo perdido se vê. Mais um ciclo dela encerra
Ela se cobre, a minguante serpente se renova.


Numa neblina de nuvem, incenso gris na acerra
Sem ser notada,  Diana se torna fria e nova
E o manto negro, molhado veludo sobre a Terra


Rommel  Werneck

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desventura - Que Romântico!


Desventura


Ao meu pai, morto aos meus sete anos.


…...............................................................


Para onde fores pai, para onde fores
Irei também, trilhando as mesmas ruas
[...]
Podre meu pai!
Augusto dos anjos



Por que, meu pai, tão cedo me deixaste
Sozinho, neste mundo tão sombrio?
Um doente, meu pai, tu me tornaste...
Nessa vida que causa-me arrepio.

Não te vi, não vi teu sangue escarlate,
Nem onde te apodrece o corpo frio.
Queria eu! o fôlego aspirar-te...
Morrer por ti! e tu em mim teu filho...

...viver por muitos anos mais. Mas não
Preferiste da vida desprover
De alegria - mi’a mãe e meus irmãos

Queria eu! contigo apodrecer!
De que vale - sem ti - pisar no chão?
Melhor seria o céu! Antes morrer...

Por: Ronan Fernandes
XXII/II/MMXII
04:03 o’clock

INDRISAÇÃO #03 - Bocage




Meus dias, que já foram tão luzentes,
Hoje da noite opaca irmãos parecem;
Meus dias miseráveis emurchecem
Longe do gosto, e longe dos viventes:

Horror das trevas, peso das correntes
Olhos, forças me abatem, me entorpecem:
E apenas por momentos me aparecem
Rostos sombrios de intratáveis entes:

Pagam-se da rugosa austeridade;
Antolha-se-lhe um crime, um atentado
Sofrer nos corações a humanidade:

Voai, voai do céu para meu lado,
Ah! Vinde, doce Amor, doce Amizade,
Sou tão digno de vós, quão desgaçado.


Bocage


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Triste Fado

Escurece meus dias a tristura;
De não mais desfrutar felicidades;
E sentir gosto só da desventura.

Na treva, que se faz amarga dor,
Não sinto que mereço este meu fado:
Que mais mereço ter do doce Amor.

Mas a Fortuna vale-me a desdita:

Que mais mereço, tenho por mais falto!


Ivan Eugênio da Cunha

sábado, 25 de fevereiro de 2012

INDRISAÇÃO #02 - Lope de Vega


      
Un soneto me manda hacer Violante,
que en mi vida me he visto en tal aprieto;
catorce versos dicen que es soneto:
burla burlando van los tres delante.


Yo pensé que no hallara consonante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;
mas si me veo en el primer terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.


Por el primer terceto voy entrando
y parece que entré con pie derecho,
pues fin con este verso le voy dando.


Ya estoy en el segundo, y aun sospecho
que voy los trece versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.



(Lope de Vega. Espanha. Século XVII).


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Un indriso me manda hacer mi mano.
A ocho versos así llaman indriso,
y en un soplo los tres primeros gano.

Pensé: “la consonante no diviso”,
mas corren términos en –iso y -ano,
perdón… y dos tercetos ya improviso.


El postrer verso no está tan lejano.


Fue el penúltimo, y hecho está el indriso.



(Isidro Iturat).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ROLETA RUSSA: #INDRISAÇÃO





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Essa é mais uma edição do Desafio Literário Roleta Russa. Para quem não conhece, clique AQUI - O QUE É ROLETA RUSSA?



PROPOSTA:  Indrisação. Consiste em parafrasear ou se inspirar num soneto e criar seu indriso. Leia AQUI - Indrisação #01 - Camões. Os indrisos não precisam ser em versos regulares e/ ou rimados, fica à sua escolha, mas pede-se para dar um caráter retrô/ revivalista ao texto para postarmos aqui.


Essa roleta russa não possui palavras obrigatórias, está mais simplificada, caso esteja difícil o desafio (muito aberto), avisem-me e limito. Uma possibilidade é usar umas três palavras do texto original, se você for escrever seu indriso a partir de um soneto de Shakespeare, você pode usar três palavras do tal soneto. Enfim, é isso!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Gregoriano Anapéstico




VIKING


E nos braços, o doce veneno,
Este sangue, sublime hidromel,
Este fogo, gelado e cruel,
O teu vinho, solene e sereno


Uma força dos deuses, o Hell
Desenhando um celeste mais pleno,
Esplendor do pecado terreno,
A pureza de um véu carrossel.


Um dos braços a minha voz cala
E aquel’outro me lança a devassa
Voz, clamor suspiroso que fala:


Que esse Thor, o meu Deus da Desgraça
No fulgor infernal da Valhala
Meu desejo sutil satisfaça!


Rommel  Werneck

sábado, 18 de fevereiro de 2012

LIRA



Arranca os versos seus da sua solitude,
Do modo que sonhou, do jeito que queria,
Sem cultivar tristeza, ira ou alegria,
Amealhando a paz de toda latitude.

E assim sufoca a sua dor, sua inquietude,
E a lança no infinito em forma de poesia,
Em rito sacrossanto, pura epifania,
Que se dispersa ao léu, em sua plenitude.

E tange a lira mais etérea do parnaso
A dedilhar as frágeis cordas da emoção
que vibram e gemem ao nascer de cada verso...

E a alma voa um vôo livre, leve e raso
Buscando, da poesia, o ventre, em cada vão
Em cada canto de seu mundo e do universo

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).