quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fala-me destes lírios que tu vês


(Lírios - Van Gogh)



Fala-me destes lírios que tu vês,
Suas cores, olor, toque de seda.
Fala-me p’ra que tua voz me ceda;
Os lírios que tu vês com nitidez.

Fala-me deste céu com vividez,
Seu azul, esplendor, luz alva e leda.
Fala-me p’ra que tua voz me ceda;
O céu, com sua vasta placidez.

Fala-me desta pulcra natureza;
Que dizes nos cercar com tal vasteza;
De portentos de toda bela sorte.

Fala-me como eu vejo o que tu contas,
Pois, p’ra todo lugar que tu apontas,
Tudo é vil, tudo é cinza, tudo é morte!


Ivan Eugênio da Cunha

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vento Plangente

(Vento - Van Gogh)


"Não gosto, quando à noite, a chuva forte
Desmancha-se em airosa ventania
Uivando pelas frestas feito morte 
Varando a madrugada em agonia."
Sergio Marcio

Vento Plangente

Escuta o melindroso e atroz lamento;
Deste vento que passa tão dolente.
Já viu ele, no mundo, dor demente;
E derrama aqui pranto sonolento.

Escuta o canto lúgubre do vento,
O réquiem tão constante, atro, plangente,
Lamentando p'ra todo ser vivente;
A morte deste mundo tão languento.

Com tristíssima e suave melodia,
Chora ele, com pesar assaz profundo,
Toda tristeza vil de cada dia.

Chora também o vento, como chora,
Junto às dores e mágoas deste mundo,
A morte que, em meu peito triste, mora.


Ivan Eugênio da Cunha

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Minha Pradaria


(Link)


Minha Pradaria

Eras, de cada dia, minha aurora.
Sol brilhante cobrindo co'harmonia;
A colorida tez da pradaria;
Que, em minh'alma, floria sem demora.

Nos dias contemplava a bela flora;
E nas noites, amenas, eu ouvia;
As Estrelas no céu, que, co'alegria,
Falavam que esperavam pela aurora.

Inda à noite escutava augustos cantos;
(Odes belas louvando os teus encantos):
Era a Lua, ao sentir teu brilho raro.

Mas ora as flores murcham meio ao frio;
E chora o céu, mui triste co vazio;
De não mais ter um Sol que o torne claro.


Ivan Eugênio da Cunha

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

INOCÊNCIA SENSUAL





INOCÊNCIA SENSUAL


Inocência mesmo com barba e bigode
Já crescidos, marcas belas e viris
Mas ainda são traços muito sutis
Porque imaculada flor na tez eclode.


O tronco é sublime ipê de tons anis
Em floresta negra de pêlos que explode...
Ah! Que lírio casto! Mas, como que pode
O androceu já ser florido nos quadris?


Tuas pernas são bastões de lama e terra,
Varinhas de fadas como o braço mau
E o braço do bem e os pés tanque de guerra


Após te fitar com face divinal
Por flamas sacrais minha vida se encerra
E contemplo tu, pureza sensual.

Rommel    Werneck

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Indrisação #01 - Camões




Em outubro, escrevi um indriso a partir de um soneto de Camões, foi, portanto, uma releitura. 



A forma fixa escolhida por mim foi o indriso e assim tenho feito e pretendo postar essa nova seção no blog: a indrisação, um processo criativo que consiste em reler um texto e reescrevê-lo com sua visão (é uma releitura e não plágio!), porém em indrisos isométricos rimados ou versos brancos. 



Que levas, cruel Morte?- Um claro dia.
- A que horas o tomaste?- Amanhecendo.
- Entendes o que levas?- Não o entendo.
- Pois quem to faz levar?- Quem o entendia.

Seu corpo quem o goza?- A terra fria.

- Como ficou sua luz?- Anoitecendo.
- Lusitânia que diz?- Fica dizendo:
Enfim, não mereci Dona Maria.

Mataste quem a viu?- Já morto estava.

- Que diz o cru Amor?- Falar não ousa.
- E quem o faz calar?- Minha vontade.

Na corte que ficou?- Saudade brava.

- Que fica lá que ver?- Nenhüa cousa;
mas fica que chorar sua beldade.

Luis de Camões


Republicando a postagem de outubro aqui:



 A BOA MORTE


A M.P.


--- Quem passa por aqui? --– A Boa Morte
--- Por que boa se matas? --- Não, não mato
--- Que vieste fazer? --- Queimar-te todo


--- Como queimas? --- Com tua permissão
--- Depois fazes quê? --- Levo-te daqui
--- Levas-me aonde? --- Levo-te ao inferno


Isto, chamamos nós de Boa Morte,


Pois não nos mata, só conduz ao fogo...


Rommel   Werneck

04 de outubro de 1554 





Notas do autor:


Inicialmente, queria fazer uma releitura deste soneto ilustre de Camões, mantendo a forma fixa italiana, mas mudando o tema para amor. Com o andar da liteira (carruagem é muito séc XIX!), preferi uma forma fixa atual, o indriso é o poema mais contemporâneo que existe, portanto, meu plano foi criar algo ultramoderno mas com fortíssimo retorno ao Maneirismo. Que anacronismo!


A métrica adotada foi o decassílabo com doses de pentâmetro iâmbico em alguns versos para ser mais fiel ao período histórico.
Em contraponto, versos brancos para o anacronismo já comentado e também focalizar o ritmo nas perguntas, no conteúdo mesmo além de servir de exemplo de versos isométricos, mas sem rima.
Infelizmente, muitos poetas contemporâneos acreditam em divisões estabelecidas, por exemplo, "versos com métrica (sic) tem que ter rima ou versos (sem métrica) não podem ter rima". Isto nos leva a um reducionismo, uma restrição do que pode ou não fazer, sendo que precisamos buscar conhecer as várias alternativas possíveis, por exemplo, versos livres rimados, decassílabos sem rima, heterométricos rimados e brancos etc etc. Obviamente, a temática e outros aspectos também precisam se libertar desse puritanismo do Modernismo.


Rommel Werneck


O que é Indriso? 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Réquiem d'Outono

Dos galhos, desprendidas pelos ventos
Caem as mortas folhas pelo chão,
Esparsas aos beirais dos calçamentos,
Nesse farfalhejar de solidão...

Dos campanários soam os mementos,
— Sinos a badalar em oração —
Em ressonâncias pelos firmamentos
A cadenciarem tal composição.

Nas curvas desses arcos ogivais
Mussitam os suspiros tão sacrais,
Dos sinos encerrando mais um dia...

E vejo os secos galhos se entrezando
Em devoção, e as árvores rezando,
Nesta hora divinal d'Ave-Maria!

Derek Soares Castro

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Hendecassílabo 3a, 5a e 11a



Imagem inédita da superfície do Sol feita pelo
Solar Dynamics Observatory em abril de 2010.



STELLA MATUTINA


As estrelas são figuras do passado
Que adormecem pálidas pela manhã
E despertam lúgubres de cintilado
Predizendo em plenas trevas o amanhã.


E trajando um manto de nuvens eternas
Elas, santas, sacras, sábias da verdade,
Adornadas sempre por jóias supernas
Resplandecem mesmo na vil tempestade.



Mas ressurge estrela que as outras ofusca
Derrotando a chuva, derrotando a vida...
Nela cada estrela a luz suprema busca



 Cada ser procura consolo, esperança...
E a beleza dela é tão grande e perdida
 Que a mim seu sublime raio nunca alcança.


                                      Rommel  Werneck

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

APHRODISIAKOS - E-BOOK POESIAS SENSUAIS


Apresentação:

Estes versos concebidos sob as sagradas leis, bênçãos e apelos de Afrodite pretendem, de forma simples e poética, fazer as vezes destes estimulantes do apetite e do prazer sensual a fim de excitar e despertar a luxúria e os desejos libidinosos mais íntimos e mais secretos do(a) estimado(a) leitor(a) que por aqui se aventurar, pois como acreditava Anais Nin (e eu também), "o erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia". [Alessa B.]

Comentários:
"A poeta cumpre aqui o papel da gueixa, da sacerdotisa, de Afrodite, todos esses seres que estimulam arquetipicamente em nós a libido, os calores mais íntimos, as fomes mais profundas. Sem perder o ritmo e o compasso, ela sopra com maestria e talento os vapores que nos estimulam ao prazer. Seu eu lírico levita em forma de ninfeta, cujo gozo verseja em verbos aquosos na boca de um Eros inebriado".
[Magmah - jornalista e poetisa]

"E neste mundo imaginário, em que tocados pelos versos, nos envolvemos a ponto de sentir na pele o real calor da poesia incandescente, afogados nesse fogo alimentado pelo sabor picante da pimenta e de outros alimentos e elementos igualmente afrodisíacos, atingimos, enfim, o clímax da orgasmática pungência literária".
[Axills - músico e poeta]
 

Links para download:




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ROMARIA


ao magno Rommel Werneck


Que cântico é esse que me invade,
doloso, o quarto? Vejo da sacada
a procissão trilhando a velha estrada,
e implorando aos céus a piedade.

Das velas há a branda claridade,
que tremeluz no vento... rutilada,
a voz do coro rasga a madrugada,
e eu choro pela minha mocidade...

Quanto pesar nas vozes inocentes,
como se Deus a todos condenasse
e acorrentasse sem usar correntes!

Eu rezarei por mim... Se não amasse,
não doeria o teu olhar ausente...
Oh...Quem me vela é só de Cristo a face.


Gabriel Rübinger



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012


Alhures...

Terá sido uma vírgula em meu caso
De amor com essa santa que me atura?
Terá sido uma pausa, ainda que dura,
Ou do caso chegou o triste ocaso? 

Fecho os olhos e, eis, sinto pelo atraso
Que me fez ressentir por uma cura
Que me socorra em hora, assim, obscura
Em que sinto o viver tão pobre, raso...

Prenda minha, onde errei sei, com certeza,
E me atenho a sorver dor merecida.
Oh! Perdoa a minh’alma ensandecida!

Sinto em mim esvair-se em correnteza
A alegria de dantes, fortaleza
Na vida minha, sempre em ti mantida.

Ronaldo Rhusso

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Meu primeiro gregoriano (2010)


Meus primeiros versos em gregoriano anapéstico (3a, 6a e 9a). Mas publicando somente agora pois registrei a pasta em outubro passado.





 


NÓS, 
OS POBRES MORTAIS



Nós, os pobres mortais desta terra,
O céu nunca devemos galgar,
Mas nos versos podemos cantar
A beleza que nunca se encerra.


Vossa força nos vem despertar
O gelado vulcão, dura guerra!
E eu abaixo da mais baixa serra
Como quero vos ver no alto mar!


Oh! No mar que nascestes um dia
Nessas vossas espumas fatais
Em que sois nossa grande poesia!


Já que vós nos Elíseos reinais
Vinde cá visitar algum dia
Vossos servos, os pobres mortais!


Rommel  Werneck


 Venus Goddess of Love - Cross Stitch Chart
 Designer: Maria Diaz
Link

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).