quinta-feira, 11 de agosto de 2011

PAGANISMO POÉTICO

Oh bons espíritos que em outro plano
têm bem patente o lume das ideias –
vossos estalos e onomatopeias
dão-me com que escapar de estar insano.

Acompanhando a dor a cada dano
e derrota na busca de epopeias,
com magnólias, rosas e azaleias
meu chão atapetais, deixando-o humano.

E pelo mundo vou, correndo risco,
e arremessado sou de pólo a pólo,
e encaro o temporal como a chuvisco.

Só peço não me tires, Febo Apolo,
só peço não me tires, São Francisco,
o dom da rima, com que me consolo.

domingo, 7 de agosto de 2011

ALTAMISA




Silêncio! Escuta a brisa que murmura,
E sobre as folhas rola e se desliza,
A balançar as flores d’altamisa,
Tão perfumadas, prenhes de candura.

Tu podes escutar a doce brisa?
Ouvir a sua voz na noite escura?
Nas flores d’altamisa ela perdura
E faz juras d’amor, à sua guisa!

E com seu jeito firme, mas galante,
Do modo que s’espera d’um amante,
Nos braços d’altamisa caí, s’enlaça.

E a alisa com seu jeito morno e arfante
E vai! E vem! E a roça quando passa!
Quanta mesura! Quanto garbo! Graça!

sábado, 6 de agosto de 2011

QUE ROMÂNTICO! Releitura


Soneto

Corre nos campos virgem inocente,
Corre tão linda! pálida donzela.
Oh! Corre em seu Corcel, um anjo a vela
Enquanto sonha o menestrel demente

A noite cai, donzela, o teu dossel
Espera os sonhos teus, durma! Em plenitude
Suspira por ti, notas no alaúde
Suspira por ti, triste menestrel

No campo, como quadro de aquarela
Corre pálida, pálida donzela
Corre, virgem maviosa, em seu corcel

No pálido alaúde, toca um hino
Geme o arco nas cordas do violino
Geme o peito no pobre menestrel

Por: Ronan Fernandes

VII/XI/MMXI
00:54 o'clock

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MINIMALISTA WERNECKIANA

Imagem: DOUG FLUCKINGER, Sturm und Drang
A noite chegando
Após dias luminosos
Sturm und Drang

terça-feira, 2 de agosto de 2011

ESPELHOS





Em mil espelhos fui buscar as minhas faces
As vãs quimeras que um dia hei sonhado,
mas nada vi além do tempo já passado,
e as marcas suas, tão profundas, tão voraces.

Nada restou daqueles tempos tão fugaces,
E em cada face vi de mim o outro lado,
Amante, mãe, mulher, amiga em cada fado,
Seus tons mais frágeis, mais mesquinhos, mais audaces.

Uma feliz, tristonha outra, outra pura,
Uma pudica, outra santa e a pecadora,
Mas cada qual guardando em si outra secreta.

Mas todas elas são libertas da clausura,
Quando se impõe co’s versos seus a trovadora,
Aquela que, além de tudo, é poeta.

NOSTÁLGICA





Aqui distante vou levando a vida
E tu nem sabes quanto hei vagado,
Chorosa por não ver-te ao meu lado,
Distante assim de ti, tão esquecida.

E não te vejo como hei sonhado,
E trago dentro em mim só dor, ferida,
Uma saudade sempre renascida,
Tais quais essas florzinhas do cerrado.

E o meu olhar se perde nesse lago
Deste planalto, onde só eu vago,
Feito um fantasma que se vai ao léu.

Oh! Meu amado! Que tristura sinto!
Perdida no meu próprio labirinto,
Olhar vacante entre o lago e o céu.

CICLOS (VI)




Às vezes lembro d’outros tempos idos,
Arroubos de paixão, da juventude,
Da ânsia de viver tudo amiúde,
Dos meus ciúmes tolos, descabidos.

Das tantas vezes que também fui rude,
Por conta de caprichos desmedidos,
Dos tempos que se foram em vão, perdidos,
Sem cultivar em mim qualquer virtude.

Sinto saudades! Mas nem tanto assim.
Pois hoje gosto muito mais de mim,
Sem mil arroubos, sem voracidade.

Se hoje meus cabelos estão brancos,
A vida não se passa mais aos trancos,
Tenho mais luz, mais paz, serenidade.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ANJO MARMÓREO

(Monumento do Cemitério Honório Lemes - Foto por Derek Soares Castro)


Anjo Marmóreo

Regressei à Necrópole outra vez;
E de longe revi o monumento
Daquele funesto Anjo macilento,
Que jaz em tumulária soturnez.

E olhando aquele fúnebre moimento,
Em que o tempo cobriu de lividez;
Tive a vaga impressão de ver, talvez...
Teu vulto que passava desatento...

No fim dos corredores tumulares,
Escutei sussurrando junto aos ares
Tua voz, em um som rouco e distante;

Mas, enquanto eu, absorto te escutava,
Aquele Anjo, imponente me fitava,
Como se fosse o teu próprio semblante!

Derek Soares Castro

quinta-feira, 28 de julho de 2011

MÁGOAS




A chuva cai! Sussurra nas vidraças!
E dança tristes valsas contra os ventos,
Quais lágrimas de dor, de desalentos,
Que caem dos meus olhos quando passas.

Os pingos caem, quais os vãos lamentos,
Dispersam-se no ar feito as fumaças,
Quais vinhos se evaporam em finas taças,
Nos dias que sem ti são mui cinzentos.

Batendo nas vidraças rolam as águas
Das chuvas de verão, tão passageiras,
Que correm lassas pela terra afora.

Quisera que passassem as minhas mágoas,
Feito essas chuvas que passam ligeiras,
Que brincam na vidraça e vão s’embora.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

OBSCENA




Veneno é o que não falta em tua veia,
Correndo livre pelo corpo todo,
Tão denso e tão viscoso feito o lodo,
Contido em teu sorriso de sereia.

Na veia tua corre só veneno,
Que dentro em ti cultivas e destilas,
E lanças pelo olhar, pelas pupilas,
De jeito disfarçado, vil, pequeno!

E com palavras falsas, coloridas,
Nos teus mortais venenos embebidas,
Manténs os que te amam na coleira.

Areia movediça! Traiçoeira!
Tens jeito d’uma mosca varejeira
Que deposita larvas nas feridas!

domingo, 24 de julho de 2011

FOLHAS OUTONAIS




No solo em folhas secas, outonal,
Há rastros dos amores que hei vivido,
E d’outros que pensei houvera tido,
Num mundo que era etéreo e surreal.

E aqui cheguei ao ponto meu final,
Mas nada foi em vão ou foi perdido,
E não me importa quanto hei sofrido,
Pois tudo isso é vida e é normal!

Pisei as flores rubras da paixão,
Dos sonhos tons lilases das hortências,
Sonhei, amei, sofri, enfim, vivi.

Se hoje colho os frutos da estação,
As folhas mortas dessas mil querências,
Eu tudo tive e nada eu perdi.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).