terça-feira, 2 de agosto de 2011

ESPELHOS





Em mil espelhos fui buscar as minhas faces
As vãs quimeras que um dia hei sonhado,
mas nada vi além do tempo já passado,
e as marcas suas, tão profundas, tão voraces.

Nada restou daqueles tempos tão fugaces,
E em cada face vi de mim o outro lado,
Amante, mãe, mulher, amiga em cada fado,
Seus tons mais frágeis, mais mesquinhos, mais audaces.

Uma feliz, tristonha outra, outra pura,
Uma pudica, outra santa e a pecadora,
Mas cada qual guardando em si outra secreta.

Mas todas elas são libertas da clausura,
Quando se impõe co’s versos seus a trovadora,
Aquela que, além de tudo, é poeta.

NOSTÁLGICA





Aqui distante vou levando a vida
E tu nem sabes quanto hei vagado,
Chorosa por não ver-te ao meu lado,
Distante assim de ti, tão esquecida.

E não te vejo como hei sonhado,
E trago dentro em mim só dor, ferida,
Uma saudade sempre renascida,
Tais quais essas florzinhas do cerrado.

E o meu olhar se perde nesse lago
Deste planalto, onde só eu vago,
Feito um fantasma que se vai ao léu.

Oh! Meu amado! Que tristura sinto!
Perdida no meu próprio labirinto,
Olhar vacante entre o lago e o céu.

CICLOS (VI)




Às vezes lembro d’outros tempos idos,
Arroubos de paixão, da juventude,
Da ânsia de viver tudo amiúde,
Dos meus ciúmes tolos, descabidos.

Das tantas vezes que também fui rude,
Por conta de caprichos desmedidos,
Dos tempos que se foram em vão, perdidos,
Sem cultivar em mim qualquer virtude.

Sinto saudades! Mas nem tanto assim.
Pois hoje gosto muito mais de mim,
Sem mil arroubos, sem voracidade.

Se hoje meus cabelos estão brancos,
A vida não se passa mais aos trancos,
Tenho mais luz, mais paz, serenidade.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ANJO MARMÓREO

(Monumento do Cemitério Honório Lemes - Foto por Derek Soares Castro)


Anjo Marmóreo

Regressei à Necrópole outra vez;
E de longe revi o monumento
Daquele funesto Anjo macilento,
Que jaz em tumulária soturnez.

E olhando aquele fúnebre moimento,
Em que o tempo cobriu de lividez;
Tive a vaga impressão de ver, talvez...
Teu vulto que passava desatento...

No fim dos corredores tumulares,
Escutei sussurrando junto aos ares
Tua voz, em um som rouco e distante;

Mas, enquanto eu, absorto te escutava,
Aquele Anjo, imponente me fitava,
Como se fosse o teu próprio semblante!

Derek Soares Castro

quinta-feira, 28 de julho de 2011

MÁGOAS




A chuva cai! Sussurra nas vidraças!
E dança tristes valsas contra os ventos,
Quais lágrimas de dor, de desalentos,
Que caem dos meus olhos quando passas.

Os pingos caem, quais os vãos lamentos,
Dispersam-se no ar feito as fumaças,
Quais vinhos se evaporam em finas taças,
Nos dias que sem ti são mui cinzentos.

Batendo nas vidraças rolam as águas
Das chuvas de verão, tão passageiras,
Que correm lassas pela terra afora.

Quisera que passassem as minhas mágoas,
Feito essas chuvas que passam ligeiras,
Que brincam na vidraça e vão s’embora.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

OBSCENA




Veneno é o que não falta em tua veia,
Correndo livre pelo corpo todo,
Tão denso e tão viscoso feito o lodo,
Contido em teu sorriso de sereia.

Na veia tua corre só veneno,
Que dentro em ti cultivas e destilas,
E lanças pelo olhar, pelas pupilas,
De jeito disfarçado, vil, pequeno!

E com palavras falsas, coloridas,
Nos teus mortais venenos embebidas,
Manténs os que te amam na coleira.

Areia movediça! Traiçoeira!
Tens jeito d’uma mosca varejeira
Que deposita larvas nas feridas!

domingo, 24 de julho de 2011

FOLHAS OUTONAIS




No solo em folhas secas, outonal,
Há rastros dos amores que hei vivido,
E d’outros que pensei houvera tido,
Num mundo que era etéreo e surreal.

E aqui cheguei ao ponto meu final,
Mas nada foi em vão ou foi perdido,
E não me importa quanto hei sofrido,
Pois tudo isso é vida e é normal!

Pisei as flores rubras da paixão,
Dos sonhos tons lilases das hortências,
Sonhei, amei, sofri, enfim, vivi.

Se hoje colho os frutos da estação,
As folhas mortas dessas mil querências,
Eu tudo tive e nada eu perdi.

HELIANTOS




Um campo d’heliantos vicejantes
Com suas flores lindas, quais mil sóis,
Co’s irisados tons dos arrebóis,
Repleno de fulgores, mui pujantes.

Mais belo que o cantar dos rouxinóis,
Ecoando em todo o espaço e seus quadrantes,
são esses campos fartos, verdejantes,
cobertos com milhões de girassóis!

Em cada flor a vida toda posta!
Pulsante! Esplendorosa! Colorida!
Com todo o seu olor, mistério, encantos!

A vida fica assim expressa! Exposta!
Em cada flor encantos d’uma vida,
E a vida nesse campo de heliantos!

SENDAS DA PAIXÃO




Eu sei que desta vida não se leva
Paixão, amor, tristeza ou matéria,
A força que circula em nossa artéria,
Seja ela boa, pura ou maleva...

E que emoção alguma é longeva,
Ainda que, por vezes, deletéria,
Tornando a nossa alma mui cinérea,
Que nada vê além da escura treva!

Eu sei! Mas não consigo ser razão!
Envolta estou nas sedas da paixão,
Louca de amor, andando a te buscar.

Eu sei que tudo um dia vai passar,
Mas hoje quero só amar e amar,
Perder-me entre as sendas da emoção.

Náufrago...

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Vivo e ainda tão só, restrito ao leito pobre,
Basta à minh’alma a calma e o fim do velho pranto
Tão decadente, eu sei, e enfim soltando o canto
Nessa sinestesia o atrito de água e cobre...

E posto que eu houvesse escrito em ouro nobre
As letras de um poema assim em desencanto,
O vosso olhar que é puro e em mim um acalanto
Jamais veria a dor ou grito, ânimo dobre...

Quase logrei cessar tristeza, algoz terrível,
Mas não vi força em meu ser frágil, quase morto.
Toda uma vida aquém do adágio ‘rei deposto’...

Além da linda e vã destreza em ser passível
De ter ness’arte audaz pureza e ainda absorto
Por vossa ausência vil: naufrágio em vosso gosto.

Ronaldo Rhusso

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TRISTURA (III)




Oh! Pomba alva que esvoaça pelos ares
Com tanta graça, com leveza sem igual,
Suave quais etéreas sedas milenares,
Na langorosa tarde bela e divinal.

Oh! Símbolo da Paz! Candura virginal!
Tão alvadia como os lírios nos altares,
E que esvoaça pelo céu belo e outonal,
por sobre as águas mornas destes verdes mares.

Quisera, ó branca pomba, revoar nos céus,
Distante da saudade e seus sedosos véus,
Liberta dessa dor sem fim, dessa tristura.

Quisera ter em mim esse poder! Pureza!
Mas trago dentro em mim o peso da tristeza,
E vivo só e presa nesta noite escura.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).