quinta-feira, 28 de julho de 2011

MÁGOAS




A chuva cai! Sussurra nas vidraças!
E dança tristes valsas contra os ventos,
Quais lágrimas de dor, de desalentos,
Que caem dos meus olhos quando passas.

Os pingos caem, quais os vãos lamentos,
Dispersam-se no ar feito as fumaças,
Quais vinhos se evaporam em finas taças,
Nos dias que sem ti são mui cinzentos.

Batendo nas vidraças rolam as águas
Das chuvas de verão, tão passageiras,
Que correm lassas pela terra afora.

Quisera que passassem as minhas mágoas,
Feito essas chuvas que passam ligeiras,
Que brincam na vidraça e vão s’embora.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

OBSCENA




Veneno é o que não falta em tua veia,
Correndo livre pelo corpo todo,
Tão denso e tão viscoso feito o lodo,
Contido em teu sorriso de sereia.

Na veia tua corre só veneno,
Que dentro em ti cultivas e destilas,
E lanças pelo olhar, pelas pupilas,
De jeito disfarçado, vil, pequeno!

E com palavras falsas, coloridas,
Nos teus mortais venenos embebidas,
Manténs os que te amam na coleira.

Areia movediça! Traiçoeira!
Tens jeito d’uma mosca varejeira
Que deposita larvas nas feridas!

domingo, 24 de julho de 2011

FOLHAS OUTONAIS




No solo em folhas secas, outonal,
Há rastros dos amores que hei vivido,
E d’outros que pensei houvera tido,
Num mundo que era etéreo e surreal.

E aqui cheguei ao ponto meu final,
Mas nada foi em vão ou foi perdido,
E não me importa quanto hei sofrido,
Pois tudo isso é vida e é normal!

Pisei as flores rubras da paixão,
Dos sonhos tons lilases das hortências,
Sonhei, amei, sofri, enfim, vivi.

Se hoje colho os frutos da estação,
As folhas mortas dessas mil querências,
Eu tudo tive e nada eu perdi.

HELIANTOS




Um campo d’heliantos vicejantes
Com suas flores lindas, quais mil sóis,
Co’s irisados tons dos arrebóis,
Repleno de fulgores, mui pujantes.

Mais belo que o cantar dos rouxinóis,
Ecoando em todo o espaço e seus quadrantes,
são esses campos fartos, verdejantes,
cobertos com milhões de girassóis!

Em cada flor a vida toda posta!
Pulsante! Esplendorosa! Colorida!
Com todo o seu olor, mistério, encantos!

A vida fica assim expressa! Exposta!
Em cada flor encantos d’uma vida,
E a vida nesse campo de heliantos!

SENDAS DA PAIXÃO




Eu sei que desta vida não se leva
Paixão, amor, tristeza ou matéria,
A força que circula em nossa artéria,
Seja ela boa, pura ou maleva...

E que emoção alguma é longeva,
Ainda que, por vezes, deletéria,
Tornando a nossa alma mui cinérea,
Que nada vê além da escura treva!

Eu sei! Mas não consigo ser razão!
Envolta estou nas sedas da paixão,
Louca de amor, andando a te buscar.

Eu sei que tudo um dia vai passar,
Mas hoje quero só amar e amar,
Perder-me entre as sendas da emoção.

Náufrago...

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Vivo e ainda tão só, restrito ao leito pobre,
Basta à minh’alma a calma e o fim do velho pranto
Tão decadente, eu sei, e enfim soltando o canto
Nessa sinestesia o atrito de água e cobre...

E posto que eu houvesse escrito em ouro nobre
As letras de um poema assim em desencanto,
O vosso olhar que é puro e em mim um acalanto
Jamais veria a dor ou grito, ânimo dobre...

Quase logrei cessar tristeza, algoz terrível,
Mas não vi força em meu ser frágil, quase morto.
Toda uma vida aquém do adágio ‘rei deposto’...

Além da linda e vã destreza em ser passível
De ter ness’arte audaz pureza e ainda absorto
Por vossa ausência vil: naufrágio em vosso gosto.

Ronaldo Rhusso

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TRISTURA (III)




Oh! Pomba alva que esvoaça pelos ares
Com tanta graça, com leveza sem igual,
Suave quais etéreas sedas milenares,
Na langorosa tarde bela e divinal.

Oh! Símbolo da Paz! Candura virginal!
Tão alvadia como os lírios nos altares,
E que esvoaça pelo céu belo e outonal,
por sobre as águas mornas destes verdes mares.

Quisera, ó branca pomba, revoar nos céus,
Distante da saudade e seus sedosos véus,
Liberta dessa dor sem fim, dessa tristura.

Quisera ter em mim esse poder! Pureza!
Mas trago dentro em mim o peso da tristeza,
E vivo só e presa nesta noite escura.

domingo, 3 de julho de 2011

BELLE ÉPOQUE - Sonetilho raro.





XXXVI 
 

Domingo. A casa de palha
Abre as janelas ao sol
Na horta o dono trabalha
Desde veio o arrebol;

E a companheira, de grampo
No cabelo em caracol,
Na erva enxuta do campo
Estende um claro lençol...

No ribeiro cristalino
Bebem as aves; o sino
Chama os cristãos à matriz;


Entra a mulher... mas da porta
Fala meiga, para a horta:
- Vamos à missa, Luís?


Bernardino da Costa Lopes
Cromos (1881) 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

MUSA MORTA

Musa Morta

(Dueto)

Com as mãos sepulcrais postas ao peito,
Envolta em murchas flores de saudade,
Tu dormias em morta claridade...
À penumbra dos círios em teu leito.

Tão pálida, tão mórbida, tão fria!
Deitada sobre o leito de madeira...
Ainda assim, tu eras a primeira
Em termos de beleza e de agonia!

Amortalhada em lívidos sudários,
Tinhas nos olhos, goivos funerários,
Do roxo tom das lúgubres olheiras.

Ainda que p'ra sempre, tu dormias,
A dor que, no semblante, refletias
Não era só de angústias passageiras...

Derek Soares Castro / Alysson Rosa

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Lundu dos Anhangás: Soneto



Nas sendas escuras navegam figuras
do baile faustoso na negra ipuã,
um monge está morto por sobre as gravuras
de estranhas estórias de Leviatã.

Quem rege a orquestra dessas sepulturas
de acordes sombrios e música vã,
é a branca caveira que outrora bravuras
soprava nos ventos de antiga manhã.

A turba gargalha, estalando o riso,
enquando um cadáver rasteja no piso
a dar mais um drinque como despedida.

E eu danço com eles o baile inteiro,
mas eia! Que chega o Sol, o coveiro
da noite - e a Lua expira na ermida.

domingo, 19 de junho de 2011

ALMA DO POETA



Se a vida, pouco a pouco, já s’ evade,
Qual folha seca, que se vai co’o vento,
N’ outono d’alma, solta ao relento,
Rolando pelas ruas da cidade...

Se aos poucos se declina a nossa vida,
Qual delicada rosa esvanecente,
Que há de se tornar também ausente,
Depois de perfumar a nossa vida...

Há de se ir co’o vento , à revelia,
A alma do poeta , mui chorosa,
A peregrina alma trovadora...

Há de seguir seu rumo, céus afora,
Deixando seu perfume, qual a rosa,
O seu legado,em forma de poesia.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).