domingo, 3 de julho de 2011

BELLE ÉPOQUE - Sonetilho raro.





XXXVI 
 

Domingo. A casa de palha
Abre as janelas ao sol
Na horta o dono trabalha
Desde veio o arrebol;

E a companheira, de grampo
No cabelo em caracol,
Na erva enxuta do campo
Estende um claro lençol...

No ribeiro cristalino
Bebem as aves; o sino
Chama os cristãos à matriz;


Entra a mulher... mas da porta
Fala meiga, para a horta:
- Vamos à missa, Luís?


Bernardino da Costa Lopes
Cromos (1881) 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

MUSA MORTA

Musa Morta

(Dueto)

Com as mãos sepulcrais postas ao peito,
Envolta em murchas flores de saudade,
Tu dormias em morta claridade...
À penumbra dos círios em teu leito.

Tão pálida, tão mórbida, tão fria!
Deitada sobre o leito de madeira...
Ainda assim, tu eras a primeira
Em termos de beleza e de agonia!

Amortalhada em lívidos sudários,
Tinhas nos olhos, goivos funerários,
Do roxo tom das lúgubres olheiras.

Ainda que p'ra sempre, tu dormias,
A dor que, no semblante, refletias
Não era só de angústias passageiras...

Derek Soares Castro / Alysson Rosa

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Lundu dos Anhangás: Soneto



Nas sendas escuras navegam figuras
do baile faustoso na negra ipuã,
um monge está morto por sobre as gravuras
de estranhas estórias de Leviatã.

Quem rege a orquestra dessas sepulturas
de acordes sombrios e música vã,
é a branca caveira que outrora bravuras
soprava nos ventos de antiga manhã.

A turba gargalha, estalando o riso,
enquando um cadáver rasteja no piso
a dar mais um drinque como despedida.

E eu danço com eles o baile inteiro,
mas eia! Que chega o Sol, o coveiro
da noite - e a Lua expira na ermida.

domingo, 19 de junho de 2011

ALMA DO POETA



Se a vida, pouco a pouco, já s’ evade,
Qual folha seca, que se vai co’o vento,
N’ outono d’alma, solta ao relento,
Rolando pelas ruas da cidade...

Se aos poucos se declina a nossa vida,
Qual delicada rosa esvanecente,
Que há de se tornar também ausente,
Depois de perfumar a nossa vida...

Há de se ir co’o vento , à revelia,
A alma do poeta , mui chorosa,
A peregrina alma trovadora...

Há de seguir seu rumo, céus afora,
Deixando seu perfume, qual a rosa,
O seu legado,em forma de poesia.

sexta-feira, 17 de junho de 2011



"Varo o tempo em corcel mui arfante
e da morte eu declino o convite
embebendo esse ar que respiro
co'essa dança escondida das horas"!

Ronaldo Rhusso

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CONVITE: GRAND PICNIC VITORIANO DE SÃO PAULO







Convite ao
evento que eu, a moderação e os membros da comunidade estamos organizando.
Acontecerá dia 31 de julho, domingo, às 12h no Parque do Ibirapuera, em São Paulo

Informações na imagem acima (clique para ampliar) e
no blog

terça-feira, 7 de junho de 2011

NOTURNAL




Chorei! E se chorei não foi em vão.
Depois de tanto amar fiquei vazia,
sem crer no amor, qu’ outrora eu tanto cria...
Sem sonho algum, desejo ou paixão.

Não sinto paz, nem dor, nem agonia...
Flutuo nessa imensa solidão,
Sentindo a vida toda em suspensão,
Sem ter qualquer encanto, luz, poesia...

Tamanha foi a força do desgosto,
que nem mais sou a sombra de quem fui,
e o que restou aos poucos se dilui.

E assim é o meu viver. Sombrio flui...
Do que já fui eu sou somente o oposto,
Tamanha a dor a vida tem me posto.

terça-feira, 31 de maio de 2011

OFERENDA!



Há tanta dor nos vãos das tristes sendas,
Nos vincos de minh’alma amortecida,
Sinais de toda agrura d’uma vida,
Sem sonhos, ilusões ou doces prendas

Ah! Minha vida! Eterna despedida!
Uma oferenda em meio às oferendas,
Depois de tantas lutas, mil contendas
inúteis, sem ter paz, sem ter guarida!

Uma oferenda ao dia que escurece,
Sem arrebol, o alento d’uma prece,
sem fios doirados, luzes n’horizonte!

Assim vivi! Sem ter qualquer benesse!
Sem luz qu’iluminasse a minha fronte,
Nem versos, nem poesia triste, insonte!

AGOSTO




Minh’alma é triste feito o mês d’agosto,
De céu pesado e todo esfumaçado,
E o chão cinzento, todo calcinado,
O rio seco, com seu leito exposto...

É triste, como é o meu cerrado,
Trincado, como a pele do meu rosto,
Tamanha a dor o fogo lhe tem posto,
Deixando-o desse jeito ressecado.

E triste é minh’alma, por suposto,
Por tudo que a vida tem me imposto,
Essa agonia dessa dor sem fim...

Que a chuva há de vir é um pressuposto,
Para lavar minh’alma e esse desgosto...
Mas ora tenho o agosto dentro em mim!

domingo, 29 de maio de 2011

SEM RUMO - AZEVEDO CRUZ

SEM RUMO

Nesta barquinha audaz e temerária,
que a fantasia nômade carrega
pelos mares em fora, entregue à vária
sorte, a minhalma célebre navega.

Ferra o velame a viração contrária...
As brancas velas túmidas desprega;
e acompanhada pela procelária
foge, no azul, completamente cega.

Corta do mar a superfície vasta;
o vento agita o seu velame rôto,
e em convulsões no pélago se arrasta.

Mas vai por diante a gôndola veleira...
e, enquanto o teu amor for meu piloto,
a melhor vida é a vida aventureira.

1892

João Antonio de AZEVEDO CRUZ - Poeta Simbolista - nasceu em Campos a 22.07.1870. Era neto de escravos. Bacharel em Direito, foi Secretário de Estado do Rio de Janeiro e Chefe de Polícia, além de jornalista e exímio orador. Faleceu em Nova Friburgo, em 22.01.1905. Retirado do livro: Sonho, Poesias escolhidas, Coeditora Brasilica, Rio de Janeiro, 1943. (Pág. 35) - Soneto da Primeira parte do livro: I - versos da adolescência.

ALMA DO DIA - EMILIO KEMP

ALMA DO DIA

De manhã cêdo, mal o sol desperta,
Mal a noite se esconde no horizonte,
Naquella casa que se vê defronte,
Uma janella já se encontra aberta.

E surge, logo, uma cabeça esperta,
Que é como um novo sol que ali desponte,
Outro sol que fulgura; nova fonte
De estranha luz na luz do sol incerta...

É clarão, é sorriso que embriaga,
E pelo espaço sobe e se propaga
Como o perfume da manhã que nasce...

E maior esplendor o dia alcança,
Quando surge, à janella, tua face,
Tua linda cabeça de creança!

Emilio Kemp Larbeck Filho (Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1874 - Porto Alegre, 9 de outubro de 1955) Médico, Poeta e Jornalista brasileiro. Pertenceu ao Movimento Simbolista. Grande poeta brasileiro, pena estar um tanto esquecido, e um dos maiores escritores do seu tempo. Destaque em sua obra para o Poema Épico: Os Turcos do livro Vesperaes. ALMA DO DIA foi retirado de Poesia, 2ª edição, Annuario do Brasil, Rio de Janeiro, 1924. (Pág. 146) - O soneto pertence à De Amores e Saudades, poemas que foram publicados em livro no ano de 1919 na 1ª edição de Poesia.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).