domingo, 29 de maio de 2011

EM VIAGEM - ZITO BAPTISTA

EM VIAGEM

Na indolencia fatal desta vida de bordo,
A alma cheia do fel de atra melancolia,
Ouço em tudo o rumor de afflictiva elegia,
Emquanto os dias bons do passado recordo...

Muita vez, alta noite, em soluços, acordo...
Lá fóra a voz do vento, agoureira, sombria,
Anda a encher de pavor a alma da noite fria,
Cujo Mysterio ideal nos meus sonhos abordo...

Manso, o rio a rolar, tristonhamente, desce,
Reflectindo, por toda a extensão destas aguas,
A aurea trama que a lua entre as montanhas tece...

Deus! Que será de mim nesta viagem sem norte!
– Acordaram, de vez, todas as minhas maguas,
E esta saudade dóe como um frio de Morte...

Zito Baptista – Chamma Extincta, Rio de Janeiro, Edição do autor, 1918. (págs. 63 e 64) Raimundo Zito Baptista, poeta Piauiense, nasceu no povoado Natal, hoje município de Monsenhor Gil, em 16 de setembro de 1887. Adolescente, ele veio para Teresina com o irmão Jônathas Batista (1885 -1935), que depois se revelaria teatrólogo. Escreveu poesias desde moço. Fundou as revistas Cidade Verde Alvorada. Mais sonhador ou romântico que o irmão, Zito entregou-se de corpo e alma ao poder embriagante da poesia. Por essa época, em Teresina, uma mocidade sonhadora dominava a cidade. Poesias, crônicas, cartas amorosas e os acontecimentos sociais que pudessem trazer alegrias ou tristezas ao meio eram traduzidos em versos por jovens poetas que se iniciavam em literatura. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1926. Amigo dos poetas Antônio Chaves e Celso Pinheiro, com eles es­treou em livro em 1909, com  coletânea Almas Gêmeas, cabendo-lhe a parte sob o título Pedaços do Coração. Monólogo de um cego é o seu poema mais conhecido. (Retirei do portal de Antonio Miranda – www.antoniomiranda.com.br – sua biografia, porque foram os únicos dados que obtive do poeta. Chamma Extincta não traz detalhes de sua vida.)

TÚMULO - NARCISO ARAUJO

TÚMULO

Um dia a morte, cega, inquebrantável, treda,
que distribui o frio a cada sepultura,
com esse frio há de vir, vagueando, à procura
de teu seio floral, de teu corpo de seda.

Ela há de ir, caçadora impiedosa e segura,
cega, mas sem errar, pela única vereda
que a ti se vai, por essa estrada azul de leda
que eu de sonhos junquei e o meu sonho emoldura!

Então, nessa hora fria, ó minha divindade,
dos meus sonhos farei um caixão branco e leve,
perfumado de amor, orvalhado de saudade,

e em versos alçarei o teu caixão bonito,
para guardar teu corpo – imaculada neve –
no seio de uma estrela, a luzir no infinito...

Narciso AraujoPoesias, 1ª Série, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1942. (págs. 128 e 129). Extraído da 2ª parte (poemas escritos entre 1916 e 1930). Poeta simbolista do Estado do Espírito Santo, nasceu em 6 de agosto de 1877 e faleceu em 16 de abril de 1944. Viveu parte da vida no Rio de Janeiro, onde, foi aluno exemplar do Colégio Pedro II. Trabalhou no Rio de Janeiro até sanar as dívidas comerciais de seu pai. Voluntariamente, se exilou, após, sanadas as dívidas, sendo até Deputado do Congresso Estadual do Espirito Santo, onde sua consciência ficou desiludida. Após, regressou para sua cidade Natal: Cachoeiro do Itapemirim, no seu tempo uma pequena vila, vivendo uma vida simples e poética. Recebeu em vida o título de Príncipe dos Poetas Capixabas. É conhecido em nossa Literatura como: o solitário do Itapemirim. Um dos maiores sonetistas do Brasil. Foi amigo de Raul Pederneiras, Félix Pacheco, Cruz e Sousa, Nestor Victor e outros grandes poetas de seu tempo.

"Livro do nosso amor que tem hoje a encantá-lo," Paulo Silva Araújo

 “Livro do nosso amor que tem hoje a encantá-lo,
Divino e espiritual o seu desinteresse...
Livro confessionário em que à tua alma falo
Na graça de uma rima e num sabor de prece...

Ponte feita de ideias que transpõe o valo
Que a morte assim julgou que entre noivos fizesse...
De um sol que se apagou a qual dourado halo
Que a mais trevosa dor nem de leve escurece...

Regaço de poesias em que o pranto estanco,
Deixo nele a minh´alma, em luminoso rastro
Quebrando a escuridão desta minha viuvez...

Oh! livro de marfim, meu livro todo branco,
Livro que és para nós, a igreja de alabastro
Em que vamos casar pela segunda vez...”

1912

Paulo Silva Araujo - do livro Segundas Núpcias - inédito. In: Poesias, Edição comemorativa do 50º do aniversário de sua morte, Rio de Janeiro, Tipografia Baptista de Souza, 1968. (pág. 104) Poeta Simbolista e Médico fluminense nascido em 23 de julho de 1883 e falecido em 22 de outubro de 1918. Pertenceu ao grupo de Saturnino de Meireles, onde juntos, editaram a revista Rosa-Cruz, a partir de 1904. Era amigo de Catulo da Paixão Cearense, João do Rio e Chiquinha Gonzaga, que musicou alguns de seus poemas.

TUA BOCA - VALENTIM MAGALHÃES

TUA BOCA

Cheguei! Não me esperavas. A surpreza
Accendeu a alegria em teu semblante;
Do teu trajo caseiro a singeleza
Tornava-te mais bella e fascinante.

Confundida ficaste, no entretanto,
Porque te achei num casto desalinho;
E eu contemplava cada novo encanto
Que tinhas no aconchego do teu ninho.

Sahiste um pouco, e então, no quarto, ao lado,
Senti que um frasco de crystal abrias.
Teu cabello, ao voltares, mais cuidado
Estava, e um fino aroma rescendias.

Pedir a rosa olor ao jasmineiro!
Pois foi o que fizeste, minha louca,
Como se houvesse, por ventura, um cheiro
Mais agradavel que o da tua boca!

Janeiro – 17 – 1888.

Valentim Magalhães - Rimas de Amor. In: Rimário (1878 – 1899), Paris, Aillud & Cia. Editores, 1900. (pág. 71) - Poeta Parnasiano nascido em 16 de janeiro de 1859 e falecido em 17 de maio de 1903. Jornalista e Escritor foi um dos fundadores da ABL (Academia Brasileira de Letras), tendo participado da “Batalha do Parnaso”, uma reação contra o romantismo literário. Sua obra mais conhecida foi o romance: Flor de Sangue, escrito em 1897.

SOLAU - DÁRIO VELLOZO

SOLAU***
Dário Vellozo

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Loura de olhos monacais;
Eu rezo salmos a Dona Morte,
Sou o coral das catedrais;
Nos meus idílios flavesce a morte,
A morte - o vinho das bacanais.

Volvei os olhos de esperança
A um cavaleiro Rosa-Cruz;
Os vossos olhos de esperança
São liras de ouro, alvas de luz;
São pulvinários de esperança,
Valquíria astral da Rosa-Cruz.

No cinerário de meus sonhos
Arderam Silfos e Quimeras;
Em que sepulcros andam meus sonhos,
Ó peregrinos de outras eras?
Noiva, - sepulcro de meus sonhos,
Crisoberil das primaveras,

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Entrei castelos e solares;
Seguindo os passos de Dona Morte
Subi a torres de sete andares.
Os belvederes de Dona Morte
Andam suspensos de meus olhares.

Andam suspensos de minha boca
Os nove arcanos da Alquimia;
Nos setiais de minha boca
Rezaram monjas noite e dia;
Jamais oscules a minha boca
Estrela da Alva da Nostalgia!

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais;
A morte embala meus sonhos mortos,
Nas absides das catedrais;
A morte é a noiva dos sonhos mortos,
A morte é o círio das bacanais.

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais!

Curitiba, agosto de 1898.

Dário Vellozo. Cinerário e outros poemas, Curitiba, Coleção Farol do Saber, Gráfica Lítero-Técnica, 1996.(págs. 156 e 157)

*** Solau - Composição bem antiga, da época anteclássica renascentista, de caráter melancólico e habitualmente acompanhada por música. Autores que a cultivaram: Bernardim Ribeiro,Sá de Miranda, Jorge de Vasconcelos, Gonçalves Dias, Almeida Garret, Carlos D. Fernandes (simbolista brasileiro). Poetas modernos como Manuel Bandeira e Mário Quintana, também, escreveram poemas com o título de Solau. (Informações retiradas do livro: Teoria Literária do Professor Henio Tavares - Editora Vila Rica, Rio de Janeiro/Belo Horizonte, 11º edição, 1996 - Págs. 302 e 303.)

Alguns solaus que conheço:

1) “Pensando-vos estou, filha,” - Bernardim Ribeiro - Século XVI (Classicismo);

2) Sextilhas de Frei Antão (Soláo do Senhor Rey Dom João e Soláo de Gonçalo Herminguez) - Gonçalves Dias;

3) Frei Luis de Sousa - Almeida Garret;

4) Solau à Moda Antiga - Mário Quintana;

5) Solau do Desamado - Manuel Bandeira (1943) - letra de música;

6) Solaus - Livro de Versos de Carlos D. Fernandes editado pela H. Garnier, Rio de Janeiro, Paris, [s.d] - livro raro. Soube de sua existência por causa de um catálogo de livros à venda que aparece no Livro Poesias de Goulart de Andrade, da mesma editora, do ano de 1907. 


Sobre Dario Vellozo: nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para Curitiba em 1886, cidade em que veio a desenvolver praticamente toda sua obra. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, cursou o Partenon Paranaense e o Inst. Paranaense. Em 1909 fundou o Instituto Neo-Pitagórico (numa construção imitando Templo da Grécia antiga - chamado de Templo das Musas) baseado em sua filosofia helênica que buscava revivências da festa da primavera. Foi fundador do Grupo Cenáculo junto com Antonio Braga, Silveira Neto (pai de Tasso da Silveira) e Júlio Pernetta (irmão de Emiliano Pernetta), principal grupo de poesia do Estado do Paraná. Editava ele mesmo seus livros e os anais do Instituto. Discípulo de doutrinas ocultistas, lia e divulgava as obras de Swedenborg, Saint-Martin, Papus, Stanislas de Guaita, Fabre d’Olivet, além do satanismo de Huysmans, a poesia simbolista em geral e Dante Alighieri. Tinha sempre em alta conta a poesia de Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Eugênio de Castro e Cruz e Sousa. Fundou a revista O Cenáculo (1895-1897) e participou de várias outras: Revista Azul, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras, Brasil Cívico. Obras: Poesia: Efêmeros (1890); Esquifes (1986); Alma Penitente (1897); Hélicon (1908); Rudel (1912); Cinerário (1929); Atlântida (1938).
Parte da biografia de Dário Vellozo retirei do site: Orfeu Spam - http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Simbolismo/Dario_Vellozo.htm - vale um passeio por lá para ler outros poemas do poeta.
  

sexta-feira, 27 de maio de 2011

DESEJOS E QUIMERAS



Quisera ser somente uma brisa,
A deslizar discreta no teu rosto,
Sentir dos lábios teus aroma e gosto,
Roçando tua pele tenra e lisa...

Apenas uma brisa que desliza
Deixando o teu cabelo descomposto,
Sentindo o teu desejo, a mim exposto,
Sem ter entre nós dois qualquer divisa...

Romper o teu silêncio, eu bem quisera...
Virar-te, de prazer, do lado avesso,
Deixar-te nu de todos teus pudores.

Tocar-te qual a brisa é vã quimera,
Pois há no teu olhar um véu espesso,
que encobre os sonhos meus com tantas dores...

IN FINE




No pálido semblante tanta paz!
Um ensaio de sorriso, uma luz,
Por entre as mãos, do terço, uma cruz,
Na pele, fria e branca, um tom vivaz....

As flores coloridas fazem jus
À paz que, no seu rosto, é tenaz,
Ao seu sorriso pálido e fugaz,
E que um tom de vida, em si, conduz...

A alma, que se faz ali presente,
A exalar perfumes d’uma vida,
Ensaia a derradeira despedida...

E assim ela se vai, se torna ausente
Tal como o sol se pondo no ocidente,
Deixando uma saudade desmedida.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

"Excitam-me o jogar em mim mil pedras,/ O tilintar de pálidas moedas,"





CABARÉ



Do crepúsculo a cada gris manhã
Surge ornado de almíscar, nobre sândalo,
Dançando um negro e fúnebre can can
Um homem que tem como nome escândalo!


Embalsamai-me grã-luxúria irmã
E mostrai meu ar fino, sutil vândalo,
Defunto colossal, curto Titã,
Eu, cujo sobrenome é Bravo Escândalo!


Excitam-me o jogar em mim mil pedras,
O tilintar de pálidas moedas,
O grande manto púrpuro de luto.


Um funeral se mostra nos vis lodos,
Porque de tudo, todas e de todos
Fui livre e vagabundo prostituto!



 Rommel   Werneck

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DOIS HAIKAIS DE ISSA



como sempre, fica velho
o pinheiro que plantei.
anoitecer de outono



banho de chuva - 
os galhos de shikimi do túmulo
também são árvores



Kobayashi Issa 
traduzido por Gabriel Rübinger


domingo, 22 de maio de 2011

BELLE ÉPOQUE - Antero de Quental




MAIS LUZ!

(A Guilherme de Azevedo)


Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossiveis,
E os que inclinam, mudos e impassiveis,
Á borda dos abysmos silenciosos...


Tu, lua, com teus raios vaporosos,

Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!


Eu amarei a santa madrugada,

E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.


Viva e trabalhe em plena luz: depois,

Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!


Antero de Quental

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Iara


Alguns poetas contam que há uma bela
mulher que habita o fundo desses rios,
sempre a cantar canções jamais ouvidas
e a envenenar aqueles que são frios.

Muito já se falou da história dela:
que da canção vive a tecer seus fios,
que arrebatou consigo muitas vidas,
e que as jangadas voltaram vazias.

Quem dizer pode que mulher é esta?
Nem mesmo as águas sabem de onde veio,
ou quem compôs sua fúnebre seresta.

Mas em toda mulher há dela um pouco:
somente com o olhar, a voz e o anseio,
capaz é de tornar o homem num louco.




Gabriel Rübinger

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).