domingo, 29 de maio de 2011

TUA BOCA - VALENTIM MAGALHÃES

TUA BOCA

Cheguei! Não me esperavas. A surpreza
Accendeu a alegria em teu semblante;
Do teu trajo caseiro a singeleza
Tornava-te mais bella e fascinante.

Confundida ficaste, no entretanto,
Porque te achei num casto desalinho;
E eu contemplava cada novo encanto
Que tinhas no aconchego do teu ninho.

Sahiste um pouco, e então, no quarto, ao lado,
Senti que um frasco de crystal abrias.
Teu cabello, ao voltares, mais cuidado
Estava, e um fino aroma rescendias.

Pedir a rosa olor ao jasmineiro!
Pois foi o que fizeste, minha louca,
Como se houvesse, por ventura, um cheiro
Mais agradavel que o da tua boca!

Janeiro – 17 – 1888.

Valentim Magalhães - Rimas de Amor. In: Rimário (1878 – 1899), Paris, Aillud & Cia. Editores, 1900. (pág. 71) - Poeta Parnasiano nascido em 16 de janeiro de 1859 e falecido em 17 de maio de 1903. Jornalista e Escritor foi um dos fundadores da ABL (Academia Brasileira de Letras), tendo participado da “Batalha do Parnaso”, uma reação contra o romantismo literário. Sua obra mais conhecida foi o romance: Flor de Sangue, escrito em 1897.

SOLAU - DÁRIO VELLOZO

SOLAU***
Dário Vellozo

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Loura de olhos monacais;
Eu rezo salmos a Dona Morte,
Sou o coral das catedrais;
Nos meus idílios flavesce a morte,
A morte - o vinho das bacanais.

Volvei os olhos de esperança
A um cavaleiro Rosa-Cruz;
Os vossos olhos de esperança
São liras de ouro, alvas de luz;
São pulvinários de esperança,
Valquíria astral da Rosa-Cruz.

No cinerário de meus sonhos
Arderam Silfos e Quimeras;
Em que sepulcros andam meus sonhos,
Ó peregrinos de outras eras?
Noiva, - sepulcro de meus sonhos,
Crisoberil das primaveras,

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Entrei castelos e solares;
Seguindo os passos de Dona Morte
Subi a torres de sete andares.
Os belvederes de Dona Morte
Andam suspensos de meus olhares.

Andam suspensos de minha boca
Os nove arcanos da Alquimia;
Nos setiais de minha boca
Rezaram monjas noite e dia;
Jamais oscules a minha boca
Estrela da Alva da Nostalgia!

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais;
A morte embala meus sonhos mortos,
Nas absides das catedrais;
A morte é a noiva dos sonhos mortos,
A morte é o círio das bacanais.

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais!

Curitiba, agosto de 1898.

Dário Vellozo. Cinerário e outros poemas, Curitiba, Coleção Farol do Saber, Gráfica Lítero-Técnica, 1996.(págs. 156 e 157)

*** Solau - Composição bem antiga, da época anteclássica renascentista, de caráter melancólico e habitualmente acompanhada por música. Autores que a cultivaram: Bernardim Ribeiro,Sá de Miranda, Jorge de Vasconcelos, Gonçalves Dias, Almeida Garret, Carlos D. Fernandes (simbolista brasileiro). Poetas modernos como Manuel Bandeira e Mário Quintana, também, escreveram poemas com o título de Solau. (Informações retiradas do livro: Teoria Literária do Professor Henio Tavares - Editora Vila Rica, Rio de Janeiro/Belo Horizonte, 11º edição, 1996 - Págs. 302 e 303.)

Alguns solaus que conheço:

1) “Pensando-vos estou, filha,” - Bernardim Ribeiro - Século XVI (Classicismo);

2) Sextilhas de Frei Antão (Soláo do Senhor Rey Dom João e Soláo de Gonçalo Herminguez) - Gonçalves Dias;

3) Frei Luis de Sousa - Almeida Garret;

4) Solau à Moda Antiga - Mário Quintana;

5) Solau do Desamado - Manuel Bandeira (1943) - letra de música;

6) Solaus - Livro de Versos de Carlos D. Fernandes editado pela H. Garnier, Rio de Janeiro, Paris, [s.d] - livro raro. Soube de sua existência por causa de um catálogo de livros à venda que aparece no Livro Poesias de Goulart de Andrade, da mesma editora, do ano de 1907. 


Sobre Dario Vellozo: nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para Curitiba em 1886, cidade em que veio a desenvolver praticamente toda sua obra. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, cursou o Partenon Paranaense e o Inst. Paranaense. Em 1909 fundou o Instituto Neo-Pitagórico (numa construção imitando Templo da Grécia antiga - chamado de Templo das Musas) baseado em sua filosofia helênica que buscava revivências da festa da primavera. Foi fundador do Grupo Cenáculo junto com Antonio Braga, Silveira Neto (pai de Tasso da Silveira) e Júlio Pernetta (irmão de Emiliano Pernetta), principal grupo de poesia do Estado do Paraná. Editava ele mesmo seus livros e os anais do Instituto. Discípulo de doutrinas ocultistas, lia e divulgava as obras de Swedenborg, Saint-Martin, Papus, Stanislas de Guaita, Fabre d’Olivet, além do satanismo de Huysmans, a poesia simbolista em geral e Dante Alighieri. Tinha sempre em alta conta a poesia de Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Eugênio de Castro e Cruz e Sousa. Fundou a revista O Cenáculo (1895-1897) e participou de várias outras: Revista Azul, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras, Brasil Cívico. Obras: Poesia: Efêmeros (1890); Esquifes (1986); Alma Penitente (1897); Hélicon (1908); Rudel (1912); Cinerário (1929); Atlântida (1938).
Parte da biografia de Dário Vellozo retirei do site: Orfeu Spam - http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Simbolismo/Dario_Vellozo.htm - vale um passeio por lá para ler outros poemas do poeta.
  

sexta-feira, 27 de maio de 2011

DESEJOS E QUIMERAS



Quisera ser somente uma brisa,
A deslizar discreta no teu rosto,
Sentir dos lábios teus aroma e gosto,
Roçando tua pele tenra e lisa...

Apenas uma brisa que desliza
Deixando o teu cabelo descomposto,
Sentindo o teu desejo, a mim exposto,
Sem ter entre nós dois qualquer divisa...

Romper o teu silêncio, eu bem quisera...
Virar-te, de prazer, do lado avesso,
Deixar-te nu de todos teus pudores.

Tocar-te qual a brisa é vã quimera,
Pois há no teu olhar um véu espesso,
que encobre os sonhos meus com tantas dores...

IN FINE




No pálido semblante tanta paz!
Um ensaio de sorriso, uma luz,
Por entre as mãos, do terço, uma cruz,
Na pele, fria e branca, um tom vivaz....

As flores coloridas fazem jus
À paz que, no seu rosto, é tenaz,
Ao seu sorriso pálido e fugaz,
E que um tom de vida, em si, conduz...

A alma, que se faz ali presente,
A exalar perfumes d’uma vida,
Ensaia a derradeira despedida...

E assim ela se vai, se torna ausente
Tal como o sol se pondo no ocidente,
Deixando uma saudade desmedida.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

"Excitam-me o jogar em mim mil pedras,/ O tilintar de pálidas moedas,"





CABARÉ



Do crepúsculo a cada gris manhã
Surge ornado de almíscar, nobre sândalo,
Dançando um negro e fúnebre can can
Um homem que tem como nome escândalo!


Embalsamai-me grã-luxúria irmã
E mostrai meu ar fino, sutil vândalo,
Defunto colossal, curto Titã,
Eu, cujo sobrenome é Bravo Escândalo!


Excitam-me o jogar em mim mil pedras,
O tilintar de pálidas moedas,
O grande manto púrpuro de luto.


Um funeral se mostra nos vis lodos,
Porque de tudo, todas e de todos
Fui livre e vagabundo prostituto!



 Rommel   Werneck

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DOIS HAIKAIS DE ISSA



como sempre, fica velho
o pinheiro que plantei.
anoitecer de outono



banho de chuva - 
os galhos de shikimi do túmulo
também são árvores



Kobayashi Issa 
traduzido por Gabriel Rübinger


domingo, 22 de maio de 2011

BELLE ÉPOQUE - Antero de Quental




MAIS LUZ!

(A Guilherme de Azevedo)


Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossiveis,
E os que inclinam, mudos e impassiveis,
Á borda dos abysmos silenciosos...


Tu, lua, com teus raios vaporosos,

Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!


Eu amarei a santa madrugada,

E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.


Viva e trabalhe em plena luz: depois,

Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!


Antero de Quental

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Iara


Alguns poetas contam que há uma bela
mulher que habita o fundo desses rios,
sempre a cantar canções jamais ouvidas
e a envenenar aqueles que são frios.

Muito já se falou da história dela:
que da canção vive a tecer seus fios,
que arrebatou consigo muitas vidas,
e que as jangadas voltaram vazias.

Quem dizer pode que mulher é esta?
Nem mesmo as águas sabem de onde veio,
ou quem compôs sua fúnebre seresta.

Mas em toda mulher há dela um pouco:
somente com o olhar, a voz e o anseio,
capaz é de tornar o homem num louco.




Gabriel Rübinger

SELO KREATIV BLOGGER AWARD



Primeiramente, peço desculpas pelo atraso um mês deste post.


Enquanto termino o texto sobre a Belle Époque (olha o atraso de um mês!) descubro algo fascinante! Nossa leitora Andressa do blog Monólogo das Emoções  indicou um selo para o Poesia Retrô, aliás, nosso primeiro selo (na verdade, o primeiro selo era um que recebemos ainda em 2009, mas eu não gostara do selo).


As regras para a validade deste selo são:


A- Publicá-lo deixando visível no blog e postar as instruções

B- Indicar mais dez blogs para este selo





C-  Avisar os blogs escolhidos.


D-  Falar dez coisas sobre mim


1- O blog Poesia Retô fui fundado em março de 2009 por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger. Os primeiros participantes eram também do antigo fórum do Recanto das Letras.

2- O I E-book de Poesia Retrô foi lançado em junho do mesmo ano.

3- O endereço original do blog era ...poesiaretroapoesiadesempre.blogs.... Em agosto de 2009, por sugestão do escritor e membro Mensageiro Obscuro, a url foi convertida no endereço atual.

4- O projeto da coletânea de áudios não rolou (hahahaha)
5- Assim que foi fundado, o autoretrato de luvas de Albrech Dürer foi eleito como símbolo do grupo pioneiro em releituras histórico-literárias, o blog que pretendia resgatar as glórias da poesia clássica. Sendo assim, pode-se considerar o célebre renascentista como Solene Patrono.
6- No final de 2010, uma nova capa do blog foi elaborada por Gabriel Rübinger exibindo o pintor alemão e 8 escritores: Safo de Lesbos, Charles Baudelaire, William Shakespeare, Luís Vaz de Camões, Gregório de Mattos, Olavo Bilac, João da Cruz e Sousa e Álvares de Azevedo.

7- De março a maio, foram elaboradas capas diferentes em comemoração aos 2 anos e homenageando os escritores patronos.

8- Os parceiros do Poesia Retrô são de várias artes e campos, mas todos com o objetivo de reconstruir algo. Podemos citar o Moda de SubCulturas, o Casa do Maker, a Comunidade Literária Benfazeja, o Geleiras, dentre outros blogs/ sites de extrema qualidade. 

9- Os dois fundadores têm predileção pela cor roxa e apesar de parte do layout do blog ser desta cor por muito tempo, somente após um ano um deles descobriu a cor favorita do outro (o mais sensato já sabia)

10- Recentemente foram elaborados posts sobre as escolas literárias.

SEIVAS D'ALMA



São seivas d’alma os versos que componho,
Essências extraídas d’uma vida,
Do que restou de toda a minha lida,
Pedaços de ilusão, de amor e sonho...

Os versos que componho, pura seiva
Das minhas mágoas, dores e ferida,
E da paixão, tão louca, desmedida,
Que meus poemas todos inda eiva...

São seivas, tão chorosas, das saudades
dos tempos que sonhava mil amores,
sem conhecer, da vida, os dissabores...

Os versos que componho, sem vaidades,
Tão prenhes de tristeza e opacidades,
São seivas puras dessas minhas dores.

Brasília, 17 de Maio de 2011.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

POSSIBILIDADES DE RELEITURA DA BELLE ÉPOQUE/ PARNASIANISMO



    Assim como fiz no Romantismo, teço aqui algumas considerações sobre como reconstruir a presente escola literária. Percebi que estamos diante de um trabalho muito interessante porque uma releitura do Parnasianismo combinaria muito com nossa época em que também vivemos um preciosismo da imagem, as novas formas fixas etc

    O post é bem rápido porque penso eu que a próxima Roleta Russa e o post sobre a Belle Époque já servem como referências.


Preferência pelas formas fixas e versos regulares


Uma releitura tradicional consiste em compor sonetos alexandrinos. Passados mais de 100 anos, é possível, hoje, escrever em outras formas fixas, inclusive, formas fixas modernas. O contato com formas fixas pouco conhecidas é algo a ser descoberto para fazer uma releitura da Belle Époque.

Já imaginou a possibilidade de escrever um indriso alexandrino em características parnasianas, um FIB? Um sonetim? Eu tenho feito experimentações em indrisos e sonetos com versos de 14 sílabas com as cesuras da gaita galega (4ª, 7ª, 10ª e 14ª). Quem sabe você pode se dar ao luxo de escrever sua própria forma fixa!

Invista nas rimas ricas, cavalgamentos e particularidades métricas abordadas no texto sobre o Parnasianismo




Mitologia greco-romana e descritivismo


Muitos de nós possuímos uma devoção por mitologias fora do círculo clássico greco-romano, é interessante investir nas mitologias nórdica, egípcia, indiana e outras descrevendo personagens e fatos com uma reflexão no fim (chave de ouro)

Você deve conhecer o que está escrevendo, isto significa também estudar e ler as releituras já feitas, analisar a sonoridade dos nomes, a separação das sílabas...

Nas descrições, evite cores. Elas são mais comuns no Simbolismo. Prefira referências da origem do objeto estudado como “vaso do tempo dos deuses gregos”, “mulher das arenas romanas” etc , referências físicas e tudo que fuja do imaterial e espiritual, aspectos reservados para  a outra escola.





A arte pela arte


  A arte deve ser feita para a glória do próprio fazer artístico, a arte serve para a própria arte. Convido a relerem Quadro Artístico inserido no blog. Você pode escrever um poema sobre arte, a poesia dominando seus leitores, a metalinguagem.


Emoção contida

   A emoção deve ser discreta, nada de devaneios pelo passado greco-romano ou associar o vaso chinês à namorada. Escreva em terceira pessoa. Este primeiro passo pode ajudar a você se nortear. 



  
ALGUMAS  RELEITURAS

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A formiga

Percorre solitária o distante caminho,
em passos, trafegando... Ora, ela nunca enfada!
Pára. O destino é outro àquela caminhada,
afinal, achou um graveto para o ninho.

E segue, a luta agora é mais do que pesada,
lavanta, entre manobra, o peso em desalinho,
o corpo sofre, pois é tão pequenininho,
mas no levantamento aguenta tonelada!

Mais à frente, consegue ajuda para o encargo!
Já não sofre tanto e a velocidade aumenta.
E elas vão girando e levando em passo largo

o que seria para alguns uma tormenta!
Naquela agilidade... Ó! Que destino amargo,
o formigueiro não encontram, a pá cimenta!

Parnaíba, 18 de fevereiro de 2009.

DANIEL C. B. CIARLINI




CONTEMPLATIVO


Num lugar espectral reza um cartuxo,
Em silêncio sublime lá na cela...
Uma imagem tão simples e sem luxo:
Contemplar a Palavra santa e bela!


Entoa um canto nosso irmão capucho,
Irradiando a gélida capela...
Ícone que recrio e que o repuxo
Num soneto sem dor ou vil querela!


Os livros que viraram seu sacrário...
Segue lendo sonhando solitário,
Talvez tenha um passado assim lascivo...      


Contudo fica ali contemplativo,
Sem remorso ou sutil medo infortuno
O monge simples da Ordem de São Bruno.

                                                          
Rommel Werneck


O RETORNO DOS DEUSES
Filipe Cavalcante

E num instante, tudo interrompido.
Tudo parou, calou-se, viu, ouviu...
Segundo antes de tudo acontecido...
Sentindo o espanto,
quem reagiu?

Calou-se o vento, as nuvens se quedaram,
o farfalhar das árvores parou.
Aves, leões, serpentes se aquietaram.
Cada animal
Observou

Aquietaram-se os mares revoltosos
e cessaram as ondas do oceano.
Os navegantes, meio temerosos,
sentiram algo
de sobre-humano

Nos campos e cidades a inquietude
da vida humana em louco movimento –
máquinas, força, gente – por virtude
do acontecido
cessa um momento.

E num relâmpago que não saído
havia de qualquer nuvem, o mundo
viu luz maior que o Sol. Foi tão comprido
de luz de glória
esse segundo!

E então veio o trovão, e aquele estrondo
se ouviu por todo o mundo – céus e terras.
Soou mais do que todos juntos pondo,
mais do que as forças,
mais do que as guerras.

Todo olho viu e todo ouvido ouviu.
Os homens todos a fitar o céu.
E toda criatura em si sentiu
que algo lhes vinha
de trás de um véu.

E veio: o céu se encheu de um ribombar
como o som de um tropel de cavalgada.
Nos corações aquele reboar
dava em visão
glória passada.

O céu se abriu, e então se pôde ver
com os olhos de corpo e alma, enquanto
reluziu no íntimo de cada ser
um regozijo
feito um espanto.

Brandindo um raio, vinha à frente Zeus,
montado em seu corcel descomunal.
Se via pelo olhar do grande deus
que vinha para
vencer o mal.

Os mares pareceram se alegrar
ao ver depois surgindo Poseidon.
E ao ver, em seu cavalo, Hades passar,
tudo soou
funéreo tom.

Mas logo veio atrás a sábia Atena,
armada já pras lutas e pras glórias.
De perto segue-a Hera. Assim se acena:
poder, riqueza
seguem vitórias.

Depois, belíssima, Afrodite vem;
e o jovem Eros segue a mãe, voando.
Atrás vem Ares, belicoso, e tem
no seu semblante
o horror nefando.

E vem Apolo, e o filho Orfeu, e o doce
coro das nove Musas junto deles;
e há nesses cantos algo qual se fosse
toda a Poesia
contida neles.

Toda a corte dos deuses se seguiu,
das eras do passado ressurgida.
Aos tempos, obscura, resistiu,
e ora retorna
grande, reerguida.

Tremeu o mundo. O Olimpo então brilhou
e tudo vicejou em derredor.
A luz ao mundo todo clareou,
humano e divo
fulgor maior.


Ah! se dissipam logo os vãos temores!...
Por que temer? Isto é que sempre ansiamos!
Eis a resposta aos nossos sãos ardores!
Por que temê-lo?
Nós o esperamos!

Eis a resposta à nossa sede, enfim,
de alçar grandeza, ter saber, ver glória.
de ter virtude sendo humano, e assim,
poesia livre
do que há de escória!

E que temor os outros deuses ronda! –
os que há na terra, sobre os vãos altares.
Imagens treme a pavorosa onda,
justa vingança
dos milenares.

Por que por tanto tempo, templos vãos,
ao vosso peso os homens só curvastes?
Por que é que os desprezastes como a grãos
pelo bom Deus
que vós pregastes?

Fora ide, templos vãos, deuses imigos
do que há de grande e humano, de sublime
e livre. Longe vão vossos perigos
e o hábito vosso
de enxergar crime.

Nos templos se ouve a voz do Olimpo em brados.
Com as mãos sobre as faces em segredo,
à cava luz, entre os vitrais sagrados,
fogem imagens,
tremendo em medo.

E a luz que há sobre o Olimpo, redentora,
faz tudo ser de novo tão fecundo.
O homem é homem pela salvadora
corte dos deuses
reinar no mundo.

 

O Acender da Pira

Gabriel Rübinger


Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.
 
O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.
A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).