sexta-feira, 20 de maio de 2011

SEIVAS D'ALMA



São seivas d’alma os versos que componho,
Essências extraídas d’uma vida,
Do que restou de toda a minha lida,
Pedaços de ilusão, de amor e sonho...

Os versos que componho, pura seiva
Das minhas mágoas, dores e ferida,
E da paixão, tão louca, desmedida,
Que meus poemas todos inda eiva...

São seivas, tão chorosas, das saudades
dos tempos que sonhava mil amores,
sem conhecer, da vida, os dissabores...

Os versos que componho, sem vaidades,
Tão prenhes de tristeza e opacidades,
São seivas puras dessas minhas dores.

Brasília, 17 de Maio de 2011.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

POSSIBILIDADES DE RELEITURA DA BELLE ÉPOQUE/ PARNASIANISMO



    Assim como fiz no Romantismo, teço aqui algumas considerações sobre como reconstruir a presente escola literária. Percebi que estamos diante de um trabalho muito interessante porque uma releitura do Parnasianismo combinaria muito com nossa época em que também vivemos um preciosismo da imagem, as novas formas fixas etc

    O post é bem rápido porque penso eu que a próxima Roleta Russa e o post sobre a Belle Époque já servem como referências.


Preferência pelas formas fixas e versos regulares


Uma releitura tradicional consiste em compor sonetos alexandrinos. Passados mais de 100 anos, é possível, hoje, escrever em outras formas fixas, inclusive, formas fixas modernas. O contato com formas fixas pouco conhecidas é algo a ser descoberto para fazer uma releitura da Belle Époque.

Já imaginou a possibilidade de escrever um indriso alexandrino em características parnasianas, um FIB? Um sonetim? Eu tenho feito experimentações em indrisos e sonetos com versos de 14 sílabas com as cesuras da gaita galega (4ª, 7ª, 10ª e 14ª). Quem sabe você pode se dar ao luxo de escrever sua própria forma fixa!

Invista nas rimas ricas, cavalgamentos e particularidades métricas abordadas no texto sobre o Parnasianismo




Mitologia greco-romana e descritivismo


Muitos de nós possuímos uma devoção por mitologias fora do círculo clássico greco-romano, é interessante investir nas mitologias nórdica, egípcia, indiana e outras descrevendo personagens e fatos com uma reflexão no fim (chave de ouro)

Você deve conhecer o que está escrevendo, isto significa também estudar e ler as releituras já feitas, analisar a sonoridade dos nomes, a separação das sílabas...

Nas descrições, evite cores. Elas são mais comuns no Simbolismo. Prefira referências da origem do objeto estudado como “vaso do tempo dos deuses gregos”, “mulher das arenas romanas” etc , referências físicas e tudo que fuja do imaterial e espiritual, aspectos reservados para  a outra escola.





A arte pela arte


  A arte deve ser feita para a glória do próprio fazer artístico, a arte serve para a própria arte. Convido a relerem Quadro Artístico inserido no blog. Você pode escrever um poema sobre arte, a poesia dominando seus leitores, a metalinguagem.


Emoção contida

   A emoção deve ser discreta, nada de devaneios pelo passado greco-romano ou associar o vaso chinês à namorada. Escreva em terceira pessoa. Este primeiro passo pode ajudar a você se nortear. 



  
ALGUMAS  RELEITURAS

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A formiga

Percorre solitária o distante caminho,
em passos, trafegando... Ora, ela nunca enfada!
Pára. O destino é outro àquela caminhada,
afinal, achou um graveto para o ninho.

E segue, a luta agora é mais do que pesada,
lavanta, entre manobra, o peso em desalinho,
o corpo sofre, pois é tão pequenininho,
mas no levantamento aguenta tonelada!

Mais à frente, consegue ajuda para o encargo!
Já não sofre tanto e a velocidade aumenta.
E elas vão girando e levando em passo largo

o que seria para alguns uma tormenta!
Naquela agilidade... Ó! Que destino amargo,
o formigueiro não encontram, a pá cimenta!

Parnaíba, 18 de fevereiro de 2009.

DANIEL C. B. CIARLINI




CONTEMPLATIVO


Num lugar espectral reza um cartuxo,
Em silêncio sublime lá na cela...
Uma imagem tão simples e sem luxo:
Contemplar a Palavra santa e bela!


Entoa um canto nosso irmão capucho,
Irradiando a gélida capela...
Ícone que recrio e que o repuxo
Num soneto sem dor ou vil querela!


Os livros que viraram seu sacrário...
Segue lendo sonhando solitário,
Talvez tenha um passado assim lascivo...      


Contudo fica ali contemplativo,
Sem remorso ou sutil medo infortuno
O monge simples da Ordem de São Bruno.

                                                          
Rommel Werneck


O RETORNO DOS DEUSES
Filipe Cavalcante

E num instante, tudo interrompido.
Tudo parou, calou-se, viu, ouviu...
Segundo antes de tudo acontecido...
Sentindo o espanto,
quem reagiu?

Calou-se o vento, as nuvens se quedaram,
o farfalhar das árvores parou.
Aves, leões, serpentes se aquietaram.
Cada animal
Observou

Aquietaram-se os mares revoltosos
e cessaram as ondas do oceano.
Os navegantes, meio temerosos,
sentiram algo
de sobre-humano

Nos campos e cidades a inquietude
da vida humana em louco movimento –
máquinas, força, gente – por virtude
do acontecido
cessa um momento.

E num relâmpago que não saído
havia de qualquer nuvem, o mundo
viu luz maior que o Sol. Foi tão comprido
de luz de glória
esse segundo!

E então veio o trovão, e aquele estrondo
se ouviu por todo o mundo – céus e terras.
Soou mais do que todos juntos pondo,
mais do que as forças,
mais do que as guerras.

Todo olho viu e todo ouvido ouviu.
Os homens todos a fitar o céu.
E toda criatura em si sentiu
que algo lhes vinha
de trás de um véu.

E veio: o céu se encheu de um ribombar
como o som de um tropel de cavalgada.
Nos corações aquele reboar
dava em visão
glória passada.

O céu se abriu, e então se pôde ver
com os olhos de corpo e alma, enquanto
reluziu no íntimo de cada ser
um regozijo
feito um espanto.

Brandindo um raio, vinha à frente Zeus,
montado em seu corcel descomunal.
Se via pelo olhar do grande deus
que vinha para
vencer o mal.

Os mares pareceram se alegrar
ao ver depois surgindo Poseidon.
E ao ver, em seu cavalo, Hades passar,
tudo soou
funéreo tom.

Mas logo veio atrás a sábia Atena,
armada já pras lutas e pras glórias.
De perto segue-a Hera. Assim se acena:
poder, riqueza
seguem vitórias.

Depois, belíssima, Afrodite vem;
e o jovem Eros segue a mãe, voando.
Atrás vem Ares, belicoso, e tem
no seu semblante
o horror nefando.

E vem Apolo, e o filho Orfeu, e o doce
coro das nove Musas junto deles;
e há nesses cantos algo qual se fosse
toda a Poesia
contida neles.

Toda a corte dos deuses se seguiu,
das eras do passado ressurgida.
Aos tempos, obscura, resistiu,
e ora retorna
grande, reerguida.

Tremeu o mundo. O Olimpo então brilhou
e tudo vicejou em derredor.
A luz ao mundo todo clareou,
humano e divo
fulgor maior.


Ah! se dissipam logo os vãos temores!...
Por que temer? Isto é que sempre ansiamos!
Eis a resposta aos nossos sãos ardores!
Por que temê-lo?
Nós o esperamos!

Eis a resposta à nossa sede, enfim,
de alçar grandeza, ter saber, ver glória.
de ter virtude sendo humano, e assim,
poesia livre
do que há de escória!

E que temor os outros deuses ronda! –
os que há na terra, sobre os vãos altares.
Imagens treme a pavorosa onda,
justa vingança
dos milenares.

Por que por tanto tempo, templos vãos,
ao vosso peso os homens só curvastes?
Por que é que os desprezastes como a grãos
pelo bom Deus
que vós pregastes?

Fora ide, templos vãos, deuses imigos
do que há de grande e humano, de sublime
e livre. Longe vão vossos perigos
e o hábito vosso
de enxergar crime.

Nos templos se ouve a voz do Olimpo em brados.
Com as mãos sobre as faces em segredo,
à cava luz, entre os vitrais sagrados,
fogem imagens,
tremendo em medo.

E a luz que há sobre o Olimpo, redentora,
faz tudo ser de novo tão fecundo.
O homem é homem pela salvadora
corte dos deuses
reinar no mundo.

 

O Acender da Pira

Gabriel Rübinger


Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.
 
O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.
A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...

terça-feira, 17 de maio de 2011

BELLE ÉPOQUE - Quadro artístico - 1873





Quadro artístico


A cena é numa sala pequena e atravancada;
uma mesa redonda de livros empilhada,


um piano de um lado, e de outro um velador,
uma estante com livros, mobília multicor,


garrafas de cerveja, charutos e bolinhos,
cigarros sobre a mesa, o piano de mansinho

a gemer sob os dedos dum inspirado artista;
cinco sujeitos sérios, cravada e atenta a vista


no teclado que brota harmonias tristonhas,
ou então se alvorota em volatas risonhas.


No mocho a fronte erguida, um rapaz aloirado,
com um charuto na boca, olhar vivo, inspirado,


improvisa; distante, um outro, no sofá,
de mão no queixo, absorto, embevecido está.


Os cigarros apagam-se e esquecidos, e, frias,
no chão as cinzas caem ao som das harmonias.


Na secretária, um outro, escutando esses trinos,
escreve numa tira alguns alexandrinos.


Artistas todos são, e ali, naquela sala,
emudeceram todos; somente o piano fala.


 Celso  Magalhães, 1873

(1849-1879)


segunda-feira, 16 de maio de 2011

quero morrer por ti

Vis saudades 'inda queimam na memória
Pois és chama tão voraz... me avassala!
Partiu fugaz pra onde não posso busca-la
Marcando inicio, meio e fim da minha historia

Vagando triste, mais um mau dia se arrasta
O olhar perdido, de quem nada espera amar
Tudo que eu peço... é voltar a te abraçar
E pra alcançar, apelo a sanha nefasta

Perdoe-me Deus, se eu te suplico nesse anseio
Meu devaneio é por quem me era mais cara
Ó morte bendita, me envolva em suas trevas!

Leve-me também, pois és tu quem nos separa
Zombei da tua cara porque 'inda não veio!
Da vida eu me esgueio, porque não me levas!!!?

DÚVIDA



Perdida entre anjos sepulcrais,
Caminho sem sentir, da vida, o gosto,
A recordar o vosso jeito e rosto,
Que nunca olvidarei, bem sei, jamais...

Por entre as brumas deste morno agosto,
Andejo a lacrimar meus tristes ais...
Levando em mim as dúvidas mortais,
Se vós me amastes como hei suposto...

No sepulcral silêncio, feito louca,
Sentindo n’alma a dor da indecisão,
Gritei por vosso nome, meu querido...

Pudéreis vós ouvir minha voz rouca,
Que brota do meu imo, coração,
Vós saberíeis como hei sofrido...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Em incensos de menta dos mistérios, Fecundam os silentes negros versos...

A ilustre sonetista Florbela Espanca.



    SONETISTAS SUBLIMES       
      
                 Para todos os sonetistas...


Sonetistas sublimes... No soneto,
Desenrolam o ritmo, rima e métrica,
Em emoção contrita ou mesmo tétrica,
Revolvendo o tal texto de Sol preto.


Em incensos de menta dos mistérios,
Fecundam os silentes negros versos...
Os sonetistas, vivos nos reversos,
Banham-se nos sonetos mais etéreos...


Escalo morros, pois, como alpinista,
Almejo muitas cousas sem desdém,
Em busca de um ou uma sonetista...


Não sei se sonetista tão sublime
Sou, mas sei que procuro assim alguém
Que comigo na rima rara rime!     


Rommel  Werneck

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).