domingo, 13 de março de 2011

PERSONAS




No imo de meu ser, no eu profundo,
Eu busco desta vida os seus sentidos,
Os sentimentos bons, em mim retidos,
Dos sonhos meus aquele mais fecundo!

Nos seus espelhos vejo refletidos
Os outros lados meus, um outro mundo,
Os não sonhados sonhos meus, ao fundo,
nos seus desvãos desejos atrevidos...

Além dos sonhos meus há meus desertos,
Caminhos que não foram percorridos,
Inexplorado oásis, muitas dunas...

Perdidos de mim mesma, nas lacunas,
Se vão por entre os sonhos não vividos,
Meus outros eus por limos encobertos.

Gracias, Dudu, pelos comentários que conduziram-me a uma revisão deste soneto

sexta-feira, 11 de março de 2011

SOMBRIO



Ah! Esse amor que dentro em mim se amura,
Que assim me causa dor e desvario,
E que s’esconde quando eu o espio...
É fonte de prazer, paixão, loucura!

Eu sinto dentro d’alma tanto frio,
Profunda angústia e até mesmo gastura,
Com seu viver em meio a tal clausura,
No meu secreto mundo mui sombrio...

No fundo de minh’alma sinto medo,
Ao vê-lo sempre, sempre pelos cantos,
Perdido entre seus pejos,que são tantos!

Quisera desvelar o seu segredo!
Seu existir silente qual rochedo,
Suas razões, seus medos, desencantos....

quinta-feira, 10 de março de 2011

NOSTALGIA




Alembro-me dos tempos d’aventura,
Os mui felizes dias ao teu lado,
Que agora desentranho do passado,
Co’o coração repleno de ternura...

Tu eras jovem! Eu usava tranças!
E eu sonhava mil sonhos doirados,
Nas redes da inocência embalados...
Cobertos com um manto d’esperanças.

Na praça da igrejinha, pelos bancos,
Sentávamos juntinhos e felizes,
Sem conhecer, da vida, as cicatrizes,
Trocando entre nós olhares francos...

E a brisa deslizando em teus cabelos,
Tornavam mais fermosos teus sorrisos,
Teus lábios me roçavam, indecisos,
Envergonhados com meus tolos zelos.

Nas noites belas, céus aveludados,
Seguíamos felizes, sem malícias,
Sorvendo desse amor, suas delícias,
Pisando mil estrelas, descuidados...

Por sobre as minhas vestes alvadias,
Teus olhos deslizavam com mil pejos,
E eu me quedava morta de desejos...
Ah! Que saudades desses belos dias!

E inda sinto desse amor o lume,
E pulsa dentro em mim essa saudade,
Que chega sem detença e assim m’invade,
Deixando pelo ar o teu perfume...

Os dias se passaram! Meses! Anos!
E tudo se passou depressa, aos trancos,
E os meus cabelos já estão mui brancos,
Sofri imensa dor e desenganos...

A mim me restam soledades tantas!
Recordações dos tempos d’inocência,
Saudades tuas, esta confidência,
Lembranças belas, tristes, sacrossantas!

E ao dobrar dos sinos, que tristura!
Revejo tua imagem na neblina
Do tempo que passou, mas não termina
Com este amor que dentro em mim perdura!

quarta-feira, 9 de março de 2011

QUE ROMÂNTICO! Almeida Garrett




Este Inferno de Amar !
 
 
 
Este inferno de amar — como eu amo! 
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi? 
Esta chama que alenta e consome, 
Que é a vida — e que a vida destrói — 
Como é que se veio a atear, 
Quando — ai quando se há-de ela apagar?  


Eu não sei, não me lembra; o passado, 
A outra vida que dantes vivi 
Era um sonho talvez… —  foi um sonho — 
Em que paz tão serena a dormi! 
Oh! que doce era aquele sonhar… 
Quem me veio, ai de mim! despertar?  


Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei ...



João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett  -  in Folhas Caídas 

segunda-feira, 7 de março de 2011

INSONE




As minhas noites são vazias, tristes,
Silentes como a rosa desmaiada,
porque viver sem ti, amor, é nada,
e estou assim porque de mim partiste...

Meus dias são eterna madrugada,
Co'a dor e o pranto a mim tu me ungiste,
e sonhos meus, sem dó, tu demoliste
deixando a alma minha naufragada...

Por ti tristonha e insone as noites passo,
porque os olhos teus não posso vê-los,
pois tu não ouves meu clamor, apelos...

E mesmo insone tenho pesadelos,
nos quais rumino o teu desdém, rechaço,
e vivo a prantear o meu fracasso!

Indriso

Definitivamente...

Sou Teu por tudo, pelo tempo louco
e assim a sina é sempre a que sorri...
Sou todo o tempo insano e sossegado

nessa ebulição de amor infindo!
Assíduo, simplesmente eu sou diverso
E nesse Universo em Ti sou servo.

Sou nobre, alguém já disse, e eu já nem creio,

mas se é pra ser e ser só Teu, o sou.

Ronaldo Rhusso

QUE ROMÂNTICO! Releitura

imagem: cemitério de Woodlawn


Beau Roman
                  
Caminhando em tão ermo cemitério,
Ao som da sinfonia da falência.
Eu contemplo, dos homens, decadência
Suspirando da vida seu mistério.

Anseando da morte a triste sina.
Do cadáver, o suspense de seu leito.
O mistério do túmulo imperfeito.
E o que da doce vida traz ruina.

Considero o que traz da morte e seu grito...
O que apaga da vida o manuscrito...
E choro da existência o seu nuance.

Porém, eu me provendo dessa sorte,
Penso: Quão belo e quão lindo é a morte!
E emergido em sangue, entro em seu romance.


Por: Ronan Fernandes

V/III/MMXI
11:41 o’clock

domingo, 6 de março de 2011

DESNUDA




Aqui estou diante desses olhos vossos,
Despida de mim mesma nesta noite escura,
Não trago mais em mim tristeza, dor, candura,
E resumida estou somente à carne e ossos...

Não sou carnal! Também não sou a virgem pura...
Apenas sou alguém perdida em mil destroços,
Nada restou dos sonhos meus, dos sonhos nossos,
Distantes já se vão os tempos d’aventura...

Ah! Eu! Que tanto vos amei, e em demasia...
Nada restou em mim daquele amor d’outrora!
Há muito se apagou a chama da paixão...

E nua aqui estou! Sem pejos! Emoção!
Até a sombra minha já se foi embora,
E aqui estou sem alma, sem qualquer poesia!

DESVAIRANÇA...



Da dor eu bebi na fonte,
E senti n’alma tristura,
Quando vi tua figura
Lá no raio d’horizonte,
Atravessando uma ponte...
De ti distante, apartada,
Tão silente e amargurada,
Entre abrolhos eu penei,
Mas logo depois pensei:
Vai vir do mar a lestada!

Levo a tristeza na fronte,
Padeço nessa peleja,
Sem que a tua sombra veja
Lá no raio d’horizonte...
Só picumã! E além monte
Eu te busco, mui insonte...
Passa a vida em cavalgada
E eu na praia abandonada,
Penso prenhe d’esperança:
Pra curar tal desvairança
Vai vir do mar a lestada!


Obs: Fiz uma pequena alteração no segundo verso do desafio para que o poema ficasse todo em redondilha maior.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Décimas



Posteriormente eu vou postar outros elementos, mas eu queria seguir cada um com uma roleta russa.


Eu queria explicar sobre umas formas mais regionais e depois passar para as formas francesas, portanto,vou começar por uma das mais comuns que é a Décima.
É um estilo que se consiste em, primeiramente, em uma estrofe de 10 versos de esquema rimático ABBAACCDDC, sendo composto de versos de sete sílabas e de ritmo de livre escolha, não necessariamente constante. Esse geralmente é o mais escolhidos para os motes, geralmente de dois versos, sendo ou nos dois últimos versos da estrofe ou no quarto e último. Antigamente era-se de praxe uma quadra, sendo assim ao poeta o dever de improvisar quatro décimas com os últimos versos corresponde à quadra seguindo a ordem.



Exemplifiquemos com o mote dado pelo Dr. Raimundo Asfora, descendente de árabe, ao companheiro Otacílio Batista:

Tenho n'alma as tatuagens
Da minha origem cigana.

Apreciemos a técnica do valoroso artista, na formação das estrofes:

Fui criado entre as miragens,
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n'alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!

Os antigos personagens,
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n'alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade Soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!

Fonte:
Rubenio Marcelo





Roleta Russa,
Nesse caso consistirá o desafio em duas décimas, seguindo o escrito acima, com o seguinte mote.

Vejo nos raio d'horizonte,
vai vir do mar a lestada!

Lestada; Vento forte ou persistente que sopra de leste: “o mar está sempre inquieto e, no inverno, varrem-no procelas desfeitas, suestadas, lestadas irresistíveis”(Virgílio Varzea, Nas Ondas, p. 197).
Com as palavras:
abrolhos
1. picumã: [do tupi, apeku'mã] 1 Fuligem. 2. Teia de aranha enegrecida de fuligem: “A caliça das paredes lasca-se enegrecida, suja de fuligem, com pingentes de picumã.”(Gustavo Barroso, Terra de Sol, p. 133)
2. peleja
3. acalanto

PS: Desculpe por algumas falhas, o post foi editado.

Sutra






Faminto como o fogo dos teus olhos
Dos óleos seminais de Prometeu
É o mel incandescente dos teus lábios
Que sábios me constelam velozmente;

Famintas são as luzes de teu ventre
Que adentre o inferno rubro do teu seio
E em meio as madrugadas mais devassas
Me embraçam com quimeras adoçadas.

Os sutras revelados nos teus dedos
Já cedo me transcrevem mil delírios
Dos lírios mais lascivos sob a Lua
Tão nua quanto a aurora do teu corpo;

Do pólen transpirante da luxúria
E a fúria que respinga dos teus beijos
Flamejam as essências mais selvagens
- Imagens da Serpente em transcendência!


Fonte da foto: http://baudeespeciarias.blogspot.com/2008/06/vajra-moon.html

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).