segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Décimas



Posteriormente eu vou postar outros elementos, mas eu queria seguir cada um com uma roleta russa.


Eu queria explicar sobre umas formas mais regionais e depois passar para as formas francesas, portanto,vou começar por uma das mais comuns que é a Décima.
É um estilo que se consiste em, primeiramente, em uma estrofe de 10 versos de esquema rimático ABBAACCDDC, sendo composto de versos de sete sílabas e de ritmo de livre escolha, não necessariamente constante. Esse geralmente é o mais escolhidos para os motes, geralmente de dois versos, sendo ou nos dois últimos versos da estrofe ou no quarto e último. Antigamente era-se de praxe uma quadra, sendo assim ao poeta o dever de improvisar quatro décimas com os últimos versos corresponde à quadra seguindo a ordem.



Exemplifiquemos com o mote dado pelo Dr. Raimundo Asfora, descendente de árabe, ao companheiro Otacílio Batista:

Tenho n'alma as tatuagens
Da minha origem cigana.

Apreciemos a técnica do valoroso artista, na formação das estrofes:

Fui criado entre as miragens,
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n'alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!

Os antigos personagens,
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n'alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade Soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!

Fonte:
Rubenio Marcelo





Roleta Russa,
Nesse caso consistirá o desafio em duas décimas, seguindo o escrito acima, com o seguinte mote.

Vejo nos raio d'horizonte,
vai vir do mar a lestada!

Lestada; Vento forte ou persistente que sopra de leste: “o mar está sempre inquieto e, no inverno, varrem-no procelas desfeitas, suestadas, lestadas irresistíveis”(Virgílio Varzea, Nas Ondas, p. 197).
Com as palavras:
abrolhos
1. picumã: [do tupi, apeku'mã] 1 Fuligem. 2. Teia de aranha enegrecida de fuligem: “A caliça das paredes lasca-se enegrecida, suja de fuligem, com pingentes de picumã.”(Gustavo Barroso, Terra de Sol, p. 133)
2. peleja
3. acalanto

PS: Desculpe por algumas falhas, o post foi editado.

Sutra






Faminto como o fogo dos teus olhos
Dos óleos seminais de Prometeu
É o mel incandescente dos teus lábios
Que sábios me constelam velozmente;

Famintas são as luzes de teu ventre
Que adentre o inferno rubro do teu seio
E em meio as madrugadas mais devassas
Me embraçam com quimeras adoçadas.

Os sutras revelados nos teus dedos
Já cedo me transcrevem mil delírios
Dos lírios mais lascivos sob a Lua
Tão nua quanto a aurora do teu corpo;

Do pólen transpirante da luxúria
E a fúria que respinga dos teus beijos
Flamejam as essências mais selvagens
- Imagens da Serpente em transcendência!


Fonte da foto: http://baudeespeciarias.blogspot.com/2008/06/vajra-moon.html

Ceia Cósmica





Fantasmas já cozinham nos meus cérebros
Palavras e algarismos temperados
Com molho de laranjas estelares
Servindo suas caldas de silício
Nas presas cintilantes da garganta.

Batida de galáxias e asteroides
Sorriem gravidade adocicada
Ao núcleo dos meus olhos invertidos
Jorrando lux æterna nos meus lábios
Queimados pelo gelo dos cometas.

Saturno, a garçonete, traz a ceia:
Pudim incandescente de quasares
Tecidos com maçãs cristalizadas
De insônia em sua astral banho-maria

E enxofre salpicado de demência.



29/12/10

QUE ROMÂNTICO! Soares de Passos




O NOIVADO DO SEPULCRO


BALADA


Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.


Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.



Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.


Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:


"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?


"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?


"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!


"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.


"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!


- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.


Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.


"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.


"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?


"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
- "Oh vejo sim... recordação fatal!
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.


"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"


E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.


Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.


Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.


SOARES DE PASSOS

sábado, 26 de fevereiro de 2011

ANTÔNIO CONSELHEIRO








"Antônio Conselheiro", por Caribé
Link da imagem
_____________________


Barbudo, maltrapilho, triste e imundo,
vagava errante como um ermitão.
Um louco, por fugir da dor do mundo;
um santo, por pregar a salvação.


No espírito doído e furibundo
trazia toda a mágoa do sertão,
quando anunciava vir do mar profundo,
pra o trono retomar, Dom Sebastião.


Na terra áspera e seca foi profeta,
o Conselheiro, cuja luz projeta
a Paz pela irmandade e santidade.


Vimos contra o opressor brandir o emblema,
cair, morrer, rugindo na ânsia extrema
pelo Império de Deus e da igualdade.


Filipe Cavalcante
17.10.2010

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Releitura romântica





ANJO MORTO


Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.


Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto,
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.


Apetecido, surge ele tão vivo,
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,


E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos!


Rommel Werneck



Pasta Anjo Morto - Fundação Biblioteca Nacional - 2008

 Publicado no Recanto das Letras originalmente 

Há um blog que não cita meu nome após o soneto. 
 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Gonçalves Dias




A noite

 
                                                                                                      Noite, melhor que o dia, quem não te ama!
Quem não vive mais brando em teu regaço!

Filinto

Eu amo a noite solitária e muda,
Quando no vasto céu fitando os olhos,
Além do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço,
Como em salas de esplêndido banquete
Mil tochas aromáticas ardendo
Entre nuvens d'incenso!


Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce mudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
Notas de etéreas harpas.


Eu amo a noite taciturna e queda!
Então parece que da vida as fontes
Mais fáceis correm, mais sonoras soam,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre, — que então mais funda e leve a fonte
Mana, — e que os sons então mais doce e triste
Da música se espargem.


O peito aspira sôfrego ar de vida,
Que da terra não é; qual flor noturna,
Que bebe orvalho, ele se embebe e ensopa
Em êxtase de amor:
Mais direitas então, mais puras devem,
Calada a natureza, a terra e os homens,
Subir as orações aos pés do Eterno
Para afagar-lhe o trono!


Assim é que no templo majestoso
Reboa pela nave o som mais alto,
Quando o sacro instrumento quebra a augusta
Mudez do santuário;
Assim é que o incenso mais direito
Se eleva na capela que o resguarda,
E na chave da abóbada topando,
Como um dossel, se espraia.


Eu amo a noite solitária e muda;
Como formosa dona em régios paços,
Trajando ao mesmo tempo luto e galas
Majestosa e sentida;
Se no dó atentais, de que se enluta,
Certo sentis pesar de a ver tão triste;
Se o rosto lhe fitais, sentis deleite
De a ver tão bela e grave!


Considerai porém o nobre aspecto,
E o porte, e o garbo senhoril e altivo,
E as falas poucas, e o olhar sob'rano,
E a fronte levantada:
No silêncio que a veste, adorna e honra,
Conhecendo por fim quanto ela é grande,
Com voz humilde a saudarei rainha,
Curvado e respeitoso.


Eu amo a noite solitária e muda,
Quando, bem como em salas de banquete
Mil tochas aromáticas ardendo,
Giram fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ela difunde,
E o rorante frescor caindo em pér'las,
E a mágica mudez que tanto fala,
E as sombras transparentes!


Oh! quando sobre a terra ela se estende,
Como em praia arenosa mansa vaga;
Ou quando, como a flor dentre o seu musgo,
A aurora desabrocha;
Mais forte e pura a voz humana soa,
E mais se acorda ao hino harmonioso,
Que a natureza sem cessar repete,
E Deus gostoso escuta.
  

Gonçalves Dias 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUE ROMÂNTICO! Álvares de Azevedo





CANTIGA

I

Em um castelo doirado
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.


Adormeceu-a, sonhando,
Um feiticeiro condão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
 

Dorme a lâmpada argentina
Defronte do leito seu;
Noite a noite a lua triste
Vem espreitá-la do céu.
 

Voam os sonhos errantes
Do leito sob o dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
 

E no castelo, sozinha,
Dorme encantada donzela...
Nasceu; e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.
 

Dormem cheirosas, abrindo,
As roseiras em botão...
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
 
II

A donzela adormecida
É a tua alma, santinha,
Que não sonha nas saudades
E nos amores da minha.
 

— Nos meus amores que velam
Debaixo do teu dossel
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
 

Acorda, minha donzela,
Foi-se a lua, eis a manhã
E nos céus da primavera
É a aurora tua irmã.

Abriram no vale as flores
Sorrindo na fresquidão:
Entre as rosas da campina
Abram-se as do coração.
 

Acorda, minha donzela,
Soltemos da infância o véu...
Se nós morrermos num beijo,
Acordaremos no céu.


Álvares de Azevedo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FANTASIA



Que tal sairmos juntos quais crianças,
Fazendo pelo mundo danadice,
E tudo que se diz que é tolice...
Você de calças curtas, eu de tranças.

Que tal catarmos juntos pirilampos,
E borboletas lindas, cintilantes,
Com suas asas leves, flutuantes,
Correndo livres pelos verdes campos...

Poder gritar, correr, amar, chorar,
Sem se importar se é certo ou loucura...
Roubar lá do vizinho a doce amora!

Seria muito mágico brincar,
Tais quais crianças cheias de candura,
Sem mil malícias n’alma, como agora!

QUE ROMÂNTICO! Castro Alves

Mulher na rede. Coubert



Adormecida

 

"Ses longs cheveux épars Ia couvrent tout entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière,
Et qu'elle va Ia faire en s'éveillant demain."
(A. de Musset)



Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.


De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.


Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...


Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!


E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...


Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!..."



CASTRO ALVES

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

SAUDADE E SOLIDÃO



No vale da saudade eu me perdi,
Vaguei por seus recantos tantas luas,
Lembrando-me de ti nas horas nuas,
Dos anos que contigo dividi...

E um dia tu partiste e eu parti.
Vaguei por tantos cantos, becos ruas...
A lua e eu, tristonhas e sós, nós duas!
Será que tu sofreste? Eu sofri!

E assim estou! Caminho contra o vento,
Levando dentro em mim melancolia,
Tristeza, solidão, saudade imensa!

No vale em que caminho a névoa é densa!
A dor que sinto em mim me anestesia...
Quisera esquecer-te! Mas nem tento...

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).