domingo, 13 de fevereiro de 2011

CARTA I OU "O OFÍCIO DO POETA"


 

"Por que", dizei, "deixar correr o tempo,
atrás de esforços vãos na dura lida,
pedra por pedra no bater da obra,
no ofício que já muitos trabalharam?
Bem mais afável é fruir do leve
descanso, aproveitar do que foi feito,
e ter nas mãos a obra concluída."
Dizeis porque acinzelar a rocha
de fato é trabalhoso, e desse modo
é o trabalho de quem tange a lira.
Quem desejar cantar seus próprios versos,
terá de atravessar profundos vales,
terá de estradar por matas ermas,
e pélagos saltar, sem abater-se.
Terá de carregar sobre suas costas
a dor e o sofrimento desse mundo,
terá de ver a dor, mantendo o brilho
nos olhos, como a vela rasga a noite.
Se sofrimento for, bendito seja;
não há melhor prazer que criar versos,
depois cantar - e uma tempestade
arrebatar a alma em mil matizes,
com tal arroubo que o céu descende
ao chão, e o corpo em plumas se desmancha.

Gabriel Rübinger 

NIMBUS


Nimbos de bronze que empanais escuros
O santuário azul da Natureza,
Quando vos vejo, negros palinuros
Da tempestade negra e da tristeza...

Augusto dos Anjos

***

Nimboso dia prenhe de tristeza,
De atra solidão tenaz, profunda,
Que a mim me torna frágil, iracunda,
Perdida e só no limo da escureza...

Ah! Triste dia! Sórdido! Nimboso!
Que arranca d’alma lúgubres lamentos...
Tantos penares! Tantos! Sem alentos!
Funesto dia, frio e angustioso...

Faminto dia que devora tudo,
Vorace dia escuro e mui sanhudo,
que esgarça os sonhos todos, as quimeras...

Nimboso dia! Quero que te vás!
Eu necessito tanta, tanta paz...
E a luz do sol! E belas primaveras!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

VOLÚPIA


VOLÚPIA



Tomados d'amor e paz
trocaram doces carícias
sem pressa, sem compromisso...

E trocaram beijo audaz,
depois de tantas primícias,
emanando tanto viço...

E no véu da noite, espesso,

Tocaram-se pelo avesso!



Arte: Omar Rayo

EXERCÍCIO HORIZONTAL


Trata-se de uma proposta de criação coletiva. O indriso abaixo de poucas sílabas deve ser expandido para as laterais, portanto, entenda-se a aplicação de metros maiores. POde-se expandir o verso antes, durante ou após as expressões.

Convém primeiro escrever o verso sem pensar muito na questão de métrica e rima. Num segundo tratamento, revisa-se o texto. Basta inserir as respostas, continuações nos comentários.




 TÍTULO



virgens pálidas
sobre o túmulo
meu pesadelo


alvuras de trevas
brasas aquáticas
e perto


vertendo lágrimas


rindo de mim


SONHAR?



Mas para que sonhar? Manter quimera?
Se tudo acaba! Cai na mesma vala!
Se a vida, torpe e vil, nos avassala,
Se o tempo todo sonho dilacera...

Sonhar? Eu juro que sonhar quisera!
Mas todo sonho morre e assim se cala,
tal qual a rosa que se despetala,
em plena vida, plena primavera!

Se tudo é quimera! Morre o sonho!
Se a morte vive ali, na ante-sala,
À espera desses sonhos, impiedosa!

Não há porque viver esperançosa,
Se a morte faz da vida uma vassala,
E do viver um fado tão bisonho.

Tela: Omar Rayo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Em tal busca, teria sido absolutamente impossível que escapasse a palavra "never more". De fato, foi ela a primeira que se apresentou." Edgar Allan Poe


        


"Segue no link o ilustre texto no qual o corvo estadunidense Edgar Allan Poe explica o processo de criação de seu longo poema. Pensei na hipótese de ler e refletir sobre o texto e quem se interessar elaborar sua "filosofia da composição", uma explicação de como elaborou e construiu seu poema. 

Que romântico!"



QUEIXUME



E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...

Florbela Espanca

***


A vida se passou nos vãos do tempo vil,
Depressa como a doce brisa vem e passa,
Deixando dentro em mim somente dor, fumaça,
E tantos sonhos mortos, tanta dor hostil!

Felicidade foi tão pouca, mui escassa,
Eu nem a vi, pois foi tão rara, foi sutil,
A vida foi passando a cada mês de abril
E agora estou cansada dessa vil devassa...

Os dias se passaram! Foram tristes! Rudos!
De nada a mim valeram todos meus escudos,
Saí ferida dentro de meu próprio ninho...

Ficaram pelo ar as sobras de carinho,
O colo da saudade, onde eu me aninho,
Perdidos em meus lábios tantos beijos mudos!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

NOSSO LIVRINHO

 Escrevendo a postagem sobre nossa antologia.


No fim do ano passado, cogitamos a hipótese de realizar uma antologia. Tenho conversado com a editora Renata de Mattos, gráfica que faz parceria com a Literata. O negócio é o seguinte, precisamos montar um projeto de livro como se fosse um livro solo, apesar de ser coletivo.


Precisamos montar um projeto de livro (poesias, prefácio, biografias, índice etc) e enviar para sabermos o orçamento sem compromisso. Precisamos também estipular um número de páginas por autor, preferível o sistema de páginas do que textos já que alguns poemas são longos.

Se, por exemplo, eu quiser ficar com 10 páginas, o canto real que estou planejando ficará em duas páginas. Além das 10 páginas, uma pequena foto com biografia. Também seria necessário estipular a quantidade de livros que cada autor receberia etc

Quanto à organização ficaria a cargo de mim e do Gabriel. Penso que Gabriel poderia ajeitar a diagramação e eu cuidar do contato com a editora. Hilton faria o prefácio como já tínhamos combinado, caso aceite. A seleção de textos fica a cargo de cada escritor, embora, penso eu, queria legal termos uma diversidade, por exemplo: indrisos, sonetos, versos livres, ghazais etc e aí existem aqueles textos que sempre nos lembramos.

A questão é que para saber quanto sairia por autor, seria necessário realizar um piloto do livro. Caso a proposta editorial não agrade o grupo, podemos mudar de editora, caso assim prefiram.


CANSAÇO




Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

Augusto dos Anjos



Cansada vou levando a cruz das minhas dores,
Pisando as minhas mágoas, dissabores tantos,
Na alfombra dos meus prados tristes, sem verdores,
Aonde jazem os sonhos meus, os meus encantos...

A minha vida é jardim sem cor, olores...
Distante vou perdida nestes meus recantos,
A ruminar as minhas mágoas, dissabores,
Secando as relvas verdes com meus tristes prantos...

Em minha estrada não diviso qualquer luz!
E nada vejo além de minhas próprias fráguas...
Repiso a minha dor, morrendo dentro em mim!

E repisando meus caminhos sigo assim,
Exausta de chorar, cansada dessas mágoas,
A carregar, de minhas dores, essa cruz!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DESCANSE EM PAZ EM VOSSA ÚLTIMA MORADA

A esfinge, Franz von Stuck

Volto aqui, adorável Margarida,
Empunhando meu velho alaúde
Que embalou nossa triste despedida.
Companheiro de minha solitude,

Instrumento fiel por toda vida,
Desde quando jazias no ataúde.
Fui expulso da aldeia confrangida,
Acusado de ter vossa virtude,

Encantado ao toque de meu plectro.
Acontece que, hoje, eu espectro,
Retornei sem um ganho, sem um lucro,

Pondo fim (e que fim) à solidão,
Entoando já morto uma canção
De tristeza, vagando em teu sepulcro.

FASCINAÇÂO




De longe vejo o vosso pálido semblante
Que mui a mim me encanta e tanto me seduz,
Razão de ser dos pobres versos que compus,
De meu viver assim tristonho e soluçante...

Oh! Anjo meu! O vosso olhar é minha cruz!
Diamantino olhar, tal qual punhal cortante,
Bem mais profundo que o mar verde ondulante...
E que nas minhas trevas é luar! É luz!

Quisera ao lado vosso ser feliz, sonhar...
Seguir convosco até o fim de minha aurora,
E ter o vosso amor, o vosso bem querer.

Oh! Anjo meu! Razão do meu penar! Sofrer!
Quisera eu morrer embalsamada agora
Pelo perfume vosso... Pelo vosso olhar...

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).