sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

VOLÚPIA


VOLÚPIA



Tomados d'amor e paz
trocaram doces carícias
sem pressa, sem compromisso...

E trocaram beijo audaz,
depois de tantas primícias,
emanando tanto viço...

E no véu da noite, espesso,

Tocaram-se pelo avesso!



Arte: Omar Rayo

EXERCÍCIO HORIZONTAL


Trata-se de uma proposta de criação coletiva. O indriso abaixo de poucas sílabas deve ser expandido para as laterais, portanto, entenda-se a aplicação de metros maiores. POde-se expandir o verso antes, durante ou após as expressões.

Convém primeiro escrever o verso sem pensar muito na questão de métrica e rima. Num segundo tratamento, revisa-se o texto. Basta inserir as respostas, continuações nos comentários.




 TÍTULO



virgens pálidas
sobre o túmulo
meu pesadelo


alvuras de trevas
brasas aquáticas
e perto


vertendo lágrimas


rindo de mim


SONHAR?



Mas para que sonhar? Manter quimera?
Se tudo acaba! Cai na mesma vala!
Se a vida, torpe e vil, nos avassala,
Se o tempo todo sonho dilacera...

Sonhar? Eu juro que sonhar quisera!
Mas todo sonho morre e assim se cala,
tal qual a rosa que se despetala,
em plena vida, plena primavera!

Se tudo é quimera! Morre o sonho!
Se a morte vive ali, na ante-sala,
À espera desses sonhos, impiedosa!

Não há porque viver esperançosa,
Se a morte faz da vida uma vassala,
E do viver um fado tão bisonho.

Tela: Omar Rayo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Em tal busca, teria sido absolutamente impossível que escapasse a palavra "never more". De fato, foi ela a primeira que se apresentou." Edgar Allan Poe


        


"Segue no link o ilustre texto no qual o corvo estadunidense Edgar Allan Poe explica o processo de criação de seu longo poema. Pensei na hipótese de ler e refletir sobre o texto e quem se interessar elaborar sua "filosofia da composição", uma explicação de como elaborou e construiu seu poema. 

Que romântico!"



QUEIXUME



E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...

Florbela Espanca

***


A vida se passou nos vãos do tempo vil,
Depressa como a doce brisa vem e passa,
Deixando dentro em mim somente dor, fumaça,
E tantos sonhos mortos, tanta dor hostil!

Felicidade foi tão pouca, mui escassa,
Eu nem a vi, pois foi tão rara, foi sutil,
A vida foi passando a cada mês de abril
E agora estou cansada dessa vil devassa...

Os dias se passaram! Foram tristes! Rudos!
De nada a mim valeram todos meus escudos,
Saí ferida dentro de meu próprio ninho...

Ficaram pelo ar as sobras de carinho,
O colo da saudade, onde eu me aninho,
Perdidos em meus lábios tantos beijos mudos!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

NOSSO LIVRINHO

 Escrevendo a postagem sobre nossa antologia.


No fim do ano passado, cogitamos a hipótese de realizar uma antologia. Tenho conversado com a editora Renata de Mattos, gráfica que faz parceria com a Literata. O negócio é o seguinte, precisamos montar um projeto de livro como se fosse um livro solo, apesar de ser coletivo.


Precisamos montar um projeto de livro (poesias, prefácio, biografias, índice etc) e enviar para sabermos o orçamento sem compromisso. Precisamos também estipular um número de páginas por autor, preferível o sistema de páginas do que textos já que alguns poemas são longos.

Se, por exemplo, eu quiser ficar com 10 páginas, o canto real que estou planejando ficará em duas páginas. Além das 10 páginas, uma pequena foto com biografia. Também seria necessário estipular a quantidade de livros que cada autor receberia etc

Quanto à organização ficaria a cargo de mim e do Gabriel. Penso que Gabriel poderia ajeitar a diagramação e eu cuidar do contato com a editora. Hilton faria o prefácio como já tínhamos combinado, caso aceite. A seleção de textos fica a cargo de cada escritor, embora, penso eu, queria legal termos uma diversidade, por exemplo: indrisos, sonetos, versos livres, ghazais etc e aí existem aqueles textos que sempre nos lembramos.

A questão é que para saber quanto sairia por autor, seria necessário realizar um piloto do livro. Caso a proposta editorial não agrade o grupo, podemos mudar de editora, caso assim prefiram.


CANSAÇO




Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

Augusto dos Anjos



Cansada vou levando a cruz das minhas dores,
Pisando as minhas mágoas, dissabores tantos,
Na alfombra dos meus prados tristes, sem verdores,
Aonde jazem os sonhos meus, os meus encantos...

A minha vida é jardim sem cor, olores...
Distante vou perdida nestes meus recantos,
A ruminar as minhas mágoas, dissabores,
Secando as relvas verdes com meus tristes prantos...

Em minha estrada não diviso qualquer luz!
E nada vejo além de minhas próprias fráguas...
Repiso a minha dor, morrendo dentro em mim!

E repisando meus caminhos sigo assim,
Exausta de chorar, cansada dessas mágoas,
A carregar, de minhas dores, essa cruz!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DESCANSE EM PAZ EM VOSSA ÚLTIMA MORADA

A esfinge, Franz von Stuck

Volto aqui, adorável Margarida,
Empunhando meu velho alaúde
Que embalou nossa triste despedida.
Companheiro de minha solitude,

Instrumento fiel por toda vida,
Desde quando jazias no ataúde.
Fui expulso da aldeia confrangida,
Acusado de ter vossa virtude,

Encantado ao toque de meu plectro.
Acontece que, hoje, eu espectro,
Retornei sem um ganho, sem um lucro,

Pondo fim (e que fim) à solidão,
Entoando já morto uma canção
De tristeza, vagando em teu sepulcro.

FASCINAÇÂO




De longe vejo o vosso pálido semblante
Que mui a mim me encanta e tanto me seduz,
Razão de ser dos pobres versos que compus,
De meu viver assim tristonho e soluçante...

Oh! Anjo meu! O vosso olhar é minha cruz!
Diamantino olhar, tal qual punhal cortante,
Bem mais profundo que o mar verde ondulante...
E que nas minhas trevas é luar! É luz!

Quisera ao lado vosso ser feliz, sonhar...
Seguir convosco até o fim de minha aurora,
E ter o vosso amor, o vosso bem querer.

Oh! Anjo meu! Razão do meu penar! Sofrer!
Quisera eu morrer embalsamada agora
Pelo perfume vosso... Pelo vosso olhar...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ROLETA RUSSA "QUE ROMÂNTICO"


   




TEMA: Releitura do Romantismo


PALAVRAS UTILIZADAS:

Inspirem-se no texto sobre  Releituras do Romantismo. Não sei ao certo, mas o ideal é fazer releituras do Romantismo. Talvez para este desafio e para os próximos das escolas literárias não haja a necessidade de palavras, no entanto, para orientar vou escolher algumas, caso alguém se interesse em sugerir palavras, pode fazer também nos comentários.

 - pálido (a)
 - embalsamado (a)
 - trevas
 - anjo


FORMA: 
- Versos livres;
- Isométricos;
- Polimétricos;
- Sonetos;
- Indrisos
etc





sábado, 5 de fevereiro de 2011

LAMARTINE BABO


Versátil, satírico, inusitado e bem à frente de seu tempo, Lamartine Babo foi um dos poucos compositores de sua época a criar sucessos em quase todos os estilos musicais em voga. De suas inesquecíveis marchas de carnaval até as valsas românticas, Lamartine escreveu clássicos que até hoje são cantados.


Dizer que Lamartine Babo é o compositor da Velha Guarda que hoje é mais cantado pode soar estranho. Esse posto não seria de Noel Rosa, cujos sambas são amplamente estudados, ou de um Ary Barroso, que compôs centenas de clássicos?
Os dois compositores são muito mais ouvidos hoje - isso é pura verdade - mas quem criou os hinos de futebol que estão na boca de qualquer carioca foi Lamartine Babo. Pela rua eu nunca vi alguém cantar "Serra da Boa Esperança", é verdade, mas o "Hino do Flamengo" é coisa que se vê sempre.

Lamartine nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, no mesmo ano da fundação do América Football Club, o time de futebol que ditava seu coração. Desde pequeno já imitava os instrumentos das bandas de rua, cada instrumento com um pedaço da boca ou do corpo diferente. As imitações acabaram se tornando uma de suas marcas, presente em diversas gravações, além de terem uma função de composição. Por não saber escrever em partituras, Lamartine solfejava as notas dos instrumentos para os maestros ou músicos com que estava trabalhando. Extremamente magro, de voz fina (dizia: não tenho voz, tenho vez), de porte engraçado, Lamartine tinha tudo para não ingressar no universo da música brasileira da época, de galãs com vozes poderosas e grandes orquestras.


Seus primeiros sucessos vieram com as marchinhas de carnaval, no início da década de 30, quase todas sempre na boca de Mário Reis - o compositor que dividiu o canto da música brasileira. Isso porque, antes de Mário Reis, se cantava com inclinação ao bel-canto, com a voz poderosa, mais "virtuosa". Mário Reis, que iniciou a carreira com composições de Sinhô, tinha a voz mais contida, que se aproximava mais da fala, não do canto. Outro motivo de sucesso, além de seu talento e espontaneidade, são suas melodias simples, satíricas, bem completadas, como se vê em A.E.I.O.U., de Lamartine e Noel Rosa:


Mário Reis, que cantou vários clássicos de Lamartine.
 "A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha.
A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever,
Escreve sal com cê cedilha"

E não é aí que param as sátiras. Além de adorar trocadilhos - o que o fazia popular na imprensa da época - Lamartine era o primeiro compositor no Brasil a adotar o humor nonsense. Tudo o que se podia satirizar era satirizado. Como um tango seríssimo de Discépolo, na voz de Gardel, que em suas mãos se tornou "Família Urango-tango":

"Eu não suporto as intrigas,
apenas eu cito pessoas amigas.
Mas disse alguém lá do 100
que a família Urango não paga ninguém..."


As mudanças de época são muito presentes em suas canções, onde ele colocava em contraste os tempos antigos (como preferia de chamar: tempo da vovó) e moderno, as novidades que borbulhavam em sua época. As rádios, os novos estilos musicais, os novos comportamentos - tudo isso era notado por Lamartine. As canções abundam:
Lamartine Babo ao piano.

"Rancheira é espécie de mazurca
mais velha que o morro da Urca
me faz lembrar o meu avô
nos tempos de noivado ao lado da vovó...
"
(Babo...zeira, 1932)

"Toda gente agora pode
Ser bem forte, ser um "taco"
Ser bem ágil como um bode
E ter alma de macaco.
A velhice na cidade
Canta em coro a nova estrofe,
E já sente a mocidade
Que lhe trouxe o Voronoff...
"
(Seu Voronoff, 1928)

 "Não mostres à Vovó
minha conta da pensão,
deixa a velhinha
viver na ilusão..."
(Deixa a Velhinha, 1934)

Em "Babo...zeira", além do trocadilho do título com o nome do autor, a música fala da transformação dos ranchos no samba e marcha modernos, com um gingado totalmente diferente. Em "Seu Voronoff", o cirurgião russo Serge Voronoff é o tema: suas ideias eram de intervenções cirúrgicas entre homens e animais, em busca do rejuvenescimento. Louvado na época, Voronoff logo viu suas exóticas teorias caírem por terra antes de sua morte. Já "Deixa a Velhinha" é atualíssima, e é até espantosa se forem olhados os versos "esconde essas notícias de desastre de avião...".
Mas Lamartine não perdoaria os jovens. Já na sua primeira marcha a ser gravada, "Os Calças Largas", dizia:

Dança charleston, famosa na década de 20.
"Do tal charleston é bom não se falar
Faz lembrar peru de água
Quando a gente o quer matar"

(Os Calças Largas, 1927)

Se não era da moda ou das danças, era dos costumes novos dos jovens, como o de flertar não por amor, mas por ser "bom":

"Vamos flertar, 
(oh sim!)
Beijos trocar, 

(sem fim!)
Lá no Leblon

(por quê?)
Porque é bom.
"
(Que pequena levada, 1928)

O mesmo Lamartine que logo em frente veremos idealizar a mulher (e o carnaval) era o que criticava. Em "Maria da Luz", a própria idealização era criticada - a imagem da mulher sensual ao passar da rua. Uma curiosidade é que, além do belíssimo arranjo em que Lamartine canta, é uma versão de "Whistling in the Dark", de um filme americano famoso na época.

"É um tipo esbelto de mulher
e a gente faz o que ela quer,
é mais cotada que o café
pois tem aroma até no pé...


[...]

Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós..."

(Maria da Luz, 1932)


Com a chegada da gravação, os intérpretes começaram a definir tudo o que era cantado, a fim de "direcionar" o público da música. Dos primórdios da gravação até os anos 50, era quase regra constar o gênero da música.

Selo de disco onde se vê o gênero após o título. De: outrasbossas.blogspot.com
Essa banalização era criticada por Lamartine Babo, que inventava estilos a cada nova gravação: "marcha-enxerto", "marcha digestiva"... Esse lado satírico foi o mais conhecido, através dessas marchas, clássicos que surgiam aos montes em cada carnaval. Mas não foi só nesse gênero que Lamartine foi eminente, apesar do seu humor fino trespassar toda a obra.Valsa, samba, cateretê, fox blue e toada são só alguns dos estilos por onde Lamartine Babo passou.
Dedicou-se à valsa já mais velho, após anos e mais anos de sucessos com marchas e sambas. A saudade, a idealização lírica são sempre presentes: 

"Só nos dois num salão e esta valsa
E uma orquestra de anjos divinos
Uns acordes de um toque de sinos
Nos finais desta valsa de amor."
(Só nós dois no salão (e essa valsa), 1937) 

"Mais uma valsa, mais uma saudade
De alguém que não me quis
Vivo cantando a sós pela cidade
Fingindo ser feliz"
(Mais uma valsa, mais uma saudade,  1937)

Entre a marcha e a valsa, Lamartine veio a criar suas músicas que mais fizeram sucesso: os hinos de futebol. Apaixonado pelo esporte, em 1943 criou um hino para cada clube da primeira série do campeonato, e os apresentou num programa radiofônico, obtendo enorme sucesso. A maioria dos clubes já tinha seu hino, mas os criado por Lamartine Babo são os cantados até hoje. Sua paixão, claro, era o América:

"Hei de torcer, torcer, torcer,
hei de torcer até morrer, morrer, morrer,
pois a torcida americana é toda assim
a começar por mim
a cor do pavilhão é a cor do nosso coração..."
(Hino do América, 1943)

O que não diminui a qualidade dos outros hinos. Por ser um compositor intuitivo, ele criava melodias leves, sempre bem cuidadas e que são fáceis de aprender, o que facilitou o sucesso de suas músicas. Até chegava a imitar a si mesmo, com partes de melodias quase iguais, como se vê em "Grau Dez" e "Ride Palhaço". 

Morreu em 1963, pouco antes da estréia de uma apresentação de uma grande homenagem a ele, ficando para sempre no panteão dos compositores da música brasileira.



Escolhi cinco gravações como um panorama de sua obra, que estão disponíveis para ouvir logo abaixo do texto.

"Canção para inglês ver" abriu as portas para o humor nonsense na música brasileira. A letra, que aparentemente não tem muito sentindo como um todo, critica os estrangeirismos em moda na época. Ouviremos na gravação original, de 1931, com Lamartine Babo cantando.

"Ai loviu 
forguétiscleine meini itapirú
forguetifaive 
anda u dai xeu
no bonde Silva Manuel, Manuel..." 

 

"Parei Contigo" é uma divertida crítica aos supostos amigos, que se aproveitam dos outros e depois somem. Ouviremos a gravação original, de 1934, com Mário Reis e Lamartine Babo.

"Um dia eu fui parar contigo
num hotel em casca-dura
me roubaste a dentadura..."


"No Rancho Fundo" é um clássico da nossa música. A bela letra adaptada por Lamartine Babo harmoniza perfeitamente com a música de Ary Barroso, o que deixa um ar meio rural e saudoso. Ouviremos com Elizeth Cardoso, gravação de 1956.

"No rancho fundo
bem pra lá do fim do mundo
nunca mais houve alegria
nem de noite, nem de dia.
Os arvoredos 
já não contam mais segredos
e a última palmeira
já morreu na cordilheira."


"Maria da Luz" tem uma melodia bonita, bem orquestrada. A letra de Lamartine satiriza as mulheres idealizadas, e a abertura satiriza as rádios e os bondes. Ouviremos com o próprio Lamartine, em gravação de
1932.

"Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós
"


Finalizando, "Serra da Boa Esperança", canção por demais melancólica e bela, com Francisco Alves em gravação de 1937.

"Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).