segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ROLETA RUSSA "QUE ROMÂNTICO"


   




TEMA: Releitura do Romantismo


PALAVRAS UTILIZADAS:

Inspirem-se no texto sobre  Releituras do Romantismo. Não sei ao certo, mas o ideal é fazer releituras do Romantismo. Talvez para este desafio e para os próximos das escolas literárias não haja a necessidade de palavras, no entanto, para orientar vou escolher algumas, caso alguém se interesse em sugerir palavras, pode fazer também nos comentários.

 - pálido (a)
 - embalsamado (a)
 - trevas
 - anjo


FORMA: 
- Versos livres;
- Isométricos;
- Polimétricos;
- Sonetos;
- Indrisos
etc





sábado, 5 de fevereiro de 2011

LAMARTINE BABO


Versátil, satírico, inusitado e bem à frente de seu tempo, Lamartine Babo foi um dos poucos compositores de sua época a criar sucessos em quase todos os estilos musicais em voga. De suas inesquecíveis marchas de carnaval até as valsas românticas, Lamartine escreveu clássicos que até hoje são cantados.


Dizer que Lamartine Babo é o compositor da Velha Guarda que hoje é mais cantado pode soar estranho. Esse posto não seria de Noel Rosa, cujos sambas são amplamente estudados, ou de um Ary Barroso, que compôs centenas de clássicos?
Os dois compositores são muito mais ouvidos hoje - isso é pura verdade - mas quem criou os hinos de futebol que estão na boca de qualquer carioca foi Lamartine Babo. Pela rua eu nunca vi alguém cantar "Serra da Boa Esperança", é verdade, mas o "Hino do Flamengo" é coisa que se vê sempre.

Lamartine nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, no mesmo ano da fundação do América Football Club, o time de futebol que ditava seu coração. Desde pequeno já imitava os instrumentos das bandas de rua, cada instrumento com um pedaço da boca ou do corpo diferente. As imitações acabaram se tornando uma de suas marcas, presente em diversas gravações, além de terem uma função de composição. Por não saber escrever em partituras, Lamartine solfejava as notas dos instrumentos para os maestros ou músicos com que estava trabalhando. Extremamente magro, de voz fina (dizia: não tenho voz, tenho vez), de porte engraçado, Lamartine tinha tudo para não ingressar no universo da música brasileira da época, de galãs com vozes poderosas e grandes orquestras.


Seus primeiros sucessos vieram com as marchinhas de carnaval, no início da década de 30, quase todas sempre na boca de Mário Reis - o compositor que dividiu o canto da música brasileira. Isso porque, antes de Mário Reis, se cantava com inclinação ao bel-canto, com a voz poderosa, mais "virtuosa". Mário Reis, que iniciou a carreira com composições de Sinhô, tinha a voz mais contida, que se aproximava mais da fala, não do canto. Outro motivo de sucesso, além de seu talento e espontaneidade, são suas melodias simples, satíricas, bem completadas, como se vê em A.E.I.O.U., de Lamartine e Noel Rosa:


Mário Reis, que cantou vários clássicos de Lamartine.
 "A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha.
A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever,
Escreve sal com cê cedilha"

E não é aí que param as sátiras. Além de adorar trocadilhos - o que o fazia popular na imprensa da época - Lamartine era o primeiro compositor no Brasil a adotar o humor nonsense. Tudo o que se podia satirizar era satirizado. Como um tango seríssimo de Discépolo, na voz de Gardel, que em suas mãos se tornou "Família Urango-tango":

"Eu não suporto as intrigas,
apenas eu cito pessoas amigas.
Mas disse alguém lá do 100
que a família Urango não paga ninguém..."


As mudanças de época são muito presentes em suas canções, onde ele colocava em contraste os tempos antigos (como preferia de chamar: tempo da vovó) e moderno, as novidades que borbulhavam em sua época. As rádios, os novos estilos musicais, os novos comportamentos - tudo isso era notado por Lamartine. As canções abundam:
Lamartine Babo ao piano.

"Rancheira é espécie de mazurca
mais velha que o morro da Urca
me faz lembrar o meu avô
nos tempos de noivado ao lado da vovó...
"
(Babo...zeira, 1932)

"Toda gente agora pode
Ser bem forte, ser um "taco"
Ser bem ágil como um bode
E ter alma de macaco.
A velhice na cidade
Canta em coro a nova estrofe,
E já sente a mocidade
Que lhe trouxe o Voronoff...
"
(Seu Voronoff, 1928)

 "Não mostres à Vovó
minha conta da pensão,
deixa a velhinha
viver na ilusão..."
(Deixa a Velhinha, 1934)

Em "Babo...zeira", além do trocadilho do título com o nome do autor, a música fala da transformação dos ranchos no samba e marcha modernos, com um gingado totalmente diferente. Em "Seu Voronoff", o cirurgião russo Serge Voronoff é o tema: suas ideias eram de intervenções cirúrgicas entre homens e animais, em busca do rejuvenescimento. Louvado na época, Voronoff logo viu suas exóticas teorias caírem por terra antes de sua morte. Já "Deixa a Velhinha" é atualíssima, e é até espantosa se forem olhados os versos "esconde essas notícias de desastre de avião...".
Mas Lamartine não perdoaria os jovens. Já na sua primeira marcha a ser gravada, "Os Calças Largas", dizia:

Dança charleston, famosa na década de 20.
"Do tal charleston é bom não se falar
Faz lembrar peru de água
Quando a gente o quer matar"

(Os Calças Largas, 1927)

Se não era da moda ou das danças, era dos costumes novos dos jovens, como o de flertar não por amor, mas por ser "bom":

"Vamos flertar, 
(oh sim!)
Beijos trocar, 

(sem fim!)
Lá no Leblon

(por quê?)
Porque é bom.
"
(Que pequena levada, 1928)

O mesmo Lamartine que logo em frente veremos idealizar a mulher (e o carnaval) era o que criticava. Em "Maria da Luz", a própria idealização era criticada - a imagem da mulher sensual ao passar da rua. Uma curiosidade é que, além do belíssimo arranjo em que Lamartine canta, é uma versão de "Whistling in the Dark", de um filme americano famoso na época.

"É um tipo esbelto de mulher
e a gente faz o que ela quer,
é mais cotada que o café
pois tem aroma até no pé...


[...]

Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós..."

(Maria da Luz, 1932)


Com a chegada da gravação, os intérpretes começaram a definir tudo o que era cantado, a fim de "direcionar" o público da música. Dos primórdios da gravação até os anos 50, era quase regra constar o gênero da música.

Selo de disco onde se vê o gênero após o título. De: outrasbossas.blogspot.com
Essa banalização era criticada por Lamartine Babo, que inventava estilos a cada nova gravação: "marcha-enxerto", "marcha digestiva"... Esse lado satírico foi o mais conhecido, através dessas marchas, clássicos que surgiam aos montes em cada carnaval. Mas não foi só nesse gênero que Lamartine foi eminente, apesar do seu humor fino trespassar toda a obra.Valsa, samba, cateretê, fox blue e toada são só alguns dos estilos por onde Lamartine Babo passou.
Dedicou-se à valsa já mais velho, após anos e mais anos de sucessos com marchas e sambas. A saudade, a idealização lírica são sempre presentes: 

"Só nos dois num salão e esta valsa
E uma orquestra de anjos divinos
Uns acordes de um toque de sinos
Nos finais desta valsa de amor."
(Só nós dois no salão (e essa valsa), 1937) 

"Mais uma valsa, mais uma saudade
De alguém que não me quis
Vivo cantando a sós pela cidade
Fingindo ser feliz"
(Mais uma valsa, mais uma saudade,  1937)

Entre a marcha e a valsa, Lamartine veio a criar suas músicas que mais fizeram sucesso: os hinos de futebol. Apaixonado pelo esporte, em 1943 criou um hino para cada clube da primeira série do campeonato, e os apresentou num programa radiofônico, obtendo enorme sucesso. A maioria dos clubes já tinha seu hino, mas os criado por Lamartine Babo são os cantados até hoje. Sua paixão, claro, era o América:

"Hei de torcer, torcer, torcer,
hei de torcer até morrer, morrer, morrer,
pois a torcida americana é toda assim
a começar por mim
a cor do pavilhão é a cor do nosso coração..."
(Hino do América, 1943)

O que não diminui a qualidade dos outros hinos. Por ser um compositor intuitivo, ele criava melodias leves, sempre bem cuidadas e que são fáceis de aprender, o que facilitou o sucesso de suas músicas. Até chegava a imitar a si mesmo, com partes de melodias quase iguais, como se vê em "Grau Dez" e "Ride Palhaço". 

Morreu em 1963, pouco antes da estréia de uma apresentação de uma grande homenagem a ele, ficando para sempre no panteão dos compositores da música brasileira.



Escolhi cinco gravações como um panorama de sua obra, que estão disponíveis para ouvir logo abaixo do texto.

"Canção para inglês ver" abriu as portas para o humor nonsense na música brasileira. A letra, que aparentemente não tem muito sentindo como um todo, critica os estrangeirismos em moda na época. Ouviremos na gravação original, de 1931, com Lamartine Babo cantando.

"Ai loviu 
forguétiscleine meini itapirú
forguetifaive 
anda u dai xeu
no bonde Silva Manuel, Manuel..." 

 

"Parei Contigo" é uma divertida crítica aos supostos amigos, que se aproveitam dos outros e depois somem. Ouviremos a gravação original, de 1934, com Mário Reis e Lamartine Babo.

"Um dia eu fui parar contigo
num hotel em casca-dura
me roubaste a dentadura..."


"No Rancho Fundo" é um clássico da nossa música. A bela letra adaptada por Lamartine Babo harmoniza perfeitamente com a música de Ary Barroso, o que deixa um ar meio rural e saudoso. Ouviremos com Elizeth Cardoso, gravação de 1956.

"No rancho fundo
bem pra lá do fim do mundo
nunca mais houve alegria
nem de noite, nem de dia.
Os arvoredos 
já não contam mais segredos
e a última palmeira
já morreu na cordilheira."


"Maria da Luz" tem uma melodia bonita, bem orquestrada. A letra de Lamartine satiriza as mulheres idealizadas, e a abertura satiriza as rádios e os bondes. Ouviremos com o próprio Lamartine, em gravação de
1932.

"Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós
"


Finalizando, "Serra da Boa Esperança", canção por demais melancólica e bela, com Francisco Alves em gravação de 1937.

"Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PLANGENTE (II)




Os sinos dobram! Choram reticentes, tristes!
Revejo a vossa imagem a caminhar no adro,
Por trás do véu dos tempos idos, mui cendrado...
Co’as vestes noturnais do dia em que partistes.

Invocam, dentro em mim, o dobre dos finados,
Anunciando a vossa morte e despedida,
Em lúgubres lamentos vindos lá da ermida,
Que se somaram aos meus, profundos, enlutados.

Os sinos dobram tristes! Choram reticentes!
E as minhas noites, como eles, são plangentes,
Jamais eu fui feliz depois de vosso adeus...

Saudades eternais residem dentro em mim!
E hão de ir comigo até meu pobre fim,
E vivereis em mim, nos tristes sonhos meus...

NAS MORTALHAS DA NOUTE

Nas Mortalhas da Noute


Nas mortalhas marmóreas desta noute,
Enlutado nas fúnebres caladas
Qu'eu vejo-me a planger mágoas choradas,
Vergastando-me deste mesmo açoute...

Recordo-me das noutes que ficaram
Somente nas lembranças e nos sonhos.
Os meus anouteceres são tristonhos;
As noutes que eu almejo não voltaram...

Já m'esbate o semblante a nostalgia,
Faz de mim um cadáver inda vivo
Velado na mortalha desta noute...

Continuo a chorar, em agonia,
Sobre o leito de mármore nocivo
Desd'o princípio da mortal sonoute...

(Dueto de Derek Soares Castro e Alysson Rosa)

A OUTRA




No infinito território de meu ser,
Que pouco a pouco exploro,
Encontrei “a outra”
Parte sufocada de mim mesma.
Percebi que não me conhecia.
Na parcela de meu chão interior
que me foi destinada a viver
- que se torna insuficiente dia a dia -
a descobri aos poucos...
Estranhei-me.
Tive que aprender a falar
comigo mesma...
e conhecer esse universo
que me foi negado à vida.
Viajei para espaços longínquos
De mim mesma...
Penetrei nesse universo desconhecido,
Aprendi a ver de novo
O que dava por entendido...
Pouco a pouco invado e tomo posse
Rompendo as cercas,
as fronteiras de meu ser,
num exercício infinito...
Por vezes, ao anoitecer
Quero ficar só,
E já não é mais possível!
Quando meu eu exausto quer silencio
O meu eu sufocado
quer dialogar comigo...

CICLOS (IV)




Mil sonhos eu bordei nos meus lençóis de seda,
Alabastrina seda, com seus mil primores,
Bordei co’s fios doirados cândidos amores,
Nas noites de ilusão, nas minhas horas ledas.

Mil arabescos fiz co’s fios dos meus desejos,
Co’as rendas da paixão, de minhas mil quimeras,
No auge do viver, de minhas primaveras,
Que hoje canto assim, quais velhos realejos.

Ah! Priscos tempos! Prenhes de prazer! Ventura!
De tantos sonhos meus, replenos de candura...
Álacres tempos que não voltarão jamais!

A vida esgarçou os meus lençóis bordados,
Os sonhos que sonhei nos tempos meus doirados,
Deixando dentro em mim tristuras outonais.

POSSIBILIDADES DE RELEITURA DO ROMANTISMO



Como escrevi recentemente sobre a Escola Romântica, nada mais justo do que estudar as possibilidades de realizar hoje uma produção baseada nos moldes românticos. Seguem as características e comentários.

Ao contrário do que ocorre com outras escolas literárias, não há a necessidade de fundir todas as características para se obter algo com um ar romântico. Basta aderir a umas características e você produzirá algo do gênero.



- Forma: métrica e rima


O Romantismo não tinha predileção por sonetos, embora tenhamos belíssimas produções.  Podemos compor sonetos com inspiração romântica sem problemas. Apenas, atente-se para que seu texto não fique com um ar gótico-parnasiano, o que também é ótimo, mas se seu plano consiste em realizar uma releitura do Romantismo, deve existir um apelo ao emocional, seguir outras características etc
Outra possibilidade no que tange forma é escrever com refrão em outro metro, mantendo uma regularidade na forma, isto é algo típico da época. Textos longos em versos livres ou heterométricos também são interessantes.


- Eu

 Estamos estudando a escola literária do individualismo, portanto a visão totalmente egocêntrica e subjetiva é essencial para o poema. Utilizar termos como “meus amores”, “fizeste-me mal”, “eu estou sozinho” é algo importante a se lembrar, afinal, o egocentrismo não se estrutura somente em torno do pronome reto “eu” e sim também de outras marcas da 1ª pessoa como pronomes possessivos e verbos.



- Sentimentalismo e Idealizações

Virgens pálidas, príncipes encantados, belas adormecidas, sonhos azuis e coisas do gênero, com certeza, são características românticas. Uso de expressões como “Oh” “Ah” revelam a expressividade e o exagero.

O pessimismo ultra-romântico pode vir acompanhado de elementos da cultura gótica como cemitérios, soirées (o nome da "balada" da época), saraus, o próprio termo "balada" afinal, referências modernas podem revelar um outro tipo de releitura.


- Interação com a natureza

A melhor forma é colocando elementos da natureza de acordo com o estado de espírito do eu-lírico. Tempestades, dias de neblina, eclipses, trovões, o nascimento do Sol etc podem ser usados para complementar, compor a atmosfera do eu-lírico. Neste tópico, também fica subentendido o culto ao noturno. Fazer perguntas para os elementos da natureza é algo bem-vindo, mas pode tornar-se medieval se a tal pergunta ocorrer sempre no fim de estrofe, como uma cantiga.

- Passado

Lembranças, nostalgias, desejo de voltar no tempo são elementos muito próximos de nós e creio que combinam com a proposta romântica. Historicismo, medievalismo e indianismo podem dar a seu texto um ar típico do início do Romantismo.

- Religiosidade

Ao invés do conflito interno típico do Barroco, a religiosidade pode servir como consolo. Convém ler Gonçalves de Magalhães e Álvares de Azevedo.



ALGUNS POEMAS DA ÉPOCA


Versos Inscritos numa Taça feita de Crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência - curto dia -,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron
Tradução de Castro Alves



Se eu morresse amanhã


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
 

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
 

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
 

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
 
Álvares de Azevedo



Último soneto


Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
 

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
 

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
 

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
 
Álvares de Azevedo



Amor e medo


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

 
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...

 
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

 
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair cias tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.

 
É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

 
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

 
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

 
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...

 
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...

 
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

 
Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!

 
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

 
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

 
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

 
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...

 
Casimiro de Abreu


Este Inferno de Amar!


Este inferno de amar — como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… —  foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra  que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei
Mas nessa hora a viver comecei…

 

Almeida Garrett



RELEITURAS


SÚPLICA


Vem! Ó, noite! Debruça sobre mim!
recebe no colo teu sidéreo,
Nesse manto d'estrelas, tão etéreo,
A minh'alma que triste vaga assim...

Aconchega nos braços teus sem fim,
Esta andeja, meu pobre ser cinéreo,
Que morrer quer no espaço teu aéreo,
No acetinado véu que é teu, enfim...

Minh’alma quer errar nos teus espaços,
E esquecer os amores deletérios...
Ó! Deixa-me vagar em ti, ao léu!

Vem! Desejo morrer-me nos teus braços,
Mergulhar nos teus astros, teus mistérios...
Vem! Ó, noite! E me encobre com teu véu!

Edir Pina de Barros


 CRUZES MILENARES


"Cabalga en su sueño la mujer dormida,
cabalga en su sueño y es cabalgada.
En la selva, nadie la oye cuando chilla."

Isidro Iturat


Cavalguemos nos sonhos por velhos lugares
Confundindo a poesia com alvas visões
Enfrentando nos sonhos os duros vilões


E vivendo e cantando os saudosos pesares
Uma via mais sacra vai tendo seu fim
De perto ouço cantar o mais vil querubim:



"Pois tu vais viver para sempre em azares


Carregando nos ombros cruzes milenares..."



André Cretchu, Gabriel Rübinger, 
Rommel Werneck e Ronan Fernandes


Doce Alvura



Yet one kiss on your pale clay.
And those lips once so warm
- my heart! my heart!

Byron

Porque me olhas assim, pálida alvura?
Com seus olhos de cálida aventura,
Palpitante me deixa.
E com seu canto puro de harmonia,
Deixa-me mais platônico de dia
E anoite não me beija.

Com sua têz sublime e branca assim,
Que um pálido desejo lança em mim
- Ansioso - a suspirar.
E com tua harmonia mui'santíssima
Deixa-me uma certeza muito íntima:
-que os céus nos juntará.

Fujamos, doce pálida inocente!
Para um lugar que todos nos entende
E que amam nosso amor.
Saiamos dessa terra de ódio enfim
E possamos viver só com esse fim:
Amar-nos e ao - SENHOR.

Ronan Fernandes


ANJO MORTO


Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.

Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.

Apetecido, surge ele tão vivo
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,

E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos

Rommel Werneck


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Não escrevi muito porque penso que este assunto é mais fácil de compreender após a leitura de meu longo texto inicial, além do mais, muitos escritores de nosso blog já possuem uma boa caminhada com este tipo de releitura, portanto, faz-se mais necessário estudar com maior profundidade as outras escolas literárias. 
Os estudos de História da Literatura serão compostos por um texto inicial sobre a escola literária, um texto sobre as possibilidades de releitura, uma roleta russa e por fim, textos da época como suporte além de análises, inclusive, o escritor Alves Rosa prometeu escrever uma análise.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

MEDIEVA CANTIGA D'AMOR



Senhora mia, vos peço
Quem vos fala é um trovador!
Eu sou pobre e não mereço
Nem falar-vos desse amor...
Se ouvirdes os meus versos,
Minhas trovas, minha lira,
Meus sonhos neles imersos
Falar-vos-á quem suspira
De paixão no reino vosso,
quem mui sofre, quem delira.

Aqui estou a cantar
Vossa imensa fermosura
Vosso mui sereno olhar,
Tão repleno de candura...
Oh! Senhora, com respeito,
Eu versejo vossa alteza,
Vosso altivo e nobre jeito,
O vosso encanto e beleza!
Sou vassalo trovador
Que muito vos tem amor!

OH! DEIXEM-ME VIVER!




Oh!Deixem-me viver paixões diversas!
De suas chamas, quero todo o lume,
Também luxúrias, mesmo controversas
Daquelas que se vão com seu perfume...

Oh! Paixões! Mesmo que das mais adversas!
Que sejam etéreas, como é costume,
Que deixem sempre as marcas mais perversas...
Vivê-las, quero, antes que me escume...

Que sejam ais, quimeras, só loucuras...
Vivê-las quero sim! Eu quero, enfim,
Arder nas suas chamas venturosas...

Paixões eu quero ter, sem dó, censuras,
Mesmo que sejam fados, tenham fim,
como na praia as bolhas espumosas!

DESTINO ATROZ





Quanta beleza nesta alma casta!
Teus véus encobrem teu olhar, que é puro!
Louca por ti, por teus encantos, juro,
Para te amar a vida não me basta...

Qual garça que revoa em céu escuro,
Perdida na planura, que é vasta,
Busco por ti na vida que se arrasta,
Clamando por teu nome, que murmuro!

Mas tu jamais escutas meus clamores,
E nem sequer percebes meus penares,
Perdido nas estrelas do teu céu...

O teu olhar – que é puro – encobre o véu,
E tu revoas livre pelos ares,
Enquanto eu me morro assim d’amores...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

RONDEL EM DUETO EM GREGORIANO ANAPÉSTICO (3a, 6a e 9a)


Fotografia de Alex Uchôa
Customização minha


 Eras tu! Eras tu!

"Este é o tempo das barcaças.
O mar sempre resta! O mar
É a massa de modelar
Do vento fazer desgraças."
Alexei Bueno. Orae Maritimae



Eras tu que brincavas comigo
   Nos meus sonhos azuis de passados
Onde tu me dizias: amigo
       Em meus braços, nós dois recostados.



Eram tempos sacrais e encantados          
Em que o lago brilhava contigo
Eras tu que brincavas comigo
Nos meus sonhos azuis de passados



Mas Saturno (cruel inimigo)
Conseguiu nos deixar separados
Ah meu deus revelou vil castigo
A dois seres, os dois namorados
Eras tu que brincavas comigo



CRETCHU E ROMMEL WERNECK

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).