terça-feira, 25 de janeiro de 2011

NOSTALGIA




Andeja solitária dessas ermas sendas,
A semear o pranto em forma de poesia,
Eu levo dentro em mim a dor da nostalgia,
Cantada em tantos versos, tantos mitos, lendas!

Caí, ó, nostalgia, nos teus véus e rendas,
Nas fendas das saudades, da melancolia
Daquele mui distante e tão ditoso dia
Que recebi dos Deuses tão sublimes prendas!

Das prendas que, na vida, recebi dos céus
De todas, a melhor, foi conhecer o amor
Que hoje vive em mim em forma de saudade...

E se distante vai a minha mocidade
Replena de paixões, de sonhos, de fulgor,
Agora eu tenho a ti, os teus sedosos véus!

PLANGENTE




Minh’alma hoje chora, mui pranteia
Sem mais sonhar os sonhos vãos, doirados,
Daqueles outros tempos já passados,
Que agora alembro, à luz d’uma candeia...

Minh’alma e corpo já estão cansados,
Meus olhos já não veêm a lua cheia,
E minha vida em nada mais s’esteia,
Meus sonhos hoje estão amortalhados...

E lacrimosos são meus longos dias,
E minhas noites são também tristonhas,
Daqueles sonhos meus restou mais nada!

Já fui feliz! Amei! E fui amada!
Vivi serenas tardes, mui risonhas,
Mas hoje minhas noites são vazias...

sábado, 22 de janeiro de 2011

Que traindo a razão, é diviníssima!


PÉROLA BELÍSSIMA

“Ave, formosissima!”
Carl Orff - Carmina Burana 





Brota da concha, pérola belíssima...
No mar do caos, brilha, vive e rege
Linda, a deusa que tudo desprotege,
Revelando ar de pérola vivíssima!



Ó gris paz sacrossanta, pura herege,
Que traindo a razão, é diviníssima!
Dragão de cor estranha e sublimíssima!
Delfim que purifica, que protege!



Queimando tudo surge a negra espuma...
Um mar misterioso de venenos...
Pérola tão belíssima, vil bruma!



Domina a prostituta santa Vênus,
Na terra, como livre e leve pluma,
Embriagando os seres de céus plenos!


Rommel Werneck 


Imagem: O Nascimento de Vênus. Bougureau.
Editei no picnik.com

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Deixa-me ver tua glória...

credito imagem:http://beldadedaminhavida.blogspot.com/
Deixa-me ver tua glória...

"É inútil lutar - deixa-me morrer jovem!"
Lord Byron


Tu não vês, meu Senhor, que macilento durmo?
Tu não vês que meu corpo apodrece execrando?
Não há música, dança, ou anjos me alegrando
Só resta podridão, lama, vermes e humo?

Porque deixas, Senhor, zombarem do teu servo,
Que faz adormecer a vida em prol da tua?
Eles, em rituais, idolatram a lua
Oh! Mas, em oração, meu senhor, me preservo.

Oh meu Deus, tu não vês que, macilento, eu morro?
Mas teus caminhos tão santos inda percorro.
Deus! Quero ver tua glória assim em minha masmorra!

Enquanto isso, um santo entrajado de lama,
Com voz cavernosa, assim a ti proclama:
Ah! Deixa-o ver tua glória, ó Deus. Deixa que morra!



Ronan Fernandes
XX/I/MMXI
22:00 o’clock

EU E A POESIA



Aqui estou despida de mim mesma
Entregue a estes versos, à poesia,
E sem qualquer pudor, sem heresia,
A macular papéis da branca resma...

Aqui sou alma em forma de soneto,
Que tange a lira sem receio, medos,
A rabiscar os versos, seus enredos,
A desvelar meu lado mais secreto!

Somente a poesia a mim me abeira,
E aceito, sem pudor, os seus convites
Expondo os sentimentos meus imersos...

Despida e nua aqui estou inteira
A tudo exposta, sem quaisquer limites,
A transmutar minh’alma nestes versos...

TRISTURA


TRISTURA


A dor que tua falta me tem posto
Deixando a alma minha lacrimosa,
Tornando-a frágil, só, desventurosa,
Expressa está nos vincos de meu rosto.

O meu viver tornou-se eterno agosto!
E eu sem ti tornei-me uma andrajosa,
Que vaga ao léu, sem lume, mui chorosa,
Que já não tem por cousa alguma gosto...

A dor que me tem posto a falta tua
Deixa-me assim qual üa noite nua
Sem lua, sem estrelas, sem fulgores...

A falta tua traz a mim tristura!
Perdida fico nessa noite escura,
Sorvendo a seiva dessas minhas dores

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

AURORA JACENTE


"Sacrifício de Isaac", óleo de 1603, pintado por Caravaggio.




I

Tênue luz, despojos remanescentes do século.  Faces obsequiosas, ressequidas pela ânsia de invioláveis promessas. Ossos nus, álgidos passos, insólitos gestos sob um céu sem desígnios. Indelével cortejo de sentimentos proscritos. Lázaro, vossa remissão conclama o litígio dos exilados.


Primeira Estação


Porque no amor as glórias são vãs e toda sutileza um pormenor de injúrias consentidas.



“não soube dizer
que devia despedir-se.
Colocou sobre a mesa
a correspondência.
Não removeu o vaso,
como de costume.
Não fechou a porta ao sair.
Das convenções ignoradas,
a solitude de uma ausência
não esclarecida.
O derradeiro, o inconcluso,
isenta-nos do indulto
do esquecimento?
Certezas rudimentares.
A noite clareia os olhos do cego.
Se amas a verdade, resigna-te,
aceites o próximo e tua solidão”



Assembléia dos desvalidos


Meditação sobre ruínas:

Em seu convívio com o extremo
fruto algum será colhido.
Reclamas pela felicidade
em um mundo aliciado pelo passado.


II


"Depois disso, Deus provou Abraão, e disse-lhe: “Abraão!”. “Eis-me aqui” – respondeu ele. Deus disse: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar”.

Gn 22, 1-2


Cicatrizes porosas, alarido obtuso, insigne. Na escadaria da catedral pedintes ingênitos sob a sórdida complacência de Moriá.  Incandescente mar dos apátridas, vestígios incólumes, breviário das civilizações. É primavera e não há flores. Oh! Moloc! Vossa é a glória das desolações!


Segunda Estação


Porque vivemos nossas misérias como dádivas da ira.


“em tuas mãos,
os combalidos,
o desamparo das horas.
Vossa expectativa,
cálido leito da aurora.
As dilacerações da verdade,
o ofício de amar.
– Olhai e vede os lírios,
eles também apodrecem – ,
ao cruzarmos a ponte,
saberíamos do limiar de todo ensejo?
em tuas mãos,
os combalidos,
o desamparo das horas”


Assembléia dos desvalidos


Meditação sobre ruínas:

As dissidências do tempo.
Intermitente ânsia de sonhos.
Outrora luz, hoje esquecimento.

Bolha de Sabão


Bolha de Sabão


Tristonha, Nina olhava o horizonte,
e lhe queimavam os olhinhos baixos.
" - Qual a tristeza que lhe embaça a vista,
minha querida ?" – perguntava o avô.

"- Ela sumiu, sumiu..."  assim dizia,
com seu olhar deitado no infinito.
E, ao seu lado, seu avô sorria,
pois não sabia a causa da tristeza.

"- O que sumiu? o que lhe fez tão triste?"
"- Foi uma bolha de sabão que eu fiz,
que se estourou..." dizia e lhe doía
saber que ela nunca irá voltar.

"-  Sabe, querida, muitas coisas vão,
e outras surgem tão bonitas quanto;
no mundo tudo tem o seu destino,
e não importa se for bolha ou gente."

"- Mas ela nunca mais verei de novo!
E onde eu procurar não estará..."
"- Não deixe a mágoa castigar-te a alma,
minha menina de olhar tão doce...

O Sol que hoje tão forte se irradia,
pode amanhã se esconder nas nuvens;
e a árvore que hoje está brotando,
logo amanhã repousará na terra."

"- Mas como a vida pode ter seu brilho,
se tudo algum dia tem seu fim?
Por que tudo no mundo é destruído,
se tudo vivo é muito mais bonito?"

 "- Mas nada some e nada aparece,
as coisas se renovam, se transformam;
não desapareceu a sua bolha,
mas só se transformou em outra coisa..."

"- Mas eu queria tê-la para sempre,
como uma borboleta no ar voando...
Tanto sorri por suas belas cores,
e seu voar meio desajeitado..."

"- Minha querida neta, não se esqueça,
que nada é para sempre, e só existe
o tudo no que se sentiu na alma.
Nada é desfeito, nada agarraremos
nas mãos que um dia nós não soltaremos,
é assim comigo, com você, com tudo.
Chorar não mudará, e, na verdade,
a bolha nunca pertenceu a ti." 
Gabriel Rübinger e Vitor de Silva

LACRIMOSA



Cacei-te pelo céu de noite escura,
por entre tão cinéreas nuvens densas,
nos vãos das horas longas e suspensas,
co'o coração repleno de tristura!

Cacei-te no luar de grã alvura,
por entre estrelas, lá no céu suspensas,
sentindo angústia e dor das mais extensas,
buscando o teu fulgor, iluminura!

Busquei-te nos desvãos da triste aurora,
No lacrimoso céu de chuvas frias,
co'o coração repleno d'esperanças...

Mas tu...Ao fim do cosmos tu te lanças,
co'a tua vida e alma fugidias
E mais e mais, de mim, te vais embora!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Doce Alvura

Doce Alvura


Yet one kiss on your pale clay.

And those lips once so warm

- my heart! my heart!


Byron


Porque me olhas assim, pálida alvura?
Com seus olhos de cálida aventura,
Palpitante me deixa.
E com seu canto puro de harmonia,
Deixa-me mais platônico de dia
E anoite não me beija.

Com sua têz sublime e branca assim,
Que um pálido desejo lança em mim
- Ansioso - a suspirar.
E com tua harmonia mui'santíssima
Deixa-me uma certeza muito íntima:
-que os céus nos juntará.

Fujamos, doce pálida inocente!
Para um lugar que todos nos entende
E que amam nosso amor.
Saiamos dessa terra de ódio enfim
E possamos viver só com esse fim:
Amar-nos e ao - SENHOR.

Ronan Fernandes
XIV/VIII/MMX

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Poesia Retrô


Poesia Retrô


Dizem: arcaica, descorada, torta!
Vozes condenam esta musa pura
que se desenha na eternal verdura,
pois a poesia é labirinto e porta.

Ao revelar o dedilhar n´altura,
quando sentimos que a Beleza exorta
todos os tempos, desde a Grécia morta,
arrepiando esta febril procura.

Os velhos Mestres serenando o pranto,
mas se meu verso transtornar o canto,
outro poeta sonhará Orfeu.

A eternidade do teu Manto, avança,
e a nossa lira vai jogando a lança:
Não morre o Verso que jamais morreu!

Vitor de Silva

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).