sábado, 27 de novembro de 2010

CLAMOR PANTANEIRO


Vem se perder nos meus espaços, véus, planuras,
Nas mornas águas minhas, dos meus pantanais,
E percorrer meus braços, lagos, meus canais,
Ver aguapés e meus corixos de águas puras...

Oh! Vem rolar nas relvas minhas alagadas,
Vem ver de perto os meus ninhais, as minhas veias,
Sentir prazer sem fim, sem ter limites, peias,
nas minhas tardes mornas, minhas madrugadas...

Vem ver as belas garças ágeis, alvadias,
Nos céus, nos meus espelhos d’água, refletidas,
Nos horizontes meus extensos, tão sem fim...

Vem mergulhar em minhas noites, nos meus dias,
Sentir mil emoções há muito não sentidas,
Nas encantadas horas de arrebol em mim...

LACRIMOSA

Eu sinto lá no imo dor ingente,
A latejar, pulsante, como a chama
Vivaz, ardente e flébil, qual a flama
Que dentro d’alma só quem ama sente!

E sente tal tristeza só quem ama,
E seu amor se vai, se torna ausente,
Embora sinta em si amor ardente,
Não pode mais cerzir a velha trama...

A vida então se torna triste drama,
Estar distante estando tão presente,
Ainda que ausente se aparente,
Tal como a brisa que balança a rama...

O amor é como a vela lacrimosa
Que a chama ardente mata, caprichosa!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CONQUISTA DA AMÉRICA


E foi assim que tudo teve início!
O sórdido presente! O gesto! O agrado!
E o espaço, pela cruz, foi consagrado,
Com falsa paz! Com falso armistício!

A faca, o espelho, a oferta do machado,
Em nome da amizade, benefício,
O brinde, que ofertado, trouxe o vício...
O território logo conquistado!

Com sangue se lavou toda essa terra!
E proclamada foi a “Santa Guerra”,
Que logo se espalhou pelos espaços...

América indígena! Que sorte!
O espelho se quebrou de sul a norte,
Restando pelo chão seus estilhaços!

CANTO NATIVO (II)

Sou caçadora, nômade, selvática,
Caminho pelas matas sem descanso,
Eu bebo a fresca água do remanso,
Sou firme, forte, ágil! Sou pragmática!

E diga quem quiser que sou errática,
E que meu ser andejo não se amansa,
Que não mereço credo, confiança,
Que sou selvagem! Simples! Problemática!

A mim não me importa o teu desprezo!
Teus preconceitos vis! Os teus palpites!
A pequenez que dentro em ti se encerra!

A minha vida é minha! Muito a prezo!
Meu caminhar é livre! Sem limites!
E filha sou dos tempos! Desta terra!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MUTAÇÕES


Eu já não sou riacho transparente,
Formando mil cascatas murmurantes,
Com suas belas águas espumantes,
Buscando sem cessar seu afluente...

E que, sem cismas, segue sempre em frente,
Com suas águas mornas, coleantes,
Replenas de carícias, anelantes,
Co’a força que só tem água corrente!

Hoje sou rio que virou represa,
Com águas que, paradas, formam lodos,
E sigo a minha vida, sem denodos...

E dentro em mim repousam folhas mortas,
Contidas em meus lodos, por comportas,
No imo meu profundo, na escureza!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

HAPPY THANKSGIVING DAY

 Tela de Jean Leon Gerome Ferris. Retirado da Wikipédia


Ilustre Plêiade e Leitores,



Esta é uma singela homenagem de nosso blog para nossos vários leitores estadunidenses. A Festa de Ação de Graças ocorre aqui no Brasil na quarta quinta-feira de novembro.  


Pra vocês verem como as coisas são. Eu estava pensando que estava faltando algo para esta postagem. Fui procurar um poema comemorativo e adivinha que acabei de descobrir? 


Mais um célebre poeta do fin-de-siècle brasileiro .  Um soneto em decassílabos heroicos e sáficos!!!


 Mas, caros poetas, Gabriel, Vitor, Hilton & Cia, tem uma parada para resolvermos. 
Eu achei o tal poema no Mundo Jovem da PUC RS
um grupo de jovens onde contribuo com poesias. Paralelamente também o vi no Sonetário Brasileiro. Meninos, há diferença no primeiro verso, enquanto o grupo de jovens registra a palavra "lua", o Sonetário registra como "luar", versão transcrita abaixo, mas o certo é que o pé tá quebrado.
Vamos ter que pesquisar. 



AÇÃO DE GRAÇAS DO POETA



Graças a vós Senhor, pela ventura
De poder isolar-me na Poesia,
Ter nela o alívio à provação mais dura,
E, no Sonho, o meu pão de cada dia.


Sentir albor de luar na noite escura,
Achar descanso e paz na nostalgia
E ver, até no pranto da amargura,
Um consolo vizinho da alegria.


Graças a vós por este dom divino
Que me defende do destino adverso,
Tornando-me senhor do meu destino.


E se em mim próprio, ruge o mal perverso,
Puro, alegre, feliz, o mal domino
E alo-me ao Céu nas asas do meu verso.
 
  

Bastos Tigre 




Desejo a todos os leitores e escritores muita bonança, leituras e inspirações e que continuem maravilhosos como sempre.


Rommel Werneck

MOACIR DE ALMEIDA



Moacir de Almeida


Patrono da cadeira nº 40 da Academia Belo-Horizontina de Letras, segundo Júlio Pinto Gualberto em seu O Gênio Poético de Moacir de Almeida, nasceu Moacir de Almeida no dia 22 de abril de 1902, tendo falecido em 30 de abril de 1925, muito jovem, como se pode notar. Gênio de qualidade singular teve pelo poeta parnasiano Alberto de Oliveira incluso um soneto seu em “Os cem melhores sonetos brasileiros”, tendo constada sua lira em muitas outras antologias. Louvado foi de Agripino Grieco à Catulo da Paixão Cearense, que lhe dedicou versos à beira do túmulo. Assim descreveu-o Agripino Grieco, que privou do contato íntimo com o poeta:

“Pensando em Moacir de Almeida, revejo-o qual tantos anos o vi, com seu ar de eterno convalescente. Talvez houvesse nêle certa inaptidão para a felicidade. Recitando, tinha a voz meio rouca, mas a beleza das cousas que ele celebrava conseguia embelezá-lo, e êle que era magro, comprido, deselegante, sem saúde, sem graça pessoal, sem eloqüência na conversação, transfigurava e prendia quem quer que o ouvisse. Sua face lanhada, torturada, de zigomas salientes, como que se iluminava à irradiação verbal de seu sonho. Ele que, palestrando, pouco entusiasmo patenteava pela vida e às vêzes confessava ter mêdo de tudo e ver tudo envolto na luz de um dia de eclipse, enriquecia-se, ao dizer versos, de mil tesouros ignorados.”

Diz Pádua de Almeida em Algumas Palavras da edição Poesias Completas de Moacir de Almeida, sem data, editora Zélio Valverde, “Moacir está para a amplitude poética naquilo que Augusto dos Anjos está para a profundidade”. Eis os dois sonetos que selecionamos para o querido leitor, mostrando as nuances entre os dois universos em que poeta  gravitava: a dor e o sonho.

***

IX

ESTRÊLA PERDIDA

Em meu olhar, meu coração maldito
Olhava-a; muda e ardente, triste e ardente,
A estrêla de ouro, dolorosamente,
Estendia-me os braços do Infinito.

Mas o sol abatia-me o vôo no poente,
Eu – o amante da estrêla – ávido e aflito,
Erguia os olhos para o azul bendito,
Erguendo os braços para o azul fulgente.

Mas, ai!Nas sombras, a adorada estrêla
Perdeu-se... E nunca mais tornei a vê-la
No coração da noite, a lampejar.

Hoje, torno a encontrá-la – quem diria! –
A iluminar minha aflição doentia
Dentro da noite azul do teu olhar...

In Soluços do Deserto

***

XVIII

NÔMADE

Triste e exhausto, arrastei-me por sombrias
Terras de angústia, aos astros a às tormentas,
Tendo nos olhos as visões violentas
De crucificações e de agonias.

Vales da morte, solidões nevoentas
Do tédio, abismos de paixões doentias,
Enchi de sangue; e fiz, das pedras frias,
Britar estrêlas em caudais sangrentas...

Nômade das paixões desesperadas,
Enchi de sonho todas as estradas
E o amor que todos têm – visão serena,

Que a vida de outros faz florir em chama, –
Só pude ouví-lo em bocas de gangrena,
Só pude tê-lo em corações de lama...

In Gritos Bárbaros

terça-feira, 23 de novembro de 2010

VINGANÇA


Pois que me escarre a boca que beijei!
Já não me importa mais a ingratidão,
Se amar, sofrer, chorar tem sido em vão,
E se de mim eu mesma já não sei!

Pois que me atire a pedra a mesma mão
Que um dia, com ternura, tanto amei...
Se mil carícias dela desejei
Hoje não creio mais no amor, paixão!

Já nada mais me atinge ou desespera!
À tua ingratidão não dou guarida,
Nem causam dentro em mim qualquer ferida!

Não pode, não, sofrer quem nada espera!
Quem já não sonha! Quem não tem quimera!
Quem já não crê no amor! Na própria vida!

domingo, 21 de novembro de 2010

NÉVOAS


Nas névoas de mim mesma estou perdida!
Há labirintos tantos! Mil ciladas!
E não encontro rastros, nem pegadas
Daquela a quem, outrora, dei guarida...

Não há retornos que me levem a mim!
Distantes vão os sonhos meus celúreos,
Meus pulcros arrebóis, dos mais purpúreos,
Com seus doces olores de jasmim...

E nessa erma estrada sigo adiante,
Nesta cinérea vida, tão plangente,
Na intransponível bruma fria e triste!

Não há na minha vida qualquer chiste
Que alegre meu viver, meu pobre ente
Outrora qual um sol irradiante!

BELÍSSIMOS POEMAS EM LINGUAGEM SIMPLES, MAS LITERÁRIA, OFF CORSE, MY HORSE!

Os poemas abaixo foram escritos numa linguagem simples, talvez num romantismo contido, porém não na mesma linguagem de Bilac e de Francisca Júlia que também sabiam escrever brilhantemente. Apesar da simplicidade, são obras literárias e não panfletos provando que é possível escrever de modo mais simples sem ser simplório, afinal, a linguagem denotativa tem que ficar lá nas bulas de remédio, receitas de culinária, críticas, textos históricos e informativos etc. Mesmo porque, uma literatura sem recursos é uma literatura analfabeta.


Agora vem a revelação surpreendente: o poeta abaixo é mulato e como o apedrejado e genial Cruz e Souza, não ficou inserindo reflexões panfleteiras em seu texto apenas por uma questão racial. Ao contrário do que pensa, Cruz e Souza escreveu sim algo social na literatura ( Litania dos pobres), como observa nossa leitora Pauline Kisner, historiadora e fundadora da Sociedade Histórica Desterrense. Além do mais, ele guardou  crítica para artigos de jornal que,  por não serem obras literárias, são menos conhecidos que seus majestosos sonetos.


Voltando ao poeta mulato gago e epilético da favela que hoje poderia ser taxado nerd, ficam aqui seus majestosos poemas e quem desejar ler suas críticas sociais inseridas em sua literatura, basta ler Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, seus contos e tantos outros romances e verá que é possível sim apresentar críticas políticas sem ferir o esplendor estético, mas há autores que preferem tratar outros temas que possuem a mesma importância que os sociais.




A uma senhora que me pediu versos


Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.


Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.


Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.


Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.




A vassalagem amorosa é um tema sempre atual, a combinação de redondilha maior com tetrassílabos poderia ser usada mais vezes.





Livros e flores


Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?


Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?




Isto que é poesia concisa e não os "haikais" que circulam por aí sem ser.  São apenas duas estrofes, mas genialmente compostas. Reparem na leveza das seis sílabas.




Carolina


Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.


Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.


Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.


Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.




É certo de que existem escritores que, numa preocupação tumultuada com a isometria, produzem péssimos decassílabos, mas Machado produziu algo belo e diferente, notem a criativa  associação das flores com a terra que viu o casal viver junto e agora, separa os dois pela morte. 


Meu poema favorito dele se encontra abaixo. O final apresenta raciocínio e o bom uso do elemento céu.




Quando ela fala




She speaks!
O speak again, bright angel!
Shakespeare


Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.



Meu coração dolorido
As suas mágoas exala.
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.



Pudesse eu eternamente
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.



Minh'alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la,
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.



MACHADO DE ASSIS

sábado, 20 de novembro de 2010

TU ÉS MEU RIO...

Tu és meu rio e vou correr nas tuas veias,
Vou invadir teu leito, todos teus recantos,
E, murmurante, vou cantar-te doces cantos,
Eu vou rolar nos teus confins, lençóis, areias...

Vou revirar as pedras tuas, como anseias,
E vou beber das águas tuas, teus encantos,
Vou arrancar todos teus véus, teus doces mantos,
Dançar contigo a valsa, que no chão coleias...

Eu vou brincar, rolando, nesses mornos braços,
Vou entregar-me a ti no teu macio leito,
Amar nas tuas praias, como sempre quis...

Depois de ter corrido todos teus espaços,
Nas espumantes águas tuas me deleito,
E na barranca tua vou dormir feliz!

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).