quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O BORDADO CRUEL




O Bordado Cruel



Quando era noite, atrás daquela porta, 
junto a uma vela duas velhas riam 
Matando aos poucos uma aranha torta.


E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.


Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,


E as velhas rindo a observar da cama 
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.


Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo


Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...


Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,


E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente 
Que a recobria em infernais coletes.


E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,


Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,


E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.


Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,


E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores


E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,


Todo o amargor das profecias mortas!



Alexei Bueno

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Uma Dama



É meiga de uma dama a figura,
As claras tem do lírio a brancura,
E as morenas têm a cor da terra.
Cada uma delas um segredo encerra.
Os cabelos são coroas de perfume,
Depois de com lavanda ser lavados,
Sempre causando queixumes,
Mas sempre bem penteados.

Seus dois seios são dois montes,
Fonte de leite e de prazer,
Comparo-os com duas maçãs,
Colhidas ao amanhecer.
Sua pele é por cima tão formosa,
Macias como folhas de uma rosa.
É mesmo meiga de uma dama a figura,
Que causa aos homens, amor e loucura.

ALVES ROSA

ARREBOL


Nesse horizonte teu eu me declino,
Desmaio aos poucos qual o sol na tarde,
Vou me entregando sem fazer alarde,
Enquanto na igrejinha tange o sino...

Retiro meus mil véus, me descortino,
E perco meu pudor e meu resguarde,
Esqueço que sou frágil, sou covarde,
De amor me morro e perco todo o tino!

E nesse enlace nos tornamos um,
Sem ter receios, sem limite algum,
Enquanto canta ao longe o rouxinol

E nesse instante único, incomum,
Em ti me morro, tal qual morre o sol...
E nos tornamos juntos o arrebol!

domingo, 5 de setembro de 2010

SEM DISFARCE!


Diante desse espelho estou agora...
Como fugir não há de meu olhar,
E meus detalhes passo a debulhar,
E marcas vejo em mim da fria aurora.

Em minha tez um mapa bem traçado,
Com becos, com veredas e mil atalhes,
Que levam-me, sem erro, aos meus detalhes,
De volta me conduzem ao passado!

Exploro cada vinco em minha face,
A recordar amores meus, amantes...
Os tempos mais felizes, tão pujantes!

E a mim me busco, em todos os quadrantes,
Embora a minha vista já se embace,
A mim me encontro, nua e sem disfarce!

SONETO DA ESPERA


O passaredo canta alegremente!
Distante eu posso ouvir o quero-quero,
Os bem-te-vis fazendo lero-lero,
O sabiá gorjeia reticente...

Os canarinhos, no jardim da frente,
Com força cantam, trinam com esmero,
Ouvindo tantos cantos, eu te espero,
Sentindo em mim o sol, que está ardente...

A noite cai e os pássaros se vão,
Distante a coruja triste pia,
A sinfonia bela chega ao fim!

Em cada estrela morre uma ilusão,
pois tu não vens e a lua já me espia,
E o véu da noite cai pesado em mim...

Crepuscular amor que se declina,
Tal qual o sol morrendo no arrebol,
Já não chilreia mais, qual rouxinol,
E não tem mais o encanto, que fascina!

Tal como o dia que se vai com o sol,
Dando lugar à lua peregrina,
Com sua luz de prata purpurina,
Perdeu o seu lugar, que era de escol!

Tal como o sol se vai, agonizante,
Depois de belo dia radiante,
De tanto brilho, luz, pujança!

Perdeu a sua paz, a temperança,
E morre assim tão só, sem esperança,
Na sepulcral tristeza desse instante!

GEOGRAFIA DO PRAZER


Na tua pele há caminhos tantos,
Atalhos, mil veredas com seus becos,
Úmidos uns e outros quentes, secos,
Mil armadilhas! Prenhes de quebrantos!

Há tantos rios nesta tua pele!
Canais e leitos com lençóis de areia,
Pepitas de prazer que o amor anseia,
Promessas que, quiçá, meu ser desvele!

Na tua pele, húmus de teu ser,
Ingás, ipês floridos, perfumados,
Viçando em cada vão, cada fissura!

Aveludada pele! Que loucura!
Todos os dados postos, bem traçados...
Geografia pura do prazer!

SOLIDÃO A DOIS


Deitados lado a lado, nus, silentes,
Nada mais sonham nem desejam nada,
E passam assim a noite, a madrugada,
Dois corpos mudos, entre si ausentes...

Os olhos seus, distantes, vagam ao léu,
As mãos se perdem no vazio d’alma,
Já não tateiam com prazer, com calma...
Não mais galopam qual um bom corcel!

Calaram-se os murmúrios abafados...
E juntos permanecem sós, calados,
No frio eterno que nem sentem mais...

Não mais existem turbilhões de sonhos,
Distantes vão os dias bons, risonhos,
Tão prenhes de prazeres, tantos ais!

sábado, 4 de setembro de 2010

Cantiga de Amor V

Cantiga de Amor V

Ah! Eu cá em cerco
Sujo, faminto e sedento
Somente tenho alento
Neste seu sagrado terço
Com qual rezo e rogo
Permiti Pai salvo retorno

E vêm-me as saudades
De mia senhora senhor
Dos cabelos, a cor
Da reza, a caridade
Com qual rezo e rogo
Permiti Pai salvo retorno

Voo-me em onirismo
Ao reino de Castela
Onde dorme mia donzela
Com a cruz em intimismo
Com qual rezo e rogo
Permiti Pai salvo retorno

E ai meu querido Pai
Que ela sois sua esposa
Non mais a mim moça
E ai meu Pai, e ai
Com qual rezo e rogo
Permiti Pai salvo retorno

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

SONHOS MEUS


Oh! Sonhos meus! Etéreos, inefáveis!
Por que minh’alma invadem, deletérios?
Quais frias brumas prenhes de mistérios,
Se tornam para mim inexploráveis...

Oh! Sonhos meus! Bisonhos, mas afáveis,
Por que me vêm de todos hemisférios?
Não sei andar, viver nos seus impérios,
Nas suas terras mornas, não aráveis...

Sonhos! Não os suporto mais comigo,
Pois não tangíveis são, tal qual a lua,
Se rompem como as bolhas lá da praia...

Quisera ser seu ninho e seu abrigo,
E ser também amiga e amante nua
Nos seus lençóis suaves de cambraia...

SÊ COMO O RIO...


Sê como um rio, que valsando rompe as matas,
No seu silêncio sempre em dor se esvai, se escuma,
Cortando vales, pedras, forte e densa bruma,
E vai formando mais adiante mil cascatas...

Sê como um rio que obstáculos contorna,
E segue sempre em frente sobre mil pedrouços,
Vai construindo seus caminhos, arcabouços
Rasgando o duro chão com suas águas mornas...

Sê como um rio que se soma a outros tantos,
E assim se torna tão profundo, ancho, forte,
Cumprir consegue então a sua triste sorte:

A de seguir o seu destino sul ou norte,
E ir perder em outras águas seus encantos,
E ir morrer no mar a borbulhar em prantos!

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).