quarta-feira, 31 de março de 2010

OH! ESCUTAI A LIRA!

Oh! Escutai a lira que tangida chora!
Que geme e vibra tanto, sem pudor, sem pejos,
Que canta com os poetas, quais os realejos,
A paz, o amor, o pranto pelo mundo afora!

Bebei do seu fragor, o vinho tinto e puro,
Que expele enquanto freme, enquanto chora em versos,
Expondo a sua dor, poemas seus imersos,
Que nascem lá no imo e que aqui depuro!

Sorvei, também, da lira, todo o seu encanto!
Senti, na pele, o seu suave e fino manto!
Seu acalanto, que cala bem fundo, ouçais!

Deixai rolar na face o emocionado pranto!
Não contenhais em vós, o amor, a dor, jamais...
Oh! Escutai, da lira, seus pungentes ais!


Edir Pina de Barros

terça-feira, 30 de março de 2010

Vaso de flores nas mãos de Salvador Dalí


Reclama o Sol as porcelanas brancas,
estames neves despertando as trancas,
e chaves astros transtornando frios...
Alma carmim entre perfumes pardos,
adagas mortas no sangrar dos nardos
correndo frouxos pelos tensos rios.

Espinho frígido ao rasgar vermelho,
solos finais num incensório espelho,
apoteose entontecendo a pétala.
Pólen da aurora – verdeais louvores...
Carne das sedas – sinistradas flores...
Sopro supremo possuindo a sépala...

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Quadro: Natureza Morta (1911)
Óleo sobre tela; 54.1 x 65.2 cm
Autor: Georges Braque

segunda-feira, 29 de março de 2010

CICLOS

Nos olhos teus não vejo mais a chama,
A ígnea chama ardente da paixão,
Aquele olhar que tudo em torno inflama,
Pleno de amor, de sonhos, de ilusão!

Nem tuas mãos procuram-me na cama,
Hoje teu corpo vive em reclusão,
Vives tecendo a tua própria trama,
E da volúpia não és o artesão!

A tua tez só vincos tem agora,
Os teus cabelos mais parecem paina,
E o teu olhar somente paz traduz!

E tanto amor asperge mundo afora,
E o meu viver o teu olhar amaina,
Fonte d’amor que emite tanta luz!

quarta-feira, 24 de março de 2010

I EXPOSIÇÃO DE POESIA RETRÔ - DE 13/03 A 16/04

PHOTOGRAPHIAS DA I EXPOSIÇÃO DE POESIA RETRÔ NO CENTRO CULTURAL JABAQUARA


(Em construção!! Faltam ainda muita photographias. Eu ia deixar de rascunho, mas sem querer publiquei! Será que dá pra deixar como rascunho novamente?)




















terça-feira, 23 de março de 2010

Jaz asas, não as tenho mais!... Oh, asas!...

A um doce sonetista gótico, Rommel Werneck.

Jaz asas, não as tenho mais!... Oh, asas!...
Oh asas, sem vós?... Como irei ao céu?...
Céu, quão longínquo ’stou de teu grand’ véu!...
Véu, por que de teu toque tu me atrasas?...

Sinto-me alado quando tu me abraças!...
Abraças-me e de ti torno-me réu?...
Réu?... Mas emancipado a um fogaréu?...
Fogaréu!... Santo fogo, santas brasas!...

De ti nunca senti sinestesia?...
Sinestesia, a mi, me tens tocado!...
Tocado, em sonhos, doce cortesia...

Cantar-te-ia a ti se eu tivesse voz!...
Voz de teu timbre doce e delicado?...
Delicado coral somente a nós...



(Bruno Fagundes Valine)

segunda-feira, 22 de março de 2010

PROFISSÃO DE FÉ


Sappho
Tela de Charles Mengin
1877


PROFISSÃO DE FÉ

Le poète est cise1eur,
Le ciseleur est poète.

Victor Hugo.

Não quero o Zeus Capitolino
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o camartelo.


Que outro - não eu! - a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal.


Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário
De fino artista.


Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.


Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.


Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.


Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.


Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.


Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:


E que o lavor do verso, acaso,
Por tão subtil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
De Becerril.


E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.


Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
De outro qualquer.


Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!


Deusa! A onda vil, que se avoluma
De um torvo mar,
Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma
Deixa-a rolar!


Blasfemo em grita surda e horrendo
Ímpeto, o bando
Venha dos bárbaros crescendo,
Vociferando...


Deixa-o: que venha e uivando passe
- Bando feroz!
Não se te mude a cor da face
E o tom da voz!


Olha-os somente, armada e pronta,
Radiante e bela:
E, ao braço o escudo a raiva afronta
Dessa procela!


Este que à frente vem, e o todo
Possui minaz
De um vândalo ou de um visigodo,
Cruel e audaz;


Este, que, de entre os mais, o vulto
Ferrenho alteia,
E, em jato, expele o amargo insulto
Que te enlameia:


É em vão que as forças cansa, e â luta
Se atira; é em vão
Que brande no ar a maça bruta
A bruta mão.


Não morrerás, Deusa sublime!
Do trono egrégio
Assistirás intacta ao crime
Do sacrilégio.


E, se morreres por ventura,
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura
Nos envolver!


Ah! ver por terra, profanada,
A ara partida
E a Arte imortal aos pés calcada,
Prostituída!...


Ver derribar do eterno sólio
O Belo, e o som
Ouvir da queda do Acropólio,
Do Partenon!...


Sem sacerdote, a Crença morta
Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta
Do templo augusto!...


Ver esta língua, que cultivo,
Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo
Dos infiéis!...


Não! Morra tudo que me é caro,
Fique eu sozinho!
Que não encontre um só amparo
Em meu caminho!


Que a minha dor nem a um amigo
Inspire dó...
Mas, ah! que eu fique só contigo,
Contigo só!


Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro.


Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!


Caia eu também, sem esperança,
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!


OLAVO BILAC



quarta-feira, 17 de março de 2010

EU VENDO MOEDAS ANTIGAS















Eu herdei algumas moedas antigas e não sou colecionadora. Por isso decidi vender. Se vc interessar me deixe um recado AQUI ou pelo email aninhalopes0000@gmail.com


Me Morte


PALAVRA DO EDITOR*

Todos aqui conhecem o belo trabalho que a escritora Me Morte desenvolve no site Vale das Sombras e também nossos leitores que apreciam sonetos, rimas, métricas e o melhor da poesia de sempre gostarão certamente das belíssimas moedas que a autora está oferecendo. Tais antiguidades não possuem apenas função contemplativa e de coleção. Uma pessoa bem criativa pode até mesmo transformá-las em bijouterias, presentear alguém e fazer mil coisas, basta obedecer à imaguinação desobediente!

* Por que o autor aqui não compra as tais moedas? Oras, eu simplesmente tenho moedas e outras preciosidades antigas das quais não abro mão!

Rommel Werneck


terça-feira, 16 de março de 2010

O Acender da Pira



Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.

 
O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.


A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...

Daniel C. B. Ciarlini e mais um grande soneto



Amor e Paixão

(à Jane Austen, pela dualidade de seus títulos)


Não se iluda, amiga, a paixão é passageira
e o amor, quando existe, é sempre permanente.
Paixão: fogo que se vai. Amor: algo inteiro.
É dicotomia, e ao entender, só se sente.


O que se entende da paixão é corriqueiro;
o que se constrói no amor é tão envolvente,
é tão especial, tão e tão companheiro
que mesmo em face da solidão lhe não é ausente.


Observe, amiga, a diferença é simbólica,
é fácil de entender, difícil de explicar:
a paixão quando ama, amiga, ela é diabólica;

o amor quando doa amor, dá sem nada esperar;
a paixão é obcecada, insere-se melancólica,
diferente do amor, perdido a se doar!



Daniel C. B. Ciarlini

Parnaíba, 30 de março de 2009.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ad Astra




Com asas flamejantes de quimera,
Gravito pelo eixo incandescente
Do cosmos violáceo e ressonante
Vivendo dos pulsares de seus lábios;

No núcleo de seus olhos agridoces,
Mergulho em sua astral serenidade
De encantos sempiternos e supremos
Que vestem a espiral dos meus desejos;

Com tintas estelares e nirvânicas
E sutras transcendentes de delírios,
Desenho supernovas florescentes
No véu celestial de sua pele,

E além da substância e da matéria
No qual eternidades viram pó,
Ascendo as latitudes consteladas
Por onde nos tornamos uno e verso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

I EXPOSIÇÃO DE POESIA RETRÔ - DE 13/03 A 16/04


        Em comemoração ao aniversário de 1 ano,  no sábado próximo teremos a inauguração de nossa grande exposição idealizada em setembro de 2009. Conto com a presença dos leitores e escritores neste evento que será aberto pelo III Sarau do Sítio da Ressaca. Em breve, fotos da exposição.

Rommel Werneck.

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).