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domingo, 13 de fevereiro de 2011

CARTA I OU "O OFÍCIO DO POETA"


 

"Por que", dizei, "deixar correr o tempo,
atrás de esforços vãos na dura lida,
pedra por pedra no bater da obra,
no ofício que já muitos trabalharam?
Bem mais afável é fruir do leve
descanso, aproveitar do que foi feito,
e ter nas mãos a obra concluída."
Dizeis porque acinzelar a rocha
de fato é trabalhoso, e desse modo
é o trabalho de quem tange a lira.
Quem desejar cantar seus próprios versos,
terá de atravessar profundos vales,
terá de estradar por matas ermas,
e pélagos saltar, sem abater-se.
Terá de carregar sobre suas costas
a dor e o sofrimento desse mundo,
terá de ver a dor, mantendo o brilho
nos olhos, como a vela rasga a noite.
Se sofrimento for, bendito seja;
não há melhor prazer que criar versos,
depois cantar - e uma tempestade
arrebatar a alma em mil matizes,
com tal arroubo que o céu descende
ao chão, e o corpo em plumas se desmancha.

Gabriel Rübinger 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

LAMARTINE BABO


Versátil, satírico, inusitado e bem à frente de seu tempo, Lamartine Babo foi um dos poucos compositores de sua época a criar sucessos em quase todos os estilos musicais em voga. De suas inesquecíveis marchas de carnaval até as valsas românticas, Lamartine escreveu clássicos que até hoje são cantados.


Dizer que Lamartine Babo é o compositor da Velha Guarda que hoje é mais cantado pode soar estranho. Esse posto não seria de Noel Rosa, cujos sambas são amplamente estudados, ou de um Ary Barroso, que compôs centenas de clássicos?
Os dois compositores são muito mais ouvidos hoje - isso é pura verdade - mas quem criou os hinos de futebol que estão na boca de qualquer carioca foi Lamartine Babo. Pela rua eu nunca vi alguém cantar "Serra da Boa Esperança", é verdade, mas o "Hino do Flamengo" é coisa que se vê sempre.

Lamartine nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, no mesmo ano da fundação do América Football Club, o time de futebol que ditava seu coração. Desde pequeno já imitava os instrumentos das bandas de rua, cada instrumento com um pedaço da boca ou do corpo diferente. As imitações acabaram se tornando uma de suas marcas, presente em diversas gravações, além de terem uma função de composição. Por não saber escrever em partituras, Lamartine solfejava as notas dos instrumentos para os maestros ou músicos com que estava trabalhando. Extremamente magro, de voz fina (dizia: não tenho voz, tenho vez), de porte engraçado, Lamartine tinha tudo para não ingressar no universo da música brasileira da época, de galãs com vozes poderosas e grandes orquestras.


Seus primeiros sucessos vieram com as marchinhas de carnaval, no início da década de 30, quase todas sempre na boca de Mário Reis - o compositor que dividiu o canto da música brasileira. Isso porque, antes de Mário Reis, se cantava com inclinação ao bel-canto, com a voz poderosa, mais "virtuosa". Mário Reis, que iniciou a carreira com composições de Sinhô, tinha a voz mais contida, que se aproximava mais da fala, não do canto. Outro motivo de sucesso, além de seu talento e espontaneidade, são suas melodias simples, satíricas, bem completadas, como se vê em A.E.I.O.U., de Lamartine e Noel Rosa:


Mário Reis, que cantou vários clássicos de Lamartine.
 "A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha.
A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever,
Escreve sal com cê cedilha"

E não é aí que param as sátiras. Além de adorar trocadilhos - o que o fazia popular na imprensa da época - Lamartine era o primeiro compositor no Brasil a adotar o humor nonsense. Tudo o que se podia satirizar era satirizado. Como um tango seríssimo de Discépolo, na voz de Gardel, que em suas mãos se tornou "Família Urango-tango":

"Eu não suporto as intrigas,
apenas eu cito pessoas amigas.
Mas disse alguém lá do 100
que a família Urango não paga ninguém..."


As mudanças de época são muito presentes em suas canções, onde ele colocava em contraste os tempos antigos (como preferia de chamar: tempo da vovó) e moderno, as novidades que borbulhavam em sua época. As rádios, os novos estilos musicais, os novos comportamentos - tudo isso era notado por Lamartine. As canções abundam:
Lamartine Babo ao piano.

"Rancheira é espécie de mazurca
mais velha que o morro da Urca
me faz lembrar o meu avô
nos tempos de noivado ao lado da vovó...
"
(Babo...zeira, 1932)

"Toda gente agora pode
Ser bem forte, ser um "taco"
Ser bem ágil como um bode
E ter alma de macaco.
A velhice na cidade
Canta em coro a nova estrofe,
E já sente a mocidade
Que lhe trouxe o Voronoff...
"
(Seu Voronoff, 1928)

 "Não mostres à Vovó
minha conta da pensão,
deixa a velhinha
viver na ilusão..."
(Deixa a Velhinha, 1934)

Em "Babo...zeira", além do trocadilho do título com o nome do autor, a música fala da transformação dos ranchos no samba e marcha modernos, com um gingado totalmente diferente. Em "Seu Voronoff", o cirurgião russo Serge Voronoff é o tema: suas ideias eram de intervenções cirúrgicas entre homens e animais, em busca do rejuvenescimento. Louvado na época, Voronoff logo viu suas exóticas teorias caírem por terra antes de sua morte. Já "Deixa a Velhinha" é atualíssima, e é até espantosa se forem olhados os versos "esconde essas notícias de desastre de avião...".
Mas Lamartine não perdoaria os jovens. Já na sua primeira marcha a ser gravada, "Os Calças Largas", dizia:

Dança charleston, famosa na década de 20.
"Do tal charleston é bom não se falar
Faz lembrar peru de água
Quando a gente o quer matar"

(Os Calças Largas, 1927)

Se não era da moda ou das danças, era dos costumes novos dos jovens, como o de flertar não por amor, mas por ser "bom":

"Vamos flertar, 
(oh sim!)
Beijos trocar, 

(sem fim!)
Lá no Leblon

(por quê?)
Porque é bom.
"
(Que pequena levada, 1928)

O mesmo Lamartine que logo em frente veremos idealizar a mulher (e o carnaval) era o que criticava. Em "Maria da Luz", a própria idealização era criticada - a imagem da mulher sensual ao passar da rua. Uma curiosidade é que, além do belíssimo arranjo em que Lamartine canta, é uma versão de "Whistling in the Dark", de um filme americano famoso na época.

"É um tipo esbelto de mulher
e a gente faz o que ela quer,
é mais cotada que o café
pois tem aroma até no pé...


[...]

Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós..."

(Maria da Luz, 1932)


Com a chegada da gravação, os intérpretes começaram a definir tudo o que era cantado, a fim de "direcionar" o público da música. Dos primórdios da gravação até os anos 50, era quase regra constar o gênero da música.

Selo de disco onde se vê o gênero após o título. De: outrasbossas.blogspot.com
Essa banalização era criticada por Lamartine Babo, que inventava estilos a cada nova gravação: "marcha-enxerto", "marcha digestiva"... Esse lado satírico foi o mais conhecido, através dessas marchas, clássicos que surgiam aos montes em cada carnaval. Mas não foi só nesse gênero que Lamartine foi eminente, apesar do seu humor fino trespassar toda a obra.Valsa, samba, cateretê, fox blue e toada são só alguns dos estilos por onde Lamartine Babo passou.
Dedicou-se à valsa já mais velho, após anos e mais anos de sucessos com marchas e sambas. A saudade, a idealização lírica são sempre presentes: 

"Só nos dois num salão e esta valsa
E uma orquestra de anjos divinos
Uns acordes de um toque de sinos
Nos finais desta valsa de amor."
(Só nós dois no salão (e essa valsa), 1937) 

"Mais uma valsa, mais uma saudade
De alguém que não me quis
Vivo cantando a sós pela cidade
Fingindo ser feliz"
(Mais uma valsa, mais uma saudade,  1937)

Entre a marcha e a valsa, Lamartine veio a criar suas músicas que mais fizeram sucesso: os hinos de futebol. Apaixonado pelo esporte, em 1943 criou um hino para cada clube da primeira série do campeonato, e os apresentou num programa radiofônico, obtendo enorme sucesso. A maioria dos clubes já tinha seu hino, mas os criado por Lamartine Babo são os cantados até hoje. Sua paixão, claro, era o América:

"Hei de torcer, torcer, torcer,
hei de torcer até morrer, morrer, morrer,
pois a torcida americana é toda assim
a começar por mim
a cor do pavilhão é a cor do nosso coração..."
(Hino do América, 1943)

O que não diminui a qualidade dos outros hinos. Por ser um compositor intuitivo, ele criava melodias leves, sempre bem cuidadas e que são fáceis de aprender, o que facilitou o sucesso de suas músicas. Até chegava a imitar a si mesmo, com partes de melodias quase iguais, como se vê em "Grau Dez" e "Ride Palhaço". 

Morreu em 1963, pouco antes da estréia de uma apresentação de uma grande homenagem a ele, ficando para sempre no panteão dos compositores da música brasileira.



Escolhi cinco gravações como um panorama de sua obra, que estão disponíveis para ouvir logo abaixo do texto.

"Canção para inglês ver" abriu as portas para o humor nonsense na música brasileira. A letra, que aparentemente não tem muito sentindo como um todo, critica os estrangeirismos em moda na época. Ouviremos na gravação original, de 1931, com Lamartine Babo cantando.

"Ai loviu 
forguétiscleine meini itapirú
forguetifaive 
anda u dai xeu
no bonde Silva Manuel, Manuel..." 

 

"Parei Contigo" é uma divertida crítica aos supostos amigos, que se aproveitam dos outros e depois somem. Ouviremos a gravação original, de 1934, com Mário Reis e Lamartine Babo.

"Um dia eu fui parar contigo
num hotel em casca-dura
me roubaste a dentadura..."


"No Rancho Fundo" é um clássico da nossa música. A bela letra adaptada por Lamartine Babo harmoniza perfeitamente com a música de Ary Barroso, o que deixa um ar meio rural e saudoso. Ouviremos com Elizeth Cardoso, gravação de 1956.

"No rancho fundo
bem pra lá do fim do mundo
nunca mais houve alegria
nem de noite, nem de dia.
Os arvoredos 
já não contam mais segredos
e a última palmeira
já morreu na cordilheira."


"Maria da Luz" tem uma melodia bonita, bem orquestrada. A letra de Lamartine satiriza as mulheres idealizadas, e a abertura satiriza as rádios e os bondes. Ouviremos com o próprio Lamartine, em gravação de
1932.

"Maria da Luz
É o "ai jesus" de todos nós
Seu corpo fino tão franzino
Parece um tubo de retrós
"


Finalizando, "Serra da Boa Esperança", canção por demais melancólica e bela, com Francisco Alves em gravação de 1937.

"Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

INDRISO COLETIVO - PEDIMOS A OPINIÃO CRÍTICA DOS LEITORES



 CRUZES MILENARES*


"Cabalga en su sueño la mujer dormida,
cabalga en su sueño y es cabalgada.
En la selva, nadie la oye cuando chilla."
Isidro Iturat


Cavalguemos nos sonhos por velhos lugares
Confundindo a poesia com alvas visões
Enfrentando nos sonhos os duros vilões


E vivendo e cantando os saudosos pesares
Uma via mais sacra vai tendo seu fim
De perto ouço cantar o mais vil querubim:



"Pois tu vais viver para sempre em azares**


Carregando nos ombros cruzes milenares..."***



André Cretchu, Gabriel Rübinger, 
Rommel Werneck e Ronan Fernandes


*Título provisório
** Discutimos e temos dúvidas em relação ao ritmo do final
*** Usamos dodecassílabos

domingo, 16 de janeiro de 2011

PRIMEIRA CRIAÇÃO COLETIVA DO ANO





O soneto alexandrino foi proposto pelo bardo Vitor de Silva. Com certeza, trata-se de uma forma de mostrar o alexandrino fora de releituras parnasianas provando seu esplendor estético.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NUMA FORTALEZA DE FRONTEIRA




Cigarras reclamando das amoreiras magras
na oitava lua pesarosa, no trecho da fronteira.
Pelo portão e atrás, todas juntas na estrada,
nada em nenhum lugar senão a grama e os juncos amarelos
e os ossos dos soldados de You e de Bing
que na areia empoeirada sepultaram suas vidas.

Jamais deixe que um cavaleiro te mova para a inveja,
com a soberba de seu cavalo e sua cavalaria.



WANG CHANGLING

Tradução: Gabriel Rübinger



original:




Imagem: Sangetsu-an,  Tōshi Yoshida.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

HORÁCIO - ODE XXX, III





Filho dum escravo liberto na antiga Roma, Horácio é conhecido por celebrar a vida. A temperança, a calma, o festejo, o vinho, o colher do dia: temas recorrentes em sua literatura. Inovando por revitalizar as odes em sua época, ele mesmo afirma na Epístola aos Pisões que todo poema deve ser, antes de tudo, bem trabalhado. Não era seu objetivo fazer poemas grandíloquos em temas e extensões - antes odes curtas e perfeitas. Para isso ele transpôs diversos metros gregos líricos (unidades de medida do verso) para o latim (as duas línguas baseavam-se num sistema de sílabas longas e breves, diferente da nossa), abrindo um novo caminho no que tange a poesia. Todo seu pensamento é condensado em duas palavras: carpe diem, expressão essa que ele mesmo cunhou na sua Ode XI, do Livro I. A ode abaixo é a XXX do livro III, vertida em português por antiga tradução de José Augusto Cabral de Melo, datada de 1853. Agradecimentos a Harvard College Library por dispor o livro.

Perfiz um monumento mais durável
que o bronze, e mais sublime
que as soberbas pirâmides,
o qual não podem as danosas chuvas
destruir, nem o Áquilo furente,
nem a série sem-número dos anos,
nem dos tempos a fuga.

Não morrerei de todo, grande parte
de mim há-de evadir-se
à cruel Libitina.
Crescerei sempre, nas vindouras eras,
de novo aplauso laureado, enquanto
subir ao Capitóilo o grão pontífice
co'a virgem taciturna.

Nas terras onde estrepitoso corre
o Áufido violento,
nas áridas campinas
de águas carecedores, onde Dauno
reinou potente sobre agrestes povos,
dir-se-á de mim, que, de uma baixa origem
tornando-me preclaro,

Fui o primeiro que os cadentes versos
apropriei eólios
aos ítalos acentos.
Toma a nobre altiveza a que, Melpômene,
te dá o direito o mérito supremo,
e favorável minha fronte cinge
com o délfico louro.


XXX
Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non Aquilo inpotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
Non omnis moriar multaque pars mei
uitabit Libitinam; usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita uirgine pontifex.
Dicar, qua uiolens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnauit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. Sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge uolens, Melpomene, comam.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Virgem de Jaci






Nas noites peroladas, uma Lua
ao subir no horizonte, branca e nua,
deitava do seu manto a claridade.
As belas moças virgens procurava
nas matas, o fulgor que branquejava
tornava a carne em luz de castidade.

Fosforescência nívea das estrelas
via brilhar. Jaci, querendo tê-las
nas telas tão diversas do infinito,
roubou-as. Uma virgem, tendo ouvido
a história, com o peito comovido,
fugiu, atrás do brilho irrestrito.

Uma névoa de sonho banha a tribo,
nem lhe sentem a falta; e sem estribo
vaga pelas colinas e montanhas.
Tentava em vão alçar até Jaci,
como se a luz perfeita do rubi
chamasse a descobrir novas façanhas.

E o soluço dos dias assim seguiam,
como se os olhos dela não a viam
e a madrugada, o pranto despejasse
num rio caudaloso, em meio as águas
que do sonho cerziu e se fez mágoas,
e no coração puro um duro impasse.

Certa noite a lagoa era um espelho
de prata a refletir Marte vermelho.
Qual pérola, Jaci, toda de branco
olhava com ternura maternal
sobre a lagoa. Ela, ao lavar o sal
Das lágrimas, achou-lhe o doce flanco.

Na imagem afogou seu sofrimento
e para sempre foi. Nesse momento,
apiedou Jaci, por tanto amor
que teve em seu anelo. Mas não quis
torná-la estrela para a noite gris,
quis lhe fazer a mais sublime flor.

E na floresta crespa de saudade
chorou-se sua perda em mocidade
ignorando a sorte que viria:
desenhada das mãos cheias da Lua
nas águas safirínicas flutua
 e um aguapé alvíssimo nascia.

Gabriel Rübinger e Vitor de Silva

Foto: Thiago Pinto Nogueira

quinta-feira, 1 de julho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

Confúcio


Na antiga Linzi certa vez pousou
Um velho homem numa montaria.
Andara muito, ao pórtico apeou,
A mente cheia, a cidade vazia.

Contavam que por onde ele passou,
Calava a brisa, o rio e a cotovia.
Na antiga Linzi certa vez pousou
Um velho homem numa montaria.

E semeou nas trilhas onde andou
A retidão, a honra e a calmaria;
Também foi pobre, e como nós errou.
O branco lótus da sabedoria,
Na antiga Linzi certa vez pousou.

domingo, 2 de maio de 2010

Solilóquios




Ao caminho das pedras eu cismava
certa altura da noite, solitário.
Uma estrela teimosa engrinaldava
o luar, desfraldando o leve pálio.
Nas campinas o breu se fez em mim,
singular, com tremor de fundo assombro.
Repensava o destino e fui, enfim,
com o fardo da Dor sobre o meu ombro.

Repensava o destino e seu mistério,
numa agônica luz do pensamento
a jazer no meu peito um grito estéril!
Que razões eu buscava? Que alento
haveria no universo da saudade?
Vou contar-lhes, que a mente 'inda está clara,
nesta treva em que minha Dor invade
como a tarde caindo na seara.

Se nem posso dizer do meu passado
sem ao peito apertar sufoco grave
e na face um sorriso consternado,
posso ao menos contar que foi suave
a lembrança do amor de então perdido.
Quem me viu nesse tempo, hoje sabe
que nem basta morrer. O amor ferido
punge mesmo depois que tudo acabe.


Mas se a luz, qual condão das formas puras
de vestais, ensolara a vida inteira
de quem sente surgir nestas verduras,
novamente a esperança altaneira
num espasmo de cândido temor
vem soprar essa alma calejada
que sentira do excelso o seu candor,
um sonhar com perfume de alvorada.

Gabriel Rübinger e Vitor de Silva



domingo, 4 de abril de 2010

Fogueira



Quero queimar meus versos na fogueira,
jogar-me junto, arder-me nessa chama,
pois meu destino é o mesmo da madeira
que enquanto morre o seu choro declama.

Como ela quando canta a derradeira
cantiga aquebrantada, e o fogo brama,
estala e treme o dorso e a cabeleira
do galho que se esfuma em lindo drama.

Quero queimar-me para ter na boca
a voz dos ventos, dos rios uivantes,
da noite lamentosa, fria e oca,

Para acalantar no berço ardendo,
como plangem os ramos soluçantes
pela fogueira, lúgubres, morrendo....

terça-feira, 16 de março de 2010

O Acender da Pira



Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.

 
O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.


A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

INFINITA EST VELOCITA TEMPORIS


Um dia, ao caminhar sozinho à tarde,
Achei-me por abrigo amiga sombra
De uma castanheira antiga e fresca.

Adormeci, cansado da jornada,
E me senti levado por mil anjos
Em nuvens vaporosas, fumeantes...

Sonhei que ouvia o rio uma cantiga
Cantarolar, com voz de flauta-doce,
Enquanto desmanchava-se no solo...

Jamais ouvi cantiga mais tristonha,
E a ave enorme e funda que era a noite
Abria as asas, leves, finas, pretas,

Mantos, lagoas mansas e silentes...
A Lua era lutosa, alta chorava
Estrelas ofuscadas do seu brilho...

Semelhava a um cisne solitário
Na imensidão das águas, dissolvido
Nas ondas, ponteando indiferente...

E um ancião, atrás dum arvoredo
Já seco e esquelético, rodava
A corda do relógio do Universo.

No lumiar dos olhos vislumbrados,
Vi o nascer de árvores secretas,
De pomos suculentos e polidos...

Depois, as vi secarem. Vi nascerem
De novo, e outra vez, e vi que a vida
Era o suceder de ante-nascências...

Depois de soslaiar dos infinitos
Espaços do holograma da existência,
Acordo. E ainda via o turbilhão.

Não sei, por ser mortal, o que me fora
Contado nessa tarde de mistério.
Do vago que conheço e que suspeito,
Dizer não posso do sono da alma.


Los entering the grave, William Blake (entre 1804-20). Água-forte com aquarela, caneta e ouro,

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Sono do Anjo



Manhã. Flores tremidas, gotejando
O orvalho frágil... O corpo seu jazia
Na cama. E delicada, ela dormia
Co'a luz do Sol no rosto atravessando...

As madeixas castanhas perfumando
O quarto... Estranha e doce calmaria.
A pele de marfim, branca, luzia,
E, bela, o meu olhar iluminando.

Os cílios fimbriando, as mãos pequenas,
E, ao suspirar, ingênuas açucenas
Na campa morna e pura vão surgindo...

Beijo-lhe a testa, suave e sincero.
E vou-me devagar, por que não quero
Que desperte o meu anjo ali dormindo!

Quadro:
Maxfield Parrish (1870-1966)
Sleeping Beauty
Oil on canvas, 1912
Private collection

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Que frio!


A noite nos olhou com olhos baços.
Que frio! Teu olhar, calmo e sereno,
Era um lascivo e lúbrico veneno
Onde pousavam meus doces regaços...

Nos réfluos desejos de teus braços,
Os cânticos da aurora em fulgor pleno...
Levantaste e sorriste, e num aceno
Apagaste-me inteiro em teus abraços!

Os sons eufonos que no breve escuro
Dissestes com tua boca, grã tingida,
São ainda lustrosos de apuro!

Nunca me esquecerei daquele açoite:
Antes do Sol claro da despedida,
Com olhos baços nos olhava a noite...

domingo, 15 de novembro de 2009

Umbuzeiro


Já tarda, finda o ano, e as esperadas
Chuvas sagradas 'inda não chegaram...
Os vultos lutuosos campos aram,
Sobre corcéis em ágeis cavalgadas.

As frutescidas horas não alçadas,
Relembram-me daqueles que passaram,
E o sofrimento de outros que ficaram
Na agonia e dor das estiadas...

Já tarda, finda o ano, e a derradeira
Esperança habita o peito arfante,
Aguardando as chuvas de Janeiro.

No ríspido chão brota uma caveira,
No céu noturno há só um diamante,
No cerrado só flora o Umbuzeiro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Canto Real de Prata e de Ouro

"Redde caesari quae sunt caesaris", voltemos às formas antigas. O Canto Real, baseado em cinco estrofes de onze versos e um ofertório, não tem muitas raízes hoje em dia. Neste Canto Real, um amante põe a amada no topo do mundo - panegírico exorbitado, fruto de paixão - e também no conflito entre o ouro e a prata, onde, no final, os dois metais amalgamam-se, junto com o rubi, cá simbolizando o Amor.

CANTO REAL DE PRATA E DE OURO

Donzela argêntea, rico fruto puro
De altíssimas montanhas, pomo louro,
Errante zéfiro, esplendor vinduro,
De alvura e graça luzente tesouro.
Donzela amada de olhos pungentes,
Penetrantes arpões, tais inclementes
Inscrustaram-te em mim... Eu, navegante
Ébrio, dos mares e mares do soante
Netuno; eu, que jamais temi o abalo,
Jamais me abati ante ao pujante,
Diante de tua perfeição, me calo.

Riqueza em flor diante ao frio e duro,
Força sempre maior que o morredouro,
Amor que cintila em todo o escuro,
Meu único brilhante valedouro.
Riqueza minha, espalhe tuas sementes,
Faz crescer dentro em mim duas nascentes.
Sê meu sol, assim sou mundo orbitante,
Sem ti sou pobre cometa errante,
Sê anjo, amor, que serei o teu halo.
Eu que longe de ti sou tão falante,
Diante de tua perfeição, me calo.

Deusa que tem nas mãos o meu futuro,
Circassiana gema, amã mouro,
Deusa, nesse momento aqui te juro:
Perto de ti sou simplório calouro.
Teus olhos, cada vez mais comoventes,
Congelam as vis, infaustas, serpentes,
Teus olhos são de lume abrasante.
Eu, inseto insignificante,
Flutuante peixe perdido num valo,
Vejo tua aura quente e radiante:
Diante de tua perfeição, me calo.

Ninfa, onde, ao lado, só figuro,
Tal onça frente ao pequeno besouro,
Ninfa, ó ninfa idílica, asseguro,
Teu nome marquei: ferro em meu couro.
Cigana cartomante, a mim tu mentes,
Teus sorrisos lindos, quando ausentes,
Prendem-me em cela, é calor sufocante.
A mim tu mentes, minha cartomante...
Lê minha alma, o corpo, e num estalo,
Lê nela que, vendo-te, minha amante,
Diante de tua perfeição, me calo.

Vestal, de todo alva, branca, apuro,
De cândido luzir, digo-te; agouro,
Vestal, some em te olhar, tão obscuro:
Meu amor de rubi, prata e ouro.
Ouro, rubi e prata: tão fulgentes,
Ante a tuas mãos, marfins tremeluzentes,
Apagam-se no amiúde dum instante.
Graça maior: pensar em teu semblante,
Do mistério que carregas e embalo,
És límpida água, e eu, néscio turvante,
Diante de tua perfeição, me calo.

Oferta:

Donzela, tu, que rege este cante,
São teus estes simples versos que falo.
Não há maior razão que estar distante,
Para amar, donzela, e digo avante:
Diante de tua perfeição, me calo.


http://recantodasletras.uol.com.br/visualizar.php?idt=1887309

REVIVALISMO LITERÁRIO


Poesia Retrô é um grupo de revivalismo literário fundado por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger em março de 2009. São seus principais objetivos:

* Promoção de Revivalismo;

* O debate sadio sobre os tipos de versos: livres, polimétricos e isométricos, incluindo a propagação destes últimos;

* O estudo de clássicos e de autores da História, Teoria, Crítica e Criação Literária;

* Influenciar escritores e contribuir com material de apoio com informações sobre os assuntos citados acima;

* Catalogar, conhecer, escrever e difundir as várias formas fixas clássicas (soneto, ghazal, rondel, triolé etc) e contemporâneas (indriso, retranca, plêiade, etc.).