quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O RETORNO DOS DEUSES

E num instante, tudo interrompido.

Tudo parou, calou-se, viu, ouviu...

Segundo antes de tudo acontecido...

Sentindo o espanto,

quem reagiu?

Calou-se o vento, as nuvens se quedaram,

o farfalhar das árvores parou.

Aves, leões, serpentes se aquietaram.

Cada animal

observou

Aquietaram-se os mares revoltosos

e cessaram as ondas do oceano.

Os navegantes, meio temerosos,

sentiram algo

de sobre-humano

Nos campos e cidades a inquietude

da vida humana em louco movimento –

máquinas, força, gente – por virtude

do acontecido

cessa um momento.

E num relâmpago que não saído

havia de qualquer nuvem, o mundo

viu luz maior que o Sol. Foi tão comprido

de luz de glória

esse segundo!

E então veio o trovão, e aquele estrondo

se ouviu por todo o mundo – céus e terras.

Soou mais do que todos juntos pondo,

mais do que as forças,

mais do que as guerras.

Todo olho viu e todo ouvido ouviu.

Os homens todos a fitar o céu.

E toda criatura em si sentiu

que algo lhes vinha

de trás de um véu.

E veio: o céu se encheu de um ribombar

como o som de um tropel de cavalgada.

Nos corações aquele reboar

dava em visão

glória passada.

O céu se abriu, e então se pôde ver

com os olhos de corpo e alma, enquanto

reluziu no íntimo de cada ser

um regozijo

feito um espanto.

Brandindo um raio, vinha à frente Zeus,

montado em seu corcel descomunal.

Se via pelo olhar do grande deus

que vinha para

vencer o mal.

Os mares pareceram se alegrar

ao ver depois surgindo Poseidon.

E ao ver, em seu cavalo, Hades passar,

tudo soou

funéreo tom.

Mas logo veio atrás a sábia Atena,

armada já pras lutas e pras glórias.

De perto segue-a Hera. Assim se acena:

poder, riqueza

seguem vitórias.

Depois, belíssima, Afrodite vem;

e o jovem Eros segue a mãe, voando.

Atrás vem Ares, belicoso, e tem

no seu semblante

o horror nefando.

E vem Apolo, e o filho Orfeu, e o doce

coro das nove Musas junto deles;

e há nesses cantos algo qual se fosse

toda a Poesia

contida neles.

Toda a corte dos deuses se seguiu,

das eras do passado ressurgida.

Aos tempos, obscura, resistiu,

e ora retorna

grande, reerguida.

Tremeu o mundo. O Olimpo então brilhou

e tudo vicejou em derredor.

A luz ao mundo todo clareou,

humano e divo

fulgor maior.

Ah! se dissipam logo os vãos temores!...

Por que temer? Isto é que sempre ansiamos!

Eis a resposta aos nossos sãos ardores!

Por que temê-lo?

Nós o esperamos!

Eis a resposta à nossa sede, enfim,

de alçar grandeza, ter saber, ver glória.

de ter virtude sendo humano, e assim,

poesia livre

do que há de escória!

E que temor os outros deuses ronda! –

os que há na terra, sobre os vãos altares.

Imagens treme a pavorosa onda,

justa vingança

dos milenares.

Por que por tanto tempo, templos vãos,

ao vosso peso os homens só curvastes?

Por que é que os desprezastes como a grãos

pelo bom Deus

que vós pregastes?

Fora ide, templos vãos, deuses imigos

do que há de grande e humano, de sublime

e livre. Longe vão vossos perigos

e o hábito vosso

de enxergar crime.

Nos templos se ouve a voz do Olimpo em brados.

Com as mãos sobre as faces em segredo,

à cava luz, entre os vitrais sagrados,

fogem imagens,

tremendo em medo.

E a luz que há sobre o Olimpo, redentora,

faz tudo ser de novo tão fecundo.

O homem é homem pela salvadora

corte dos deuses

reinar no mundo.

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